Quando Li Cem Anos de Solidão

Gabriel Garcia Marques (1927 – 1914): uma literatura que retratava as mazelas da America Latina
Gabriel Garcia Marques (1927 – 1914): uma literatura que retratava as mazelas da America Latina

Quando terminamos de ler um livro medíocre, a impressão que ele nos causa é pouca ou quase nenhuma. Concluímos a última página como se estivéssemos fazendo uma simples rotina, ou um sacrifício. Nada sentimos, a não ser um alivio de ter finalizado mais uma história e, portanto, estamos agora livres para começar outra obra de maior apreço.

Mas contrariamente a estas obras descartáveis, existem certos livros que passam por nós e nos deixam uma marca indelével; seja por causa de uma personagem, seja pelo desenrolar da história, por um desfecho impactante ou pela forma como o autor trata um fato moral. São livros que, quando alcançamos sua última página, seu último parágrafo, seu cume, ficamos suspensos, fora da realidade mesmo. Impressionados com o que acabamos de ler, sentimos no fundo do nosso ser o drama da condição humana, a tragédia de uma época, o fim de uma Era da História, o desaparecimento de um povo ou a inevitabilidade da trajetória humana. Terminar de ler um grande livro é como ficar órfão dele. Desejamos que nunca acabasse. Meditamos em sua historia durante dias, semanas, meses ou mesmo durante uma vida inteira. São obras clássicas justamente por essa capacidade de causar profundas impressões e mudanças em nosso ser.

Pessoalmente, foram pouquíssimas histórias que tiveram o poder de causar-me este curioso estado de espirito. Entre elas posso citar Juliano, de Gore Vidal; O Silmarilion de Tolkien; Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago; Terra Firme, de Antisthenes Pinto; O Áspero Chão de Santa Rita, de Arthur Engrácio e, finalmente, Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez.

Lembro que li a obra prima de Gabo em 2003. Tinha eu na época pouco menos de vinte anos. Fiquei extremamente tocado pela força narrativa e pela pungência dos personagens. Do inicio da saga, quando vemos José Arcádio se maravilhando quando entra em contato com gelo pela primeira vez na vida, ao fim da história, quando Macondo é destruída por um vendaval e o ultimo Buendia (Aureliano) é devorado ainda bebê por dezenas de milhares de formigas, temos uma secular e trágica epopeia de uma família que na verdade é a representação cinzenta e triste da própria historia da América Latina, espoliada, manipulada, explorada e por fim, destruída…

Milhares de homens e mulheres tiveram suas vidas tragadas neste continente, seja por guerras, por doenças ou pela violência física, individual, coletiva e simbólica dos mais fortes sobre os mais fracos. Essa é a tragédia não só de Macondo, mas da América Latina. A primeira está na segunda e vice versa.

Quantas Macondos terão de ser destruídas, quantos Buendías terão de sucumbir diante da exploração e das injustiças do mundo moderno para que o nosso continente seja de fato autônomo e menos desigual?

Está é a principal pergunta que me assaltava quando lia Cem anos de Solidão, do saudoso Gabriel Garcia Marquez.

Pelo menos para mim, a leitura deste belíssimo livro serviu como um reflexo das mazelas e vergonhas que rondam todos nós, latinos americanos, descendentes de povos altivos que, mesmo tendo perdido sua liberdade, nunca perderam sua nobreza.

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Um comentário sobre “Quando Li Cem Anos de Solidão

  1. khemersonmelo

    Li certa vez em algum lugar (não me recordo onde exatamente) que a construção de Macondo foi fortemente influenciada pela leitura que García Marquez fez de O Tempo e o Vento… Pode até ser verdade, o que não impediu Marquez de imprimir em sua Macondo o seu toque peculiar, o seu realismo fantástico tão pessoal. Não li Cem Anos de Solidão, me faltou a oportunidade, mas me lembro de me deparar com Macondo num livro de Marquez tão estranho quanto sublime – O Enterro do Diabo – uma obra experimental onde o mestre já flertava com temas que iria explorar com mais habilidade em obras posteriores. Gosto particularmente do primeiro livro que eu li de Gabo: Crônicas de uma Morte Anunciada, justamente pela construção não-linear da narrativa e pelo tratamento pitoresca que o autor dava àquela obra. Belo livro!

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