Cenas da vida Parisiense: de Balzac a Lolita Pille

Em determinado capitulo do polêmico romance Hell, de Lolita Pille, um dos personagens afirma que as boates mais caras de Paris são uma fotografia de A Comédia Humana. O mais correto seria dizer que a própria historia poderia ser comparada a série de romances do grande escritor francês Honoré de Balzac (1799-1850) autor de um dos maiores monumentos literários da modernidade.

Talvez possa parecer exagero comparar o grande Napoleão das Letras e patrono do romance do ocidente, autor de mais de noventa obras, entre as quais figuram clássicos como Ilusões Perdidas, Esplendores e Misérias das Cortesãs e Tio Goriot, com uma reles escritora iniciante que ainda não completou trinta anos. Mas a verdade é que seu romance de estréia desta jovem mulher de vinte e oito anos e fenômeno editorial na França possui, em sua intenção literária, alguns paralelos com o grande escritor do século XIX.

Em Hell, lançado em 2002, Lolita Pille, filha da elite parisiense, traça um amargo e impiedoso retrato do seu próprio mundo — o mundo dos muito ricos. A narração está em primeira pessoa e sua porta voz é a personagem que dá nome ao livro — uma garota rica assumidamente arrogante, superficial e consumista.

A quantidade de detalhes com que Hell/Lolite demonstra aodescrever os modos, a personalidade e as roupas dos seus semelhantes, em toda a sua minúcia de marcas, acessórios e modelos, lembra, ainda que guardada as devidas proporções, a minudência da prosa do grande autor de Estudos de Mulher. Mas as semelhanças ficam por ai. O estilo pré-realista e erudito de Balzac esbarra-se na prosa ao mesmo tempo frenética, direta, coloquial e barroca da autora. A decisão de Lolita Pille em escrever desta maneira foi acertada. Seoptasse por um estilo mais formal, com certeza fracassaria na intenção de dar ao leitor aquela sensação de realidade. Também é necessário mensurar que seu estilo ligeiro, com os verbos sempre no presente, transmite o caráter de rapidez e transitoriedade que caracteriza a vida da juventude rica de Paris — uma vida absolvida pela busca irresponsável do prazer.

Assim como o grande escritor francês, ela não precisou pesquisar muito, pois tudo viveu, viu e sentiu. Apenas olhou com mais atenção o mundo a sua volta, para suas amigas tão insolentes e preconceituosas quanto ela e para o cotidiano restringido à noites inteiras passadas entre boates de luxo, “passeios” pelas lojas de roupas caras e viagens nos jatinhos de amigos, tudo regado a muita bebida e drogas — aliás, a as palavras que a trágica protagonista mais pronuncia são transar, putas, vodka, cigarro e cocaína.

Hell é uma anti-heroína em todos os aspectos. Ela é insolente e tremendamente preconceituosa. Como pode ser mostrado logo na primeira pagina do livro:

Eu sou uma putinha. Daquelas mais insuportáveis, da pior espécie; uma sacana do 16eme, o melhor bairro de Paris, e me visto melhor que a sua mulher, ou a sua mãe. Se você trabalha num lugar “metido” ou é vendedora numa butique de luxo, com toda certeza gostaria que eu morresse; eu, e todas as minhas iguais. Mas a gente não mata a galinha dos ovos de ouro. De forma que a minha espécie ora perdurar e proliferar…

Os preconceitos da narradora-personagem contra pessoas pobres e de classe média, que é também o preconceito de toda uma classe sobre outra, aparece de maneira explicita e com elevadas doses de sarcasmo.

Ricos, isso está na cara de vocês, haja vista o preço do metro quadrado; se não fossemos ricos, não estaríamos morando ali. Já belos, percebo alguma duvida nas suas cabeças. Mas pensem um pouco. Num mundo em que a ascensão social corre solta há varias gerações por intermédio da cama, as famílias feias foram purgadas graças a casamentos de interesse, nos quais, da união de um gordão cheio de grana com uma arrivista gostosa, resulta geralmente uma prole perfeita, já que será dotada do físico da mamãe e da conta bancaria do papai. É verdade que não dá para a gente ter sempre sucesso, pode acontecer de o papai ser passado para trás pelo seu administrador e de os genes da mamãe não se imporem, de modo que o bebê pode nascer feio como o papai e pobre como a mamãe. É o que a gente chama de azar; mas não vou me estender sobre esse assunto. Não vim segurar a pena para descrever a existência de gente pobre e feia: em primeiro lugar, não sei nada a respeito, em segundo lugar, esse não é o tema dos mais divertidos.

