Em Família

Assim que a ambulância chegou no Pronto Socorro do São Raimundo e os paramédicos precipitaram-se para tirar a maca do veículo que levava o ferido, ocorreu o impensável. O pobre coitado deu um suspiro sinistro, seguido de um esgar abafado vindo das gargantas, as pupilas arregalaram-se como se naquele momento estivesse perante o próprio diabo e sucumbiu depois de muita agonia.

Os paramédicos entreolharam-se meio constrangidos. Aquela cena já viram muitas vezes, nem precisavam de aparelhos para constatar o que acontecera. O que parecia mais experiente disse:

“Esse já era…”

“A hemorragia foi intensa concomitante a perfurações em vários orgãos…” Disse o médico legista Bartolomeu Félix, muito satisfeito em conceder uma entrevista para um popular tablóide da cidade.

A vida é mesmo muito imprevisível. Há cerca de uma hora, esse pobre diabo chamado Octávio Ribeiro, quarenta e dois anos, metalúrgico há quase quinze, casado e com um filho, voltava para casa, naquele final de tarde de sexta-feira abafada, num micro ônibus lotação entalado de gente. Ele nem sequer imaginava que seria a sua última viagem para junto de sua família e que em breve estaria de mãos dadas com o capiroto.

Mas como tudo isso foi acontecer? Perguntará o leitor. Pois bem, vamos ter que voltar algumas horas anteriores ao assassinato e penetrar no lar de Ribeiro, pouco antes d’ ele chegar…

Dona Maria Clara acaba de voltar com o pequeno Serginho da casa de um amiga que ficava ali mesmo no bairro da Compensa. Ela abriu o pequeno portão de tábuas de madeira e passou pelo pátio com o filho atrás, seguindo-a como um cortesão. Assim que abriu a porta, o menino entrou e correu para o quarto, pegou um carrinho de madeira e ficou a perambular pela casa, fantasiando alguma aventura fantástica.

Ela estava feliz. Finalmente começaria a trabalhar num salão de beleza e a mãe já superava a dengue hemorrágica. Tinha voltado do hospital dois dias antes e estava aliviada ao perceber que a velha recuperava o vigor físico, o corado da pele, o força na voz…

Pelo relógio de parede viu que eram seis e meia da tarde. O claro do dia recuava. O marido com certeza chegaria em pouco tempo. Teve a idéia de fazer um programa diferente com ele quando voltasse. Tomou banho, colocou sua roupa preferida, aquele vestido verde que ele tanto gostava, perfumou-se com as suas melhores loções e ficou admirando-se em frente ao espelho. Tinha pouco mais de trinta e cinco anos, a pele era queimada, as sobrancelhas grossas e olhos muito escuros. A idade já começava a mostrar seus sinais pelas pequenas rugas no rosto, pelo ventre já notadamente saliente e pelos seios que perdiam a batalha para a gravidade — o vestido já não cabia tão bem, apertava-lhe as gorduras. Arrumou os cabelos crespos, penteando-os com esmero. Maquiou-se, colocou sombras nos olhos, aprumou as sobrancelhas e embelezou as maçãs do rosto.  Depois pegou sua bolsa, tirou doze reais e disse a Serginho:

“Vai lá no Buiú comprar uma caixinha de cerveja…”

O menino relutou em ir, tão entretido estava estava com seus maquinações sem importâncias. Mas como a mãe ameaçou dar-lhe uma bordoada, ele pegou o dinheiro e saiu resmungando, andando em marcha lenta.

“Anda logo, seu preguiçoso!” Disse a mulher, já impaciente.

O outro correu, maquinando vingar-se.

Em pouco tempo o garoto voltou com uma caixinha de doze cervejas, trazia-a desajeitadamente, com muita dificuldade, cambaleando feito um bêbado e por pouco não deixou a bebida cair.

“Põe na geladeira…” Ordenou Maria Clara.

O menino obedeceu, muito suado. Internamente crispava de raiva.

“Cadê o troco? Tá bom…”

Enquanto Serginho foi para o quarto ligar o videogame, a mulher guardou o trocado de cinco reais na bolsa de couro sintético preto, ligou o aparelho de som, colocou um CD de música sertaneja, foi até a geladeira e pegou uma latinha de cerveja. Sentou no sofá da sala e ficou com o pensamento no marido. Imaginando sua cara de satisfação ao saber o que ela preparara para ele — boa musica, cerveja gelada e um bom momento só a dois. Lembrava que há muito tempo os dois não faziam isso. Ela, ocupada em arranjar um novo emprego; ele, auto escravizando-se em horas extras lá no distrito para cobrir os buracos no orçamento.

