Conto: A Defesa da Tese

O dia mais esperado da vida do jovem pesquisador tinha finalmente chegado. Naquela manhã quente ele defenderia diante de uma banca de três pós-doutores a sua incrível e original tese de doutorado. Depois de quatro árduos anos pesquisando, lendo, escrevendo, revirando arquivos, realizando entrevistas, cruzando dados e combinando teorias, finalmente a pesquisa estava pronta para ver a luz do mundo. Era para ele como uma filha querida, como uma obra de arte que aos poucos vai se formando, ganhando alma e desenvolvendo sua própria personalidade até que era chegada a hora de ela colocar os pés no mundo, já adulta e sair por ai, de congresso a congresso, de pesquisador a pesquisador, solta pela cena acadêmica para um destino glorioso…

Não foi fácil a gestação da sua querida filha, que naquele dia teria de passar pela avaliação rigorosa daqueles três medalhões do mundo acadêmico. Foram anos de intensa investigação, de insônias, de sofrimentos, de noites perdidas na solidão do gabinete de estudos, de tentativas fracassadas de inserção no campo de pesquisa, de confusão quanto aos dados colhidos, de broncas do professor orientador, de crises de hipertensão, de ansiedade, de estresse, de relacionamentos perdidos e de uma confusão extrema da vida pessoal do pobre jovem.

Mas para o seu alivio, tudo aquilo tinha passado.

Naquele dia levantou-se cedo. Não tivera uma boa noite de sono. Tinha lapsos de ansiedade enquanto olhava para o teto do quarto e imaginava as piores coisas possíveis, como sendo humilhado pela banca em virtude de sua própria incompetência e sendo sumariamente reprovado.

Também imaginava a gargalhada geral da audiência, o que lhe deixava inevitavelmente mais aflito. Quando esses pensamentos viam-lhe a mente sentia umas palpitações no peito, os olhos marejavam e um calor subia-lhe a fronte. Embora tentasse espantar essas conjecturas vãs, elas dominavam-no, brincavam com sua mente, embaralhavam suas certezas e prostravam seu espirito.

A hora para a defesa estava agendada para as oito horas da manhã. Embora no relógio fosse pouco mais de cinco e meia, tomou café com pressa, banhou-se desesperado e se vestiu sem passar a roupa, uma calça de pano preto e uma camisa de botão azul. Isso lhe conferiu um ar extremamente desleixado. Não se despediu da família que àquela hora estava ainda desfrutando da parte final do sono. Enquanto terminava os últimos preparativos murmurava a fala que fora cuidadosamente ensaiada para a apresentação. Entrou no carro e dirigiu para o maior evento da sua vida dos últimos quatro anos.

Chegou ao Centro de Estudos Sociais Avançados da Universidade quando ela ainda estava parcialmente vazia. O estacionamento tinha poucos carros e ele colocou o seu debaixo de uma frondosa árvore. Foi até a lanchonete e ficou tomando litros de café, se mexendo convulsivamente na cadeira e enxugando as mãos suadas na calça.

Quando a secretaria de pós-graduação foi aberta, ele foi resolver alguns trâmites legais que necessitavam de atenção. A funcionária do recinto, quando o viu, perguntou:

“Tudo bem com você?”

“Estou bem…” Respondeu, enquanto pegava com as mãos tremendo alguns papeis para assinar.

Foi para a sala onde ocorreria a palestra. Arrumou o notebook, o data show, as cadeiras e as águas que ele e a banca examinadora tomariam.

Sentou por um momento numa das cadeiras e ficou olhando para o chão. Suava muito e as mãos tremiam.

“Eu tenho que me controlar…” Disse de si para si.

Mas não conseguia. Por mais que pensasse em coisas para se reconfortar como “Só vou dividir os resultados da pesquisa” ou se lembrasse dos comentários do orientador “Esse trabalho vai virar referência, não tenho dúvidas.” Ele não se convencia. Levantou-se. Ficou andando de um lugar para o outro murmurando coisas sem nexo. Voltou a sentar-se. Sentia-se tonto e o coração estava disparado. Pegou um copo de água e bebeu tudo de um único gole. Foi quando estava deixando o copo sobre a mesa que chegou um dos amigos para vir assistir a apresentação.

“E ai, preparado?” Disse rindo o conhecido, enquanto tocava o ombro do doutorando.

“Sim, melhor impossível…” Disse sem olhar nos olhos do interlocutor.

“Hoje vai ser bem legal… Uma etapa que termina e outra que começa…”

“Vai ser o meu fuzilamento…”

“Como?”

“Deixa pra lá, mano…”

Os dois foram sentar-se.

