Conto: O Evento na Ponta Negra

Durante os sábados á noite me apetece caminhar pela Ponta Negra. Sempre, por volta das dezenove horas, costumo descer do prédio onde moro para ficar perambulando pelos calçadões da praia, sentindo o vento tocando no rosto e observando as pessoas passeando com seus bichos de estimação. Observo os vendedores ambulantes, os populares que vão se dirigindo aos pontos de ônibus, os bêbados perambulando com uma garrafa de pinga nas mãos, os pais com seus filhos inquietos e as belas gostosas endinheiradas que gostam de praticar corrida nesse horário.

Minha caminhada sempre dura entre trinta e sessenta minutos. Coloco um fone de ouvido e vou admirando toda essa ecologia de tipos que passam pela minha frente. Deslizo por eles como mais um anônimo, sem lar, sem pensamentos, sem propósitos, sem alma… Nesses momentos me perco do mundo e esqueço as mesquinharias do trabalho e as intrigas familiares.

Este seria mais uma noite comum de caminhada caso não estivesse ocorrendo no anfiteatro da praia um evento patrocinado por um pregador fundamentalista muito famoso nacionalmente. È muito comum acontecer todo tipo de celebrações naquele lugar. A paisagem do Rio Negro e a floresta verde e escura assomando do outro lado no Iranduba, somado a brisa constante e agradável que vem do rio, faz com que os organizadores de muitos eventos que ocorram em Manaus acabem por escolher a Ponta Negra como um dos lugares para realizar seus eventos de massa.

Era o caso dos pentecostais e neopentecostais. Quando descobriram as vantagens do lugar, logo passaram a requisitar a Ponta Negra uma ou até duas vezes por mês para seus mega cultos.

Nunca me perturbou eventos religiosos ali, perto da minha casa, mas sempre tive reservas quanto aos religiosos radicais. Muitas das suas mais caras bandeiras, como a oposição ao direito feminino do aborto e às cotas, a recusa ao reconhecimento da união civil entre casais homo afetivos ou a maneira pouco respeitosa como muitos se referiam á religiões de cosmologia africana, faziam com que eu, um liberal de esquerda, agnóstico e militante pelos direitos humanos, visse com reservas tudo o que representavam.

Havia muitos presentes na celebração. Acredito que mais de três mil pessoas. Eu simplesmente não conseguia caminhar sem me desviar de alguém a cada cinco segundos.  O evento ainda não tinha começado e dezenas de pessoas não paravam de chegar, a maioria em ônibus fretados pelas congregações. Senhoras, senhores, famílias numerosas, mulheres lindas, outras nem tanto… Todos bem vestidos. A cerimonia religiosa, para essas pessoas, não era apenas uma evento formal, mas uma celebração, um momento de êxtase e de renovação. Por isso precisavam dar para deus o que eles tinham de melhor. No caso, a paz de espirito e suas melhores roupas.

Enquanto caminhava perguntei a uma senhora ali perto do que tratava aquele evento.

“È para a gente mostrar a força do povo de deus contra o exercito do maligno!”

“Não entendi, senhora…”

“É para mostrar como deus se desagrada dessa gente pecaminosa que pratica homossexualismo e adora falsos deuses…”

“Mas por que eles desagradam a deus, minha senhora?” Nesse momento eu já tinha notado o teor do evento. Mas queria explorar um pouco mais a subjetividade do meu informante…

“Porque é antinatural… Deus fez homem e mulher pra ficarem juntos e não pra ficarem fazendo imoralidade por ai… Essa gente precisa aceitar Jesus…”

Ai eu disse: “Minha senhora… Acho que é Jesus quem precisa aceitar vocês…”

Enquanto a mulher, desconcertada por ter ouvido algo que não esperava, procurava desesperadamente alguma palavra para me recriminar, eu virei as costas e sai dali rindo comigo mesmo, pensando:

“Vinguei-me do Infeliciano…”

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