O Mundo à Revelia: a verdade como objeto de luta

Estes tempos são tempos de caos; as opiniões são uma disputa; os partidos são uma confusão; ainda não foi criada uma linguagem para as novas ideias; nada é mais difícil do que dar uma boa definição de si mesmo em religião, em filosofia, em política. Sente-se, conhece-se, vive-se e, se necessário, morre-se por uma causa, mas não se pode denominá-la. É um problema desta época classificar as coisas e os homens… O mundo embaralhou o seu catálogo.

Lamartine (1790-1869)

As palavras de Lamartine nunca fizeram tanto sentido. Embora escritas no século XIX, elas traduzem muito bem os sentimentos de confusão, de vórtice, de torvelinho e de caos que caracterizam nossa época. Sem dúvida, vivemos num mundo onde as instituições, as relações, os indivíduos, e mesmo nossos valores mais importantes, se modificam a tal ponto que nos fazem sentir confusos, sem qualquer ponto de referência que possa nos dar uma sustentação.

A modernidade é o tempo em que nós somos deixados à deriva e onde somos forçados a tentar construir nossos próprios valores e a criar nossas próprias referências.

Num mundo onde as opiniões são uma disputa; os partidos são uma confusão, vivemos em volta de uma quantidade enorme de valores, crenças e correntes políticas tão numerosas quanto as estrelas no céu, que lutam constantemente entre si pela supremacia no mundo social.

No mundo moderno, a verdade se tornou um objeto de lutas.

Mas porque isso acontece?

As sociedades contemporâneas se desenvolveram de tal forma que, os indivíduos e grupos, ao ocuparem um lugar específico no mundo social, passam a gerar uma forma própria de ver o mundo.Os trabalhadores sem terra, os trabalhadores das indústrias, os sem teto, os empresários do agronegócio, os intelectuais, os imigrantes, a classe média, a grande e pequena mídia, ou seja, os indivíduos das mais diversas origens sociais geram as variadas formas de ver, pensar e problematizar o mundo; cada uma delas obedecendo a um grupo, coletividade, indivíduos e interesses diversos; cada um deles procurando sistematizar a autoconsciência de si mesmos para lutar pelo seus interesses.

Nossa época é a época da pluralidade de valores. Nenhum valor é mais importante ou mais verdadeiro que o outro. Nenhum está acima ou abaixo. Todos estes valores estão em luta e cabe a nós escolhermos quem serão nossos anjos e nossos demônios. A Verdade, ou seja, a verdade imóvel, absoluta em sua essência, integral, autossuficiente e eterna, nunca poderá ser apreendida por completo, pois no mundo líquido moderno ela sempre será opaca, impenetrável e irredutível à clareza humana.

Vivemos num mundo à revelia, onde temos um cardápio de valores e crenças as quais podemos escolher segui-las ou rejeitá-las. Nenhuma delas é absoluta, pois pode deixar de nos satisfazer ao primeiro sinal de revés. Podemos mudar de religião, de gênero, de corrente política ou de família; podemos mudar completamente o arsenal de nossos valores apenas para nos adaptarmos melhor a uma determinada situação. Afinal, um dos mais caros provérbios modernos é “seja tu mesmo” e o ser hoje é tão maleável e multiforme quanto podem ser os líquidos. No mundo da mudança, quem não está preparado para mudar conforme o cenário estará invariavelmente condenado à ruína, ou à morte. Ir sempre a frente é preciso, e aquele que não se move morrerá.

Vivemos num mundo à revelia, representamos uma peça cujo fim provavelmente será trágico.

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