Cenas da Vida Literária

Eu estava numa daquelas festas que agregam os literatos e outros aspirantes á intelectuais na livraria Germinal, ponto de encontro de escritores daquela cidadezinha ardendo de vontade em se igualar a outras metrópoles brasileiras.

 O ar exalava toda uma atmosfera pretensiosamente erudita. Para mim, um jovem escrevinhador de vinte e poucos anos, ver aqueles velhinhos em suas calças de pano e camisas de ceda parecendo uns irmãos pentecostais, citarem a exaustão em suas rodas de colóquios toda uma sorte de autores e frases, era para mim muito mais uma demonstração de pedantismo que de genuína sabedoria.

Não posso esquecer também dos seguidores destes pequenos deuses da província, jovens inocentes que acreditavam piamente no valor da arte pela arte. Reproduziam a mesma temática de seus mestres: os pássaros, a lua, a Amazônia, o amor… Puro vazio formal. Aqueles pobres puritanos nem sequer conheciam o prazer da licenciosidade que inspirou grandes como Sade, Byron, Kerouac ou Miller…

 Era por volta das vinte horas. Todos se divertiam em suas rodas onde se discutia assuntos bizantinos, como por exemplo, se Graciliano era melhor que Machado, se Antisthines Pinto tinha mais beleza formal que Arthur Engrácio ou mesmo resolver intrigas pessoais cuja única intenção era afirmar sobre outros rivais o próprio dote artístico — cuja função para aqueles intelectuais era a mesma que as plumas eram para o pavão.

 Como detesto este tipo de afetação, resolvi ausentar-me daquele recinto e fui para a calçada, onde o ar úmido do sereno da noite muito acalmava-me. Fiquei a observar os poucos transeuntes que ainda perambulavam, os carros que passavam velozes e outras pessoas que saiam da festa e conversavam sobre qualquer artificialidade. Não pude furtar-me de notar, ao contrário da maioria que por ali passava, um mendigo, deitado justamente em frente da livraria. Repousava em profundo sono sobre um pequeno pedaço de papelão. A pele queimada exalava os odores pestilentos da transpiração e da sujeira; os sovacos peludos e a barriga redonda e protuberante a contrastavam contra a magreza do corpo. Parecia o Walace Souza. Apenas uma bermuda azul e velha cobria-lhe a nudez. Tinha a sua volta algumas latas velhas que estavam ali jogadas.

O que aquele pobre diabo estava sonhando? Seus devaneios seriam a reprodução do horror da vida cotidiana ou teria ele a habilidade de escapar da realidade impiedosa recriando outros mundos em seu repouso?

Detinha-me sobre estas ideias quando desceu o dono da livraria, homem alto, tez branca, cavanhaque e olhos de expressão mordaz. Vestia terno. Vestia mesmo? Não lembro… Abordou o mendigo a chutes e gritos.

 “Porra, tu não tá vendo que tu tá atrapalhando as pessoas… Sai logo daqui, caralho!”

Embora com os olhos e as maneiras lerdas de sono, o mendigo levantara sem esboçar protesto.

“Sai daqui logo, porra…