Final de Domingo

Embora eu detestasse shooping´s, prefiro frequentá-los nas tardes de domingo. Vou apenas pagar algumas contas e, no máximo, garimpar algo nas livrarias. Ir nesse horário em que já se pode ver o entardecer é mais cômodo; os ônibus não estão lotados, as ruas mais tranquilas e a atmosfera apresenta aquela melancolia típica do final de semana que está acabando, como se prenunciasse o dia seguinte onde seremos jogados outra vez nas loucuras dos dias úteis. Agrada-me também ver, quando costumo chegar em casa, um típico condomínio classe média de Manaus, as crianças pequenas brincando na rua enquanto os pais, sentados em cadeiras de plástico nas calçadas, ficam a conversar coisas inúteis. Eis a visão típica de um subúrbio manauara.

Sempre volto de ônibus. Procuro sentar-me no canteiro do jardim que fica em frente ao shooping. Não gosto dos desconfortáveis bancos esverdeados das paradas que, cobertas por materiais como vidro e alumínio, só fazem, para o pobre diabo que fica sob aquelas asas da maldição, parecer imerso na mais insuportável sauna. Não, eu prefiro sentar-me no canteiro que protege aquelas raquíticas plantas aguadas por latas de plástico, embalagens de toda porcarias, bitucas de cigarro e cuspe de todo tipo de gente pouco educada. Ali fico a salvo do sol, que em Manaus é impiedoso em qualquer hora do dia, além de ter uma visão panorâmica de toda a Avenida Djalma Batista.

Foi numa dessas ocasiões em que eu, esperando meu 626 aparecer no horizonte cinzento daquele domingo calmo e triste, deparei-me com uma cena inusitada. Para um observador desatento, o acontecimento pode parecer prosaico, contudo, para um olhar mais prospectivo é possível perceber algo mais por debaixo do véu da normalidade.

Então, leitor amigo, o que vi foi um casal, abraçado, logo debaixo do oiti que fica a frente da parada de ônibus. Acredito que eles podiam ter pouco mais de vinte anos. A garota era bem charmosa — uma dessas morenas que povoam o imaginário dos manauaras. Cabelos discretamente ondulados, olhos castanhos, nariz pequeno, lábios grossos, braços delicados e pernas bronzeadas. Sobre tudo isso estava um vestido rosa que escondia uns ombros delicados e seios pequenos. Acredito que aquela bela jovem mulher estava beirando os vinte anos. Talvez tenha acabado de entrar na faculdade. Talvez tenha algum trabalho de baixa renumeração numa dessas franquias de roupas ou óculos escuros que existem aos montes nos shoopings em Manaus e que costumam contratar garotas como essa…

O seu par era um rapaz que aparentava ter a sua idade. Bem magro, meio desengonçado, cabelos crespos, jeito de garoto, espinhas no rosto. Usava um par de óculos que lhe emprestava um ar de timidez, trajando um jeans azul marinho com camisas amarelas mais um tênis surrado de uma marca qualquer.

Não me interessava a dinâmica do casal em trocava algumas palavras ocasionalmente. Apenas interessava-me a beleza da garota. Observava-a muito discretamente esvoaçando aqueles cabelos escuros, endireitando a postura altiva e trocando, vez por outra, a perna de apoio. Lembro que também piscava muito, como se a maquiagem estivesse incomodando as pupilas escuras.

Ficaram assim por volta de quinze minutos, acredito. Depois o clima aparentemente ameno daquele casal subitamente mudou. Começaram a discutir. Ela, que antes parecia tranquila, ficou com o semblante sério, tensionado. Ele, por sua vez, bastante casmurro, olhava nos olhos dela enquanto tentava falar algo. Não pude fazer leitura labial, mas me parece que o sujeito tentava, meio desesperado, justificar qualquer coisa ou, talvez, insistir em algo que a outra definitivamente negava, pois balançava negativamente a cabeça ao mesmo tempo em que parecia dizer algo como:

“Não dá…”

O sujeito, então, que até aquele momento estava com os braços sobre o ombro da morena, tirou-o de lá e, encarando-a de frente com as mãos do quadril, continuou a insistir naquela coisa misteriosa. Ela, por sua vez, mantinha a mesma linguagem corporal e a mesma resolução.

“Não dá…”

Tentou abraçá-la outra vez. Ela recusou. Parecia que ele começava a ficar desesperado, como se algo escapasse de suas mãos, pois os lábios tremiam…

 Ficaram nesse impasse por mais alguns minutos, até que o meu ônibus passou. Por coincidência, ela também o pegou.

Sentei lá atrás como de costume. Ela ficou lá na frente, na poltrona amarela reservada para anciãos e deficientes. Enquanto observa-a olhar melancolicamente para a paisagem calma daquela tarde de domingo e os cabelos esvoaçando pelo vento. Momentos depois, desci no meu ponto. Ela permaneceu no ônibus.

Visão típica de um melancólico fim de domingo.

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