Mas agora isso não mais importava. Podiam terminar a casa, comprar um computador para o Serginho, um televisão de plasma e fazer um segundo andar com três quartinhos para alugar, conforme tinham planejado há dois anos.

Percebera que o noite já se instalara por completo e vários dos vizinhos estavam em frente das suas casas, sentados em cadeiras de plástico, ouvindo música, bebendo qualquer coisa e confabulando fatos sem importância. Olhou para o relógio, dezessete e vinte da noite. O marido não chegava. Maria ficou imaginando se ele não tinha ficado até mais tarde para fazer hora extra. Com certeza não. Lembrava-se de que, quando saíra hoje de manhã, dissera que naquele dia sentia-se muito cansado para ficar até mais tarde. Foi até a geladeira e pegou outra cerveja. Percebeu que na caixa só restavam três latinhas. Ficou  surpresa em ter bebido tanto em tão pouco tempo. Voltou para o sofá. Onde estaria o marido? Lembrou-se de que uma das amigas tinham falado sobre uma mulher da rua perto da feira que estava de caso com Octávio. No inicio não deu muita importância, mas agora, com sua demora sem explicação, toda aquela conversa começou a ganhar proporções de quase verdade. Deu um suspiro de raiva. Tomou a cerveja com pressa, quase virando.

“Serginho, vai comprar mais cerveja!” Gritou.

O filho não respondeu.

“Serginho!”

Nenhuma resposta.

“Sergio, seu filho da puta!”

Levantou-se do sofá irritada e foi caminhando até o quarto do filho, quando abriu a porta, deparou-se com ele inerte em frente à televisão, jogando Doom. Pegou-o pelo braço e entre os gemidos do pequeno colocou-o de pé.

“Me obedeça…”

“Sai fora! Sai fora!” Gritou o menino, enquanto tentava largar-se e fugir.

“Me respeita!” Disse Maria, bufando de raiva, e começou a dar umas surras em Serginho.

“Tá pensando que eu sou o quê, hein?” A mão descia pesada no corpo do moleque.

“Ai, ai, ai…”

 Foi exatamente quando o garoto dava estes gritos que Octávio Ribeiro chegou em casa. Estava um verdadeiro trapo. Uma mochila velha nas costas, calça jeans furada e desbotada e uma camisa surrada com o símbolo da empresa. Cabelo desarrumado, olheiras na face e exalando um forte miasma de transpiração. Logo que abriu o portão, aqueles gritos de moleque desesperado entraram-lhe pelos tímpanos. Caminhou com rapidez para dentro da casa.

“O que aconteceu?” Perguntou o homem, ao presenciar o suplicio do filho.

“Este menino não quer me obedecer…” E dava-lhe bordoadas mais fortes.

“Pai, pai, me ajuda…” O menino tentava correr para junto de Octávio, mas a mãe segurava-o com mais força.

“Larga ele, mulher. È só uma criança…”

“Era só o que me faltava, tu do lado desse peste…”

“Tu não tá vendo que ele tá gritando? Deixa ele!” Disse, enfurecido, após separar os dois a força.

Serginho correu chorando para o quarto e se escondeu.

“Me respeita!” Gritou Maria. “Quem tu pensa que é para me enfrentar na frente do meu filho, hein?”

“Tu tava espancando ele, caralho!”

“Fala direito comigo, seu safado!” Ela gritou entre lágrimas. “Tá pensando que eu sou aquela rameira que tu come lá da rua da feira?”

“Como é que é?”

Serginho observava tudo pela porta entre aberta do quarto.

“Pensa que eu não sei! Todo mundo sabe! Seu cafajeste!” Ela avançou com ímpeto para cima de Otávio.

“Tu fala muita merda… Me larga!” Ele pegou a mulher pelos braços e jogou-a  sobre a sofá.

“Vagabundo! Vagabundo!” Gritava, com lágrimas nos olhos.

“Para de gritar, porra… Isso já tá ficando insuportável…” Disse ele, mais alto ainda.

Maria Clara levantou-se do sofá, correu para a cozinha, tomou uma faca suja que estava sobre a pia e pulou para cima do marido. Ele não teve tempo de esboçar uma reação. A esposa penetrou dezenas de vezes a lâmina no corpo do homem, enquanto ele resvalava no chão e uma poça de sangue se formava.

Serginho via tudo pela porta entreaberta, enquanto dava gritos de horror…

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