A Literatura de Horácio Quiroga

A América Latina apresentou ao mundo grandes escritores que hoje são considerados verdadeiros clássicos da literatura universal. Artistas nascidos numa sociedade localizada na periferia do capitalismo, dona de rara heterogeneidade cultural e refém de gritantes clivagens sociais, desenvolveram uma maneira peculiar de expressar as contradições e injustiças do desenvolvimento do capital.

Portanto, grandes artistas como Gabriel Garcia Marques, Arthur Engrácio, Machado de Assis, Milton Hantoum, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa ou Graciliano Ramos, estão expondo, numa linguagem própria, o sofrimento, as angustias e os desejos coletivos do povo latino americano, bem como o andar melancólico e trágico da implantação da modernidade em sociedades subalternas — processo este que passaria despercebido aos escritores vindos do “centro” do mundo.

Entre estes autores quem mais chama atenção é o escritor uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937) cuja singularidade não está necessariamente na critica social de suas narrativas, ao contrário de outros artistas mais engajados como Ramos, Engrácio ou Marques — a critica social de Quiroga, quando surge, é um simples adorno complementar na narrativa. Seu grande trunfo estilístico reside na forma como sua imaginação literária extraiu toda a tragédia e as decepções de sua vida para criar grandes obras primas do conto sul-americano.

Em certos aspectos a obra e a vida de Quiroga convergem, exatamente como convergem vida e obra de uma de suas maiores influências, Edgar Allan Poe (1809-1849). A morte, a tragédia e a decepção parecem ter pairado sobre a existência do autor uruguaio, exatamente como ela se agarrou à curta vida do autor de A Queda da Casa de Usher, que viveu pouco, sofreu muito e tornou-se um dos mais célebres contistas da literatura universal. Quiroga é direto, conciso, consegue dizer muita coisa em poucas palavras, com uma linha ele é capaz de criar todo um arco dramático ou descrever satisfatoriamente uma paisagem inteira; em muitos momentos lembra um escritor de nossa terra, Arthur Engrácio, em outras, pela sua força em armar historias trágicas, se parece muito com seu mestre Poe.

A primeira tragédia da vida do autor de o Travesseiro de Plumas ocorreu quando ainda era uma criança — o pai morreu durante uma caçada, num suposto acidente. Quando adolescente presenciou o padrasto paralítico se matar com um tiro de escopeta na boca; pouco depois, enquanto manuseava uma pistola, acabou matando seu melhor amigo, Frederico Fernando. Na vida amorosa também não fora feliz, seus dois casamentos naufragaram.

O universo literário de Quiroga esta prenhe destes temas: decepções, tragédias que se abatem prematuramente sobre vidas que parecem ter sido marcadas com a insígnia do infortúnio. A narrativa O Solitário, por exemplo, mostra a condição enfermiça do casamento entre um velho e hábil joalheiro e sua jovem esposa, que não o ama, mas que deseja as jóias que não o pertencem. A intensidade da história vai evoluindo até desembocar de maneira inteligente para um terrível desfecho.

Já no conto A Galinha Degolada, um dos mais assustadores e cruéis do autor, é retratado o cotidiano de uma família que se deteriora por completo em virtude dos pais não conseguirem gerar um filho normal. Esta narrativa é prenhe de uma tensão e de um prenúncio cujo leitor sente logo na primeira frase — um artifício que o uruguaio aprendeu muito bem lendo Poe. A historia nos permite perceber a situação de extremo preconceito a que eram submetidos no inicio do século XX os deficientes intelectuais: O dia todo, sentados num banco no quintal, estavam os quatro filho idiotas do matrimônio Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos, e viravam a cabeça com a boca toda aberta.

No já citado e famoso O Travesseiro de Plumas, é narrada a decadência lenta e angustiante da vida de uma jovem moça que é vitimada por um parasita que lhe sorve todo o sangue.

O autor, que também residiu por muito tempo na região rural da Argentina, retratou com maestria o estilo de vida da região. Em À Deriva, por exemplo, narra a má sorte de um trabalhador rural que, ao ser picado por uma jararacuçu, morre horrivelmente em sua canoa sobre o rio, quando tentava chegar ao povoado vizinho para conseguir assistência médica. O leitor pode perceber como naquela região era difícil o acesso á medicamentos em situações de emergência — não muito diferente do que acontece na Amazônia com as comunidades tradicionais mais afastadas dos grandes centros.

Os Mensá é o conto de maior cunho social de Quiroga. Conta a historia de dois lenhadores da região das missiones, cansados de serem explorados pelo senhor de terras, empreendem uma arriscada fuga, que termina de uma maneira inusitada: trágica, cômica e irônica. Aqui podemos perceber que a escravidão por dividas, endêmica até hoje na Amazônia e no Nordeste, não foi um privilegio destas regiões, mas ocorre em qualquer região rural onde o poder público é incapaz de coibir a dominação de uma aristocracia sedenta de lucros sobre trabalhadores e trabalhadoras desemparados. O nível de degradação moral e econômica a que são submetidos assemelha-se muito com a dominação que Arthur Engrácio retratara como poucos ao narrar a vida da decadente economia extrativista na Amazônia.

Há outras histórias que procuram mostrar a vida rural dos pampas hispânicos, são Arame Farpado, Yguaí e o sinistro A Insolação. Todos estes contos são envoltos numa atmosfera trágica onde a morte não é apenas um prenúncio, mas uma certeza…

A decepção amorosa também é explorada no bucólico Uma estação de Amor, que narra um namorico de um jovem de quinze anos, pertencente a uma família aristocrática, que terá serias consequências muitos anos depois em sua vida; e no belíssimo A morte de Isolda, da qual Quiroga nos mostrar a impossibilidade de encontrar o amor verdadeiro, e mesmo quando este surge perante nós e temos total facilidade para agarrá-lo, não o fazemos por estarmos tão cegos diante dos prazeres da vida.

Como todo grande artista, Quiroga consegue adaptar sua arte para explorar com maestria os mais variados temas como exploração, morte, doenças, insanidade, tristeza, doença ou amor. Ao escrever o famoso texto Decálogos do Contista, um trecho chama especial atenção por ser a descrição exata de seu método literário: Pegue seus personagens e conduza-os pela mão até o final, sem deixar que nada o desvie do caminho traçado. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado de resíduos.

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