Vocês sabem de uma coisa? O mudo está dividido em dois: tem a gente, e depois vêm vocês. Isso é enigmático, tenho de concordar…

Vou me explicar: vocês tem família, emprego, carro, um apartamento que falta acabar de pagar. Engarrafamentos, ralar, nanar, com sorte, é só isso que sobrou para vocês. Metrô, Agência Nacional de Emprego, insônia, já que existem problemas de dinheiro para os mal afortunados. O seu futuro se resume a um repetição do presente. Os seus filhos, caso se virem, talvez consigam morar num apartamento com cinqüenta metros quadrados a mais que vocês, e estofarão de couro os assentos da Renoult Safrane da família. Vocês ficarão orgulhosos deles. Eles irão com os pequeninos de férias para a casa que, uma vez aposentados e exauridos, vocês compraram no sul da França.

Este mundo, assim como a Comédia Humana, está povoado de arrivistas, prostitutas de luxo, modelos “importadas” do terceiro mundo (Hell as chama pejorativamente de manecas), atrizes pornôs, esquemas de corrupção encobertos pelo poder econômico, tráfico de mulheres (é interessante como um milionário manda “trazer” uma esposa do leste europeu), parasitas e novos ricos. Não há espaço para a alteridade, para a consternação. Tudo não passa daquilo que Shakespeare resumiu muito bem, uma vida que é um teatro de vaidades onde não é permitido ensaios. Isso fica patente quando a protagonista descreve as pessoas no evento da Fashion Week

A boate está abarrotada de gente e tenho a impressão de que todo mundo esta usando máscaras, a mesma máscara com dois buracos para os olhos. (…)

Vou ficar durante dez minutos dizendo “como vai”, só depois é que poderei me refugiar na minha mesa (…) E me pergunto mais uma vez o que estou fazendo ali, quando poderia ter ficado tranquilamente lá em casa assistindo Ally Macbeal e, então a coisa melhora quando me dou conta de que se a gente perguntasse a todas as pessoas presentes o que elas estão fazendo ali, a metade delas cairia em pranto na hora. A outra metade iria responder com impaciência: “Ora, porque é a Fashion Week!”(…) mas são manecas, é melhor não perguntar muita coisa para elas, as coitadas estão exaustas, desfilaram o dia inteiro, de qualquer forma elas vão voltar para Nova York daqui a dois dias e não vão mais encher o nosso saco até a próxima saison.

Entretanto, a protagonista percebe a vacuidade de sua existência logo após realizar um aborto. Então, segundo o resenhista Luciano Trigo, desvenda sem hipocrisia o mundinho fútil dos muito ricos, o lado sombrio da juventude dourada. Apesar disso, sua vida está de tal forma ligada a este cotidiano deletério que mesmo percebendo sua própria autodestruição, ela se recusa a sair dele. A vida de Hell é tomada pela mais profunda ambigüidade — exalta o mundo em que vive ao mesmo tempo em que o corrói com o mais profundo e amargo sarcasmo. A auto-exaltação é também a própria crítica, o próprio desnudamento das contradições de seu mundo e de si mesma, a própria arqueologia de seu meio, onde camadas e mais camadas de uma aparente felicidade, de jogo de aparências e de pré-noções são desnudadas. Assim como escrevera Nietsche em seu Alem do Bem e do Mal, ela ousou olhar para dentro de seu abismo, e o seu abismo ousou olhar para dentro dela. Sua filosofia é simplesmente a aceitação tácita daquilo que acredita ser a sua “sina”, ser rica e degenerada, viciada em vodka, tabaco, cocaína e sexo. Hell acredita que não há possibilidade de fazer o caminho de volta e recomeçar, pois não há possibilidade de redenção.

Se os ricos não são felizes, é porque a felicidade não existe.

Nada escapa ao niilismo extremo da autora/protagonista, nem ela mesma. Hell/Lolite chega a ironizar a própria trajetória. Não há lugar para julgamentos morais, pois para ela não há valores — o que com certeza pode decepcionar os leitores mais conservadores.

Não esperem que esta história termine em tragédia, não há nenhuma. (…) Encaro o futuro como uma eternidade de provações a fastio. Minha covardia me impede de por um fim aos meus dias. Vou continuar a sair, a cheirar, a beber e a perseguir os babacas. (…) Até que eu morra.

Honoré de Balzac descreveu a nascente burguesia francesa do inicio do século XIX com extrema ironia, retratando-os em todos os vícios de uma vida superficial e repleta de intrigas. Se atentarmos para a narrativa de Lolita Pille — não seria melhor chamá-la de memórias? — mais de cento e cinqüenta anos depois, temos uma burguesia já devidamente estruturada e com as mesmas “qualidades” dos tempos do autor de Estudos de Mulher.

A história de Lolita Pille espelha um drama universal. Poderia se passar em qualquer cidade do mundo, Nova York, Londres, Pequim, São Paulo, Manaus… Uma história de jovens imersos no labirinto intransponível e empobrecido da delinqüência.

Após o lançamento da obra, Pille foi proibida de entrar em várias boates e vários de seus “amigos” se afastaram dela — também pudera, foram descritos no livro em situações bastante constrangedoras…

É impossível ler Hell e ficar indiferente.

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