O Brasil não é vermelho, é verde e amarelo? Reflexões sobre o conservadorismo brasileiro.

imagesLogo após as eleições para presidente, foram organizadas uma série de manifestações de caráter ultraconservador contra a candidata reeleita para presidente nas eleições democráticas. Embora aglutine vários grupos com interesses diversos, que vão desde aqueles que apoiam um golpe militar, o rompimento do Brasil com os vizinhos bolivarianos, o repúdio aos programas sociais e o apoio ao recrudescimento da politica de segurança pública, os manifestantes possuem em comum o fato de proporem a retirada da presidente e do seu partido da liderança do executivo, sob a justificativa de que seriam comunistas.

Muitos dos que discordam do conteúdo conservador destas manifestações estão chamando-as de fascistas, retrógradas, jurássicas e outros nomes menos amistosos. Confesso que eu também não sou simpático ao conteúdo politico destas passeatas. Contudo, é necessário levar em conta que tais ideias e representações não surgiram no vácuo da história e nem são produtos de meia dúzia de coxinhas fanáticos contra um governo supostamente de esquerda. Analisar dessa forma significa apenas captar a superfície do processo. A verdade é que o conservadorismo está profundamente arraigado no senso comum do brasileiro e faz parte de nossa formação histórica.

Mas o que é o pensamento conservador?

Para o conservadorismo, as sociedades possuem certos pilares fundamentais que a sustentam, como a família, o casamento, a autoridade e a religião. Estas instituições e valores devem ser preservadas sob o risco de a sociedade perder o seu sentido e entrar inevitavelmente em decadência. Para o pensamento conservador, a tradição deve guiar a vida dos homens. Isso não significa que os conservadores sejam contra a modernização das sociedades. O mundo deve seguir em frente, mas sempre tendo em vista certos preceitos como elemento referencial de sua marcha.

A tradição, sob esta óptica, funciona como um organizador das visões de mundo e das ações dos indivíduos. Ela é profundamente hierarquizadora. Isto é, ela estabelece os lugares sociais onde cada grupo ou individuo deve ocupar. Não há lugar para o questionamento dessa hierarquia. Ela existe para organizar, guiar e dar sentido ao mundo e, por isso, deve ser respeitada. Sem ela a civilização não existiria.

Essa importância dada à tradição pelo conservador típico se dá em virtude de que, para ele, o homem é naturalmente mal, egoísta, mesquinho, propenso á guerra e ao desrespeito para com seu semelhante. A única forma de segurar essa propensão maligna seriam as leis e sanções duras sobre ele. Só assim seria possível viver em sociedade.

No Brasil o pensamento conservador encontra sua expressão máxima na obra de Gilbert Freyre, para quem a formação brasileira é única e geradora de uma matriz civilizacional especifica. O mandonismo, o patrimonialismo, a família patriarcal e a democracia de raças, frutos de uma sociedade onde tantos negros quanto brancos teriam possibilidade de ascender socialmente, seriam traços que deveriam ser preservados por expressarem as características únicas da sociedade brasileira.

A nossa sociedade, segundo Freyre, seria caracterizada pela harmonia dos contrários. Isso significa que os lados opostos como o negro e o branco, o pobre e o rico, o proprietário e o trabalhador estariam ligados por laços de solidariedade que trariam um equilíbrio à sociedade brasileira, evitando a eclosão de distúrbios em nosso meio.

Com uma história social baseada quase em sua totalidade no esmagamento dos mais pobres e na destruição sistemática daqueles que ousassem criticar a hierarquia estabelecida, o Brasil sempre foi extremamente hierarquizado. Sempre esteve no senso comum da população em geral de que cada um deveria saber o seu lugar e respeitá-lo, seja o pobre ou o rico, o negro ou o branco, o trabalhador ou a empresário. Por isso sempre se pensou que protestos ou manifestações dos mais desfavorecidos são coisas de vagabundo, artimanhas do comunismo ou articulações de partidos de esquerda; politicas de cotas raciais ou de distribuição de renda sempre passariam como algo que humilhasse os pobres amarrando-os a uma politica de cabresto; projetos de lei que dessem mais voz aos movimentos sociais ou programas de bolsas para estudantes pobres cursarem faculdade no exterior são vistos sempre de forma ameaçadora.

A velha estrutura rígida e autoritária da sociedade brasileira passa então a ser contestada e posta abaixo pelo movimento tímido de mobilidade imposta por estas politicas sociais democratas do atual governo. Surgem então os movimentos de resistência, milhares de indivíduos se reunindo em manifestações clamando contra o bolivarianismo do governo, contra as estratégias de dominação comunista, contra o globalismo, contra o darwinismo e satanismo nas escolas e outros epítetos. Clama-se pelo volta dos militares ou da monarquia, pelo fim dos sindicatos, pelo fim da CLT, pelo fuzilamento de todos os petistas ou pela agressão de qualquer pessoa que use camiseta vermelha ou que lembre algo relacionado às esquerdas.

Por detrás dos indivíduos clamando pela manutenção de valores que lhes são mais caros, vemos as estruturas arcaicas, rígidas, autoritárias e hierarquizantes, assentadas em séculos de espoliação dos mais pobres, reagir e lutar contra a mudança. É através destes indivíduos e grupos mais conservadores, e apenas através deles, que a sociedade estática e antidemocrática, onde cada um deveria ter o seu lugar e se satisfazer com ele, se manifesta.

O que vemos, portanto, é uma sociedade injusta lutando para manter algo que faz dela o que ela é: sua desigualdade.
Não estou condenando as pessoas que são partidárias das manifestações pró-direita, na verdade acho que numa sociedade democrática todos possuem o direito de se manifestar sobre o que bem entender. Contudo, é preciso levar em conta que, por detrás do discurso: O Brasil não é vermelho, é verde e amarelo, há toda uma representação social de caráter extremamente antidemocrático e autoritário, que nega aos mais fracos o direito de se manifestar ou almejar um lugar mais alto na estrutura social.

De fato, o Brasil não é vermelho. Mas é autoritário e antidemocrático.

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