Flagrantes de uma Outra Amazônia

A literatura feita na Amazônia até os anos cinqüenta do século XX sempre foi acometida daquele mal chamado de “influência de Euclides da Cunha”; uma estética que primava pela linguagem excessivamente carregada, vocabulário muitas vezes pedante e uma incapacidade de enxergar a real dinâmica do hiterland amazônico.

Pode-se dizer também que esta literatura centrava-se principalmente em descrever a paisagem amazônica, suas florestas, rios e “mistérios” silenciando sobre a realidade do homem amazônico, seus conflitos, dramas e seus sofrimentos. Estes autores da velha vertente da literatura positivista ou naturalista transmitiam uma visão completamente deturpada do ribeirinho, mostrando-o como um ser passivo diante da imensidão da natureza, sem consciência e sem a capacidade de criar, ele mesmo, os caminhos para tornar-se o protagonista de sua história.

A mudança na perspectiva de como os nossos intelectuais enxergavam o ribeirinho só começaria a mudar em meados do século XX, com a chegada tardia dos ideais de renovação artística trazida pela semana de arte moderna, com lançamentos como Banco de Canoa de Álvaro Maia. Contudo, foi a partir da década de 1960 com Outro e Outros contos, de Benjamin Sanches, Mundo Mundo Vasto Mundo, de Carlos Gomes e principalmente com o hoje clássico Historias de Submundo de Arthur Engrácio, que propiciou a ruptura completa com a velha literatura dos bacharéis.

Nascido em 1929 em Manicoré e falecido em 1997 em Manaus, Arthur Engrácio fez o caminho que muitos condenados fizeram, mas que muitos poucos lograram trilhá-lo com êxito — migrou para Manaus. Mas teve sorte. Formou-se em direito, tornou-se funcionário publico e começou a atuar como jornalista, além de ter sido um destacado membro do Clube da Madrugada.

Não obstante ter se tornado um privilegiado, Engrácio nunca esqueceu suas origens e foi através da literatura que retratou os dramas que vivenciara durante a infância em Manicoré.

O seu primeiro livro já trazia todos os elementos que seriam endêmicos na sua obra. O titulo já dava uma pista de quais seriam os temas abordados pela obra — os sofrimentos e dramas do ribeirinho e a exploração a que estava submetido pelos coronéis seringalistas. São os relatos e confissões de um mundo a parte, de uma Amazônia talvez esquecida, de um verdadeiro submundo, onde o poder público não chegava, e onde homens e mulheres estavam a mercê da vontade de uma decadente elite extrativista que ainda mantinha o seu poder de mando sobre o povo do interior.

Engrácio insere-se na então nova tradição da literatura de regionalista de critica social, cujo principal expoente é sem duvida Graciliano Ramos. Sua necessidade de retratar as misérias do homem do interior o fez escrever de maneira direta, sem muito apelo a adjetivos, exatamente como fez o autor de Vidas Secas — sua maior influencia.

Os contos de Engrácio fogem um pouco daquela concepção clássica da historia curta, com começo, meio e fim. O autor procura desnudar a vida interiorana em forma de pequenos flagrantes onde são mostrados os dramas, as injustiças e os desejos do homem que habita a beira dos rios, cultiva sua agricultura na várzea e extrai borracha nos seringais. Muitos de seus contos chegam a ser chocantes para o leitor — algo próximo do que fez Anthistenes Pinto com o polêmico romance Terra Firme.

Historias de Submundo inicia-se com o conto A Revolta, que narra a historia fantástica de uma rebelião engendrada por um grupo de seringueiros contra os desmandos do patrão; outras histórias, como Pescadores, O Cão e Zé Pequeté são como pequenas apreensões da condição de vida no interior. Já O coronel, que conta vingança de um senhor de terras contra um de seus funcionários que estariam se envolvendo sexualmente com sua filha, é onde fica mais explicito a intenção do autor de relatar a tirania e as crueldades daqueles que um dia foram os verdadeiros senhores feudais na Amazônia — os grandes seringalistas.

Em Filho de Arigó, uma pequena obra prima do conto amazonense, Engrácio relata, a partir de sua experiência de infância, a condição de miséria e abusos a que estavam submetidos os órfãos nas cidades do interior, dados “de favor” para ricas famílias sob a justificativa de serem criados, mas que na verdade tornam-se verdadeiros criados sob a mais tétrica condição de exploração do trabalho infantil.

Descrever a vida no interior do Amazonas não é o único tema da ficção engraciana. O autor de Ajuste de Contos também desenvolveu com maestria temas urbanos, com histórias como Claudia, Jorge e O segredo do Réu.  A primeira narra os dilemas de uma mulher infeliz que está a ponto de abandonar o marido e fugir com o amante, enquanto a segunda narra a vida infeliz de um bêbado; já a terceira história mostra o relato de um homem que cometera duplo homicídio — matara a mulher e seu amante

Apesar das historias trágicas, Historias de Submundo também reserva momentos cômicos, presentes em dois contos, No Vizinho (este é o que mais é influenciado pelo método de Graciliano Ramos) e Uma Historia de Trancoso, um “causo” contado por Manuel Bodó em uma de suas caçadas no meio da mata.

Normalmente a mídia, a literatura oficial e certos grupos musicais, ainda influenciados pela velha literatura de bacharel da primeira metade do século XX, costumam mostrar a vida interiorana de maneira ingênua, como se a vida na floresta fosse como num verdadeiro éden e o ribeirinho um ingênuo que não conhece a fome ou a exploração. É preciso ler um clássico como Historias de Submundo, de Arthur Engrácio, para percebermos que existe uma Amazônia bem diferente e de cores bem mais cinzentas daquelas que o Status Quo costuma pintar — uma Amazônia do trabalho escravo, de execuções sumárias, abusos, estupros, doenças e subdesenvolvimento.

Acredito que Historias de Submundo serve de complemento, ou mesmo introdução, na leitura de outra obra essencial sobre a vida do interior, Servidão Humana na Selva: o Aviamento e o Barracão nos seringais das Amazônia, do sociólogo Carlos Correa Teixeira. Como escrevera José de Souza Martins, ambas reúnem “os fios desatados de um sofrimento ignorado, de uma pobreza cruel, de um opressor invisível, para nos revelar a trama de uma história omitida, que não é só da Amazônia” (…) e “expõe como feria o látego de mecanismos econômicos que, ao subjugar alguns, subjugava todos e nos tornava pobres de condição humana. E ainda nos torna.”

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