Crônica de um Dia Quase Qualquer…

Naquele onze de setembro de dois mil e um do ano de nascimento do galileu, tinha eu apenas dezessete anos. Recordo-me que naquela manhã, como todas as outras,  gastava horas ouvindo heavy metal ou lendo algum romance inútil. Era extremamente tímido. Uma timidez que beirava uma conduta anti social. Como passava horas enfurnado no quarto e raramente assistia televisão, era difícil saber o que estava acontecendo no mundo lá fora.

Foi quando resolvi deixar minha caverna para ir ao banheiro. Como para fazer esta ação tenho que obrigatoriamente passar pela sala, vi pela televisão, sintonizada no canal CNN, uma das torres gêmeas exalando uma quantidade homérica de fumaça.

“O que tá rolando?”

“Parece que uma das torres está pegando fogo… Eles desconfiam de incêndio” Disse minha irmã.

Não dei muito crédito.

Alguns minutos depois invento de ir á cozinha e converso outra vez com a caçula da família.

“Foi um ataque terrorista… Jogaram um avião contra as torres… As duas torres acabaram de cair…”

Estranhamente, por mais que eu tivesse ficado bastante impressionado com aquilo, não tive saco para ficar assistindo o noticiário da CNN.

Por volta das onze e meia da manhã, me mandei para a escola e no ônibus já havia gente comentando e analisando as causas do atentado. Uma senhora atrás de mim falava em fim dos tempos, na vinda de Jesus e outras idiotices… Na escola conversei com uma colega que pertencia ao Green Peace. Eu achei que fosse ter uma análise interessante sobre o tema, mas hoje, relembrando aqueles momentos, a pobre eco chata misturou tantos assuntos no final e não disse coisa alguma…

Quando cheguei da escola fui dar um tempo na casa de um amigo. Foi ai que finalmente vi no noticiário as imagens que realmente me chocaram.

“Puta que paril…”

Foi o que exclamei quando vi a aeronave se chocando contra uma das torres, foi o que disse quando vi ambas as torres resvalando tragicamente para a ruina em meio aos gritos infernais e aterrorizantes dos americanos — como se fossem a torre de Mordor se desintegrando sobre o firmamento apesar do desespero inútil de Sauron…

Nem mesmo Júlio Verne, Lovecraft, Wells ou qualquer outro escritor de ficção cientifica ou de terror poderia ter imaginado um acontecimento daquela magnitude. Foi só ai que percebi que o mundo tinha realmente mudado, que estávamos diante de uma encruzilhada, de uma descontinuidade histórica e, ao mesmo tempo, diante um novo tempo que estava surgindo… Nos sentíamos como insignificantes satanazes diante da auto destruição e descontrole do carro desgovernado que trilhava a vereda condenada e sem sentido da história humana. As pessoas que morreram ali eram apenas vitimas da história, vitimas da descontinuidade, vitimas do processo; e nós, espectadores, meros consumidores da tragédia histórica e do devir, incapazes de compreender a erupção e o caráter causal de um novo ciclo.

Os religiosos falavam em deus, os incrédulos em tragédia, os esquerdistas em desigualdade; e eu, mero moleque retraído de dezessete anos, só sabia repetir:

“Caralho! Puta que paril!”

E fiquei assim, a repetir a única coisa que parecia encaixar-se na loucura daquele dia… Era como se o meu tricolor tivesse ganhado na libertadores, era como se eu acabasse de voltar de uma transa com a mina mais gostosa da escola. Era apenas um espetáculo:

“Puta merda, que foda!”

Era como um espetáculo e eu apenas me deixava impressionar por ele.

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2 comentários sobre “Crônica de um Dia Quase Qualquer…

  1. khemersonmelo

    11 de Setembro 2001. Acordando, assistia da minha rede duas torres caindo. Julguei ser algo importante… e esqueci por alguns segundos que era meu aniversário. À tarde, na aula, pedi pra professora nos explicar o significado histórico daquele evento. Com isso, ganhamos mais um dia de estudo para a nossa prova, que seria naquele dia… À noite, fui para a novena. Lá, me encontrei com minha ‘ficante’, que me deu o melhor dos presentes… Àquela altura, nem me lembrava mais como tinha começado meu dia. Só sabia que no dia seguinte tinha prova de geografia…

    (Postado originalmente em minha página no Facebook)

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