Os Segredos da Igreja Universal

bastidoresUm dos fenômenos mais interessantes da história brasileira recente é a sensível mudança no perfil religioso do brasileiro. O surgimento e fortalecimento de várias outras denominações e credos, como o espiritismo, as religiões de matriz afro e os neopentecostais, tem operado num sentido de abalar a hegemonia há muito desfrutada pela igreja católica no mercado da fé.

O livro Nos Bastidores do Reino: a história secreta da Igreja Universal, de autoria de Mario Justino, um ex pastor da referida instituição, trata especificamente da ascensão do credo neopentecostal no Brasil, mostrando todos os atos escusos, alianças e táticas nada divinas que fizeram da Igreja Universal um mega império e tornou Edir Macedo um dos homens mais poderosos do Brasil.

A obra causou enorme polêmica quando foi lançada, em 1995. O Reino chegou a entrar na justiça barrando sua venda, mas a editora recorreu e conseguiu a direito de ter a obra nas livrarias.

Mario Justino narra sua fantástica biografia que é a de um menino pobre que entra para os quadros da Igreja Universal e torna-se um dos seus maiores e mais bem sucedidos pastores. Lá encontra um quadro bem diferente daquele que é apresentado aos fiéis e ao público em geral: um jogo de intrigas e disputas que norteavam os pastores; as pressões para aumentar a todo custo o rendimento das igrejas filiais; os métodos desonestos para convencer os fieis a darem todo o seu dinheiro para a igreja; o autoritarismo de Edir Macedo e as patentes diferenças de classe entre os pastores do baixo e do alto clero; enquanto aqueles exerciam a sua profissão sob as condições mais precárias, sem ao menos receber o suficiente para ir e voltar do seu local de trabalho, forçando muitos a morar nos templos, os pastores da elite gozavam de toda uma série de privilégios, como apartamento pago pelo igreja e direito a viagens internacionais.

Ao contrário das pompas de santidade que hipocritamente exalam dos cultos, dos programas de TV e rádio apresentados pelos pastores, entre os pastores reinava um estilo de vida nada cristão com direito a homossexualismo, drogas e orgias — tudo tendo o cuidado de ser abafado pelo primeiro escalão do Reino, exatamente como fazia a igreja católica.

A pressão psicológica que os métodos da Universal exerciam sobre os pastores fez Justino cair em depressão e se viciar em maconha — ele chegou ao ponto de não conseguir realizar um único sermão sem ter dado o indispensável tapa na pantera… Mas não demora muito para que o desafortunado homem comece a experimentar cocaína e outras drogas injetáveis. Numa das ocasiões compartilha uma seringa e se infecta com o vírus da AIDS. Expulso dos quadros da igreja, humilhado por Macedo e separado de sua família, migra para os Estados Unidos onde experimenta a mais degradante experiência como um viciado em crack e morador de rua dos subúrbios de Nova York. Neste momento um plano toma conta de sua cabeça e passa a se tornar uma obsessão — matar Edir Macedo, o homem responsável pela sua desgraça…

Outro ponto muito interessante é a descrição que o autor faz do sub- mundo de Nova York no capítulo O Dantesco Harlem, onde narra com maestria o cotidiano de mendigos, desocupados, viciados, traficantes e prostitutas, bem como suas regras, seus anseios e seus medos. Este capitulo é salutar ao comprovar a tese exposta pelo sociólogo norte-americano H. Becker em seu hoje clássico livro Outsiders: estudos de sociologia do desvio — grupos considerados a margem da sociedade possuem seus próprios conceitos de normalidade.

Um dos méritos do livro é a capacidade de prender a atenção do leitor logo na primeira linha. O estilo é ligeiro, “visceral” e, acima de tudo, tremendamente sincero. Mas ele padece de algumas falhas. Uma delas é o modo forçado que o autor em alguns momentos tenta imprimir á narrativa, deixando uma impressão ao leitor mais atento de alguém que leu pouco, mas está tentando escrever muito. Isso fica patente quando Justino tenta fazer algumas reflexões sobre a sociedade paulista. O resultado fica apenas ridículo.

Apesar destas pequenas deficiências, típicas de um escritor de primeira viagem, o livro é um verdadeiro documento sobre a dinâmica de uma igreja que, percebendo a alienação do povo brasileiro e sua busca por uma saída à sua miséria material, logrou criar um novo método revolucionário de persuasão que viesse de encontro às ânsias e dissipasse os medos das camadas mais pobres. Resultado: uma igreja que tornou-se um império que abocanhou emissoras de televisão, de rádio, passou a ter ramificações na Europa, Estados Unidos e África, além de ser dona de um respeitável potencial eleitoral.

As célebres palavras de Marx, portanto, nunca fizeram tanto sentido e nunca estiveram tão atuais: A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, tal como o é o espírito de uma situação sem espírito. É o ópio do povo.

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