House of Cards: os limites da democracia liberal

Chouse-of-cardsonsiderado como um dos seriados mais aclamados e polêmicos da atualidade, House Of Cards, produzido pela Netflix, demonstra de maneira realista os bastidores, a competição e a luta pelo poder dentro do país mais poderoso do mundo, os Estados Unidos da América.

Nela vemos a história de um congressista democrata, Frank UnderWood, que, depois de ter trabalhado duro pela vitória do candidato a presidência de seu partido, Garret Walker, se vê traído ao perceber que o vencedor não cumprira a promessa de nomeá-lo como Chefe de Estado. Isso detona toda a trama da história. Agora, o deputado, para vingar-se, tentar subir na esfera de poder pelos seus próprios meios, nem que isso signifique trair aliados, espalhar notícias falsas pela imprensa para derrubar adversários, dar maus conselhos ao presidente para prejudicá-lo ou até mesmo matar pessoas capazes de representar algum problema para seus planos.

A maneira como é mostrado a ascensão de Underwood, um verdadeiro Ricardo III moderno, ao mover-se gradativamente de satélite para o centro irradiador do poder, é extremamente convincente, retratando as negociatas, as traições, o jogo duplo de todos os atores políticos e econômicos num pragmatismo seco e chocante. Tudo isso temperado pelas reflexões ácidas do protagonista, como por exemplo, quando ele, ao conquistar finalmente a presidência, graças as suas artimanhas que resultaram no processo de impeachment do presidente Walker, diz: Eu me tornei presidente dos Estados Unidos sem ter ganhado um único voto…

Contudo, a saga, baseada na novela de mesmo nome de Michael Dobbs, se torna interessante não apenas pelo que ela mostra, mas também pelo que ela não mostra. Nela vemos deputados, senadores, prostitutas, lobistas, jornalistas carreiristas e assessores em uma competição constante, numa luta de todos contra todos, de grupos sustentados por poderes econômicos, onde alianças podem se desfazer conforme as circunstâncias ou conforme as intenções dissimuladas dos competidores. Mas, nessa luta incessante pelo poder, onde fica o zelo pelo bem público, os projetos de lei para aperfeiçoar a sociedade, os homens comprometidos com a coletividade? Mais ainda, onde estão os movimentos populares para pressionar pela reforma social? Esses, quando aparecem na série, apenas surgem de maneira colateral, não como coadjuvantes, mas como figurantes de um cenário. Surgem discretamente, feito instrumentos das negociatas politicas e logo somem, como nos episódios em que Underwood usou um projeto de reforma educacional para ganhar visibilidade no congresso, ou quando o sindicato dos professores são usados como instrumentos para mostrar a força do protagonista. Vemos que, em House of Cards, a Politicalha, para usar as palavras de Ruy Barbosa, ganha relevo sobre a Política. O zelo pelo bem público é atropelado pelo poderio econômico, pelo carreirismo de políticos que são verdadeiros sociopatas e por assessores mais interessados em manter o emprego e ajudar seus empregadores a aniquilar rivais, nem que isso custe destruir reputações lançando notícias falsas com ajuda de jornalistas venais.

Num mundo como esse os bem-intencionados terminam manipulados ou são cuspidos do jogo de poder.

Qualquer semelhança com a história politica do Brasil, desde a colônia, até os tempos atuais, não é mera coincidência…

Mas porque esse fenômeno acontece? Seria um processo que ocorre apenas por uma questão individual, pela desonestidade de nossos líderes ou seria uma consequência inesperada criada pela nossa própria sociedade, baseada no modelo liberal representativo?

Para responder essa pergunta precisamos reportar ao sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), que se interessou em estudar o processo formação do estado moderno na Alemanha, a burocratização e a racionalização de todas as esferas da vida que, para ele, eram tônica da sociedade moderna. Apesar de liberal, Weber via com olhos céticos o processo de expansão do que ele chamava de capitalismo racional com relação a fins. O pensador também observou com muita atenção a consolidação das democracias liberais em todo o mundo, especialmente em seu país. Para ele, a partir do momento que a democracia liberal se firma como modo de governar dominante, ou se rotiniza, elas passam não mais a exercer as suas funções originais, no caso lutar pelo aperfeiçoamento da sociedade e pelo bem da população, mas trabalhar em prol de sua própria manutenção. Sem embargo, a nossa democracia e seus líderes, ao invés de estarem sintonizados com as demandas gerais da sociedade que os sustenta, se voltam para os seus próprios interesses. Não a toa, o sociólogo dizia que esse processo criava uma grade de ferro que pesava sobre os indivíduos e só teria fim quando a ultima tonelada de carvão fóssil fosse queimada.

Essa é a razão pelo qual vemos nossos congressistas, não apenas brasileiros, mas em vários outros países, conseguem aprovar com tanta facilidade emendas que aumentam seus salários, expandem suas verbas de gabinete, amplificam o número de assessores ou aprovam leis que beneficiam grandes blocos econômicos que patrocinaram suas campanhas; ao mesmo tempo, projetos de maior urgência para a população em geral são esquecidos.

São os mecanismos institucionais que se rotinizam e passam a trabalhar em prol de si mesmos, deixando de lado o real motivo pelo qual foram criados.

Isso prova que, ao contrário do que é alardeado pela mídia, o chamado Estado de Direito e a Democracia Representativa, longe de serem considerados a melhor forma existente ou a única possível, se trata de uma forma de governo extremamente limitada e distorcida, sujeita a desviar-se muito facilmente de sua função original.

Weber
O Sociólogo alemão Max Weber.

Embora House of Cards acerte em mostrar como funciona os mecanismos do poder, retratando o Congresso como uma casa de arrivistas, não chega, pelo menos ainda, a mostrar uma solução para uma reformar politica. Todos os inimigos de Underwood foram completamente destruídos. Também pudera, esse é um dos paradoxos da industria supostamente autônoma do entretenimento. Embora saiba dos defeitos da ordem social, uma saída nunca é esboçada, pois a própria Netflix se beneficia dela financiando vários lobistas na Casa Branca para fazer com que os interesses da empresa nunca sejam esquecidos… Apesar de toda torpeza que vemos nos personagens que lutam desesperadamente pelo poder corruptor e corrompido, este se apresenta como a única saída possível: ruim com ele, pior sem ele.

Cabe a sociedade, como o verdadeiro patrão do Estado e do Congresso, pressionar cada vez mais para que os procedimentos e as formas de financiamento de campanha sejam cada vez mais transparentes, sujeitando-se a uma gestão democrática e condizentes com as demandas da maior parte da sociedade: os trabalhadores.

House of Cards, ou melhor, os limites da democracia liberal.

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