Indo para o Trabalho

Marcelo pegou o celular que não parava de emitir aquele som irritante e percebeu que já eram seis horas da manhã. Soltou uns resmungos. Queria dormir um pouco mais, apenas meia hora que fosse. Impossível. Já estava atrasado. Levantou da cama com uma lentidão de preguiça, desabilitou o despertador e jogou-o num canto qualquer da pequena quitinete. Tomou banho sem pressa. Enquanto escovava os dentes, de frente para o espelho, encarando aquela face macilenta de olhos baços, teve a impressão de que as noites estavam mais curtas e o sono menos relaxante. Precisava levantar cedo. Não tanto porque fazia questão de chegar cedo ao escritório, pois considerava o serviço na firma de um tédio insuportável, mas porque era mais ou menos nessa hora que Vitória saia para o trabalho. Como já faziam mais ou menos duas semanas que ele lhe dava carona, estava já se preparando para chamar a publicitária para um encontro.

“Hoje você não escapa…” Pensou, exultante, enquanto se trocava.

Preparou um café expresso e uma fatia de pão com presunto. Comeu calmamente, enquanto escutava Mile Davis no pequeno aparelho de som portátil. Antes de sair deu uma ultima olhada na cama de casal desarrumada, no espelho, nas roupas espalhadas pelos cantos, nos livros da faculdade e naquelas paredes pintadas de um azul antiquado. Assim que passou a chave no quartinho, um velho homem surgiu na porta do quarto vizinho ao de Marcelo. Era gordo, olhos escuros e miúdos, do rosto pendiam enormes bochechas de pele caída.

“Bom dia, meu filho…”

“Bom dia, Seu Ebenezer…”

Levou da área de serviço para a rua, montou-a, guardou o capacete no braço direito e ganhou o trânsito. Enquanto guiava devagar aquela Honda comprada de segunda mão de um amigo, procurava sem sucesso pela sua morena de cabelos encaracolados. Tinham combinado dois dias antes de que ela o esperaria em frente da panificadora. Olhou no relógio e percebeu que eram sete horas da manhã, exatamente o horário combinado. Onde estaria? Esquecera do compromisso ou abortara a carona justamente porque desconfiou de suas intenções? Teria falado algo que ela não gostara? Tentou relembrar as milhares de idiotices que supostamente teria dito a Vitoria e creditou-as como a fonte de sua desgraça. Mas como, se ela era tão atenciosa, gostava de conversar com ele e, sempre que o via, soltava um jovial sorriso? Alguém teria dito algo comprometedor a seu respeito? Teriam sido aquelas mulheres do bar Xiri Quer Pau? Essas e outras perguntas sem nexo, que normalmente assolam o coração de um homem que corteja uma mulher, tomavam conta de sua mente.

Já virava a esquerda para tomar a avenida principal quando uma torrente de desânimo anuviou seu coração. Fracassara na corte com a publicitária. Sentiu raiva. Enquanto guiava a moto por entre os carros parados no engarrafamento, começou a enumerar os defeitos de Vitória. Era muito magra, falava demais, era tão vaidosa que chegava a ser frívola e a sua risada era quase infantil. Não valia a pena. Resumiu todos os seus sentimentos numa única frase:

“È foda mesmo…”

Deu uma guinada na moto, foi costurando o trânsito e pegou a Max Teixeira, vendo que o trânsito ficava mais leve, a tristeza deu lugar ao otimismo. Lembrando dos trabalhos da faculdade que tinha de entregar, das contas atrasadas, do dinheiro que precisava enviar a mãe, não sentiu a mesma angústia de sempre.

“Tudo vai se resolver…” Imaginou.

Acelerou a moto, ultrapassou um carro e um ônibus. Sentia-se tão bem naquele momento, só queria acelerar, sentir o vento no rosto e toda Manaus passando por ele. Porém, quando estava chegando perto do Terminal 4, uma fileira de ônibus empatava toda a pista. Freou bruscamente.

“Puta que Paril…”

Detestava engarrafamentos, por isso procurou uma fresta e foi passando por entre aquelas grandes carroças metálicas cheias de bois. Tomou a faixa mais a esquerda e seguiu desimpedido, já sabendo que, por mais que acelerasse, não conseguiria chegar a tempo no trabalho.

“Ainda bem que o patrão é o meu padrasto.” Pensou.

Já estava a quase oitenta por hora quando passou por um cruzamento. Tudo aconteceu muito rápido. Um caminhão que levava uma carga de banana surgiu na sua frente. Marcelo não teve tempo de esboçar reação. Bateu violentamente contra o veiculo e a moto se desintegrou com a batida. Ele rolou sobre o asfalto como se fosse um boneco de pano e foi parar vinte e cinco metros mais a frente, todo escoriado e com uma horrorosa abertura no crânio.

“Olha… um acidente!” Gritou um pedestre.

Todo o trânsito da avenida parou, pessoas saíram dos carros, comerciantes e fregueses das redondezas deixaram suas barracas e correram para o local da colisão.

Agonizando, foi rodeado por uma multidão de curiosos e desocupados que só estavam interessados em filmar com aparelhos celulares sua passagem para o outro mundo.

Ricardo Lima; Outubro de 2010

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