Entre a dependência e a integração: as relações entre China e Brasil.

07_StreamTease_China-BrazilA vinda do primeiro-ministro chinês ao Brasil, Li Keqiang, ascendeu uma série de interpretações equivocadas tanto entre a direita quanto entre partidários do governo. Enquanto os primeiros afirmavam que a vinda do líder representava mais um passo do comunismo e das forças globalistas para a dominação da América Latina (sic), governistas comemoraram dizendo que a vinda do líder era importante para o desenvolvimento econômico da região.

Contudo, eu sempre fui desconfiado das opiniões formuladas tanto por militantes (ou militontos) quanto por essa nova e vulgar direita brasileira guiada por intelectuais de terceira e quarta divisão. Sempre vi que tudo em sociedade é complexo e nunca será apreendido por explicações apressadas, cuja única função é afagar nossas pré-noções e nunca enxergar a verdade…

Há muita coisa envolvida na vinda do líder chinês. Vamos analisar as principais abaixo.

A China tem se tornado a incontestável sucessora dos Estados Unidos como grande potência na economia mundial. Ela está longe de ser um monstro vermelho que vai destruir a civilização cristã… O país é uma economia de mercado extremamente agressiva e tem procurado investimentos em todos os lugares do mundo. O capitalismo global depende dela, assim como ela depende do capitalismo global. Falar isso parece meio óbvio, mas num tempo onde há gente que possui Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro, Rodrigo Constantino e congêneres como ídolos e pensa que o PT está implantando uma ditadura comunista, é preciso falar o óbvio, que 1+1=2 e que o céu é azul…

O gigante do oriente precisa desesperadamente de matéria prima barata para alimentar as suas industriais e manter o fôlego do seu mercado consumidor interno cada vez mais intenso. O continente latino-americano e, por conseguinte, o Brasil, possuem exatamente isso. Somado a crise do capitalismo que agora chega em terras brasileiras, o acordo com a China se torna uma oportunidade de ouro, quase uma quimera, para o governo atual tentar reaquecer a sua economia, mesmo que isso seja a custa da venda de commodities e não de produtos processados.

Outro ponto reside da questão geopolítica. O país de Sun Tzu sabe de seu lugar no mundo, enquanto sucessor inexorável dos EUA, e está procurando impô-lo. Avançar sobre áreas de tradicional influência do Uncle Sam, como o continente latino americano, significa um passo a mais para ganhar espaço sobre o rival do norte. È uma aposta geopolítica. Investimentos lucrativos tanto para os latinos quanto para os chineses retirariam os primeiros da órbita americana e os colocaria sob a sombra do segundo, aumentado, assim, o poderio oriental sobre o globo.

A quantidade de projetos e capitais anunciados possui proporções épicas e pode ser uma oportunidade única tanto para o Brasil incrementar e reaquecer sua combalida economia atingida pela crise global, quanto pode ser um momento decisivo de integração continental da América do Sul — este continente usurpado, desprezado, tido sempre como a periferia do mundo e muitas vezes inconsciente de sua grandeza a ocupar na orquestra global.

Contudo, incomoda-me o fato de que o Brasil, assim como os seus vizinhos do sul, estarem se tornando dependentes demais do capital chinês. È como se nós não conseguíssemos, por nossa própria natureza dependente e heteronômica, nos integrar por iniciativa própria. Também incomoda que nossa economia pareça repetir o mesmo vício estrutural que nos amaldiçoa desde o início da espoliação europeia: nos recusamos a realizar as duras, mas necessárias, reformas estruturais capazes de gerar um ciclo de desenvolvimento social e econômico endógeno e de longa duração.

Ao invés disso, nós, brasileiros e Latino Americanos, preferimos repetir o ciclo de dependência estrutural. Antigamente tínhamos a economia tutelada por Portugal e Espanha, depois essa tutela passou para a Inglaterra, Estados Unidos e, agora, pode cair nas mãos da China.

Os acordos firmados com a China podem ser uma alternativa, se bem aproveitada pelo Brasil e pelas outras nações sul-americanas, se eles forem usados como um primeiro passo na criação de um desenvolvimento a partir de dentro, isto é, um desenvolvimento que leve em conta as necessidades do povo latino: a questão da desigualdade e da democracia plena e cidadã.

Caso os novos projetos sejam apenas um fim em si mesmo, vamos amargar mais cinquenta anos de áspera reprodução estrutural de nossas desigualdades e subalternidade — não mais ao capital americano, mas agora ao capital chinês.

Não sou um entusiasta da ascensão chinesa, como alguns colegas o fazem ao considerá-la uma quimera para os problemas do país e da América Latina, e nem um horrorizado com a possibilidade de uma potência comunista e satanista destruir as tradições brasileiras, como pensam alguns espécimes da direita vulgar nacional. Em politica internacional, ninguém é apenas o diabo e tão pouco um anjo. Prefiro ver o processo de maneira prudente, com olhos cuidadosos, ciente de que alianças, oposições e caminhos tomados podem influenciar, para bem ou para o mal, a nossa história.

É assim que deveríamos ver nosso mundo moderno e globalizado.

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