Aos poucos outras pessoas foram chegando para assistir a apresentação daquela pesquisa que muitos comentavam como uma das mais originais dos últimos anos e que inaugurava uma nova linha de estudos sociais naquela região brasileira tão maltratada pelas agências financiadoras nacionais. Quanto mais chegavam pessoas, mas o pobre diabo se exasperava.

“Vieram ver o meu fuzilamento…” Pensava.

Uma garota muito bonita, de cabelos loiros e curtos, olhos claros e seios grandes veio ter com ele.

“Oi, meu nome é Márcia…”

“O meu é Gilberto, prazer…”

“O prazer é nosso…” Disse com um sorriso. “Eu estou no primeiro ano do mestrado… Minha orientadora disse que a minha pesquisa tem a ver com a sua e que seria uma boa eu ler o seu trabalho…”

“Será?”

“Acho que sim… Estou ansiosa para ver sua apresentação…”

“Muito obrigado…” Ele suava como um condenado que trabalhava nas prisões da Devil´s Island.

Quando ele ia falar mais alguma coisa, os três professores, seu orientador e dois doutores convidados que integrariam a banca de avaliação, entraram e houve um burburinho entre a audiência.

“Boa sorte…” Disse a garota antes de ir sentar-se.

Nesse momento todos foram para os seus lugares e o coração de Gilberto quase sai pela boca.

“É agora…”

“E ai, rapaz… Parabéns… Gostei do trabalho…” Disse-lhe um dos professores logo antes colocar sua pasta sobre a mesa e acomodar-se.
Em resposta, Gilberto apenas acenou com a cabeça.

“Meu filho, é hora de você arrebentar…” Falou seu orientador.

Gilberto estava com o coração quase a rasgar do peito e sair por ai, correndo desgovernado como um cavalo selvagem.

“Vou me foder…” Pensou.

“Eu gostaria de agradecer todos que vieram aqui acompanhar e prestigiar a defesa de tese do aluno Gilberto Moreira Paes, aluno do Programa de Pós-Graduação…” Disse seu orientador ao fazer o pronunciamento de solenidade.

O pesquisador apenas olhava para baixo enquanto se afundava na própria confusão mental.

“Vemos aqui uma fusão de duas correntes teóricas como fundamentação empírica que nenhum pesquisador de nossos círculos fizera até agora… O resultado foi a descortinação de aspectos de nossa realidade que não tínhamos notado…” Não adiantava. Mesmo que ele ouvisse todos esses elogios, sua mente estava embaralhada. Seu corpo tremia de pânico, os pelos da nuca arrepiavam-se e a têmpora transpirava muito suor. A camisa debaixo do seu sovaco já estava completamente molhada.

Agora vamos passar a palavra para o Gilberto que terá total liberdade para expor sua pesquisa sem se incomodar com o tempo.
Gilberto ajeitou-se na cadeira, enxugou o suor da testa e preparou-se para falar. Toda a plateia encheu-se de expectativa. Era o momento que todos esperavam para conhecer de perto a tese e saber como o jovem pesquisador fez para chegar àquelas conclusões polêmicas e desafiadoras.

Os alunos do mestrado e da iniciação cientifica olhavam para ele com admiração, os doutorandos com uma pontada de inveja e a banca, especialmente o orientador, olhavam-no com grande satisfação.

“Bem… Esse trabalho…” Começou Gilberto.

Contudo, não teve tempo de terminar a frase. Um colapso nervoso tomou conta de todo o seu corpo. Um raio envolveu sua visão, que escureceu.

Seu corpo enrijeceu-se e ele caiu ali no chão, sem sentidos.

Não é preciso dizer ao leitor que foi um pânico enorme na sala. Muitos choravam. Outros colocavam as mãos no rosto de pânico. Chamaram a ambulância e levaram o pobre coitado, que ficou entre a vida e a morte por quase três semanas na Unidade de Tratamento Intensivo lutando contra um acidente vascular cerebral.

No final a lesão neurológica venceu e Gilberto Paes foi enterrado entre os prantos da família e o pesar da comunidade universitária que sentiu ter perdido um promissor talento.

A única coisa que aquele pobre diabo deixou ao mundo foi uma tese que passou a ser estudada, interpretada e quase venerada por uma quase infinidade de estudantes e pesquisadores que tentavam achar nela as chaves da interpretação das coisas.

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4 comentários sobre “Conto: A Defesa da Tese

  1. Marcus Gomes

    Sensacional! Comecei o doutorado em Sociologia Política recentemente e tenho certeza que compartilharei completamente do desespero de Gilberto (embora torça para um desfecho diferente! rs). Adoro esse blog!

  2. Venâncio

    po, massa em…to curtindo ler teus textos…li um artigo um tempo atrás que comentava justamente sobre essas “doenças nervosas” que acometem muitos pesquisadores em início de carreira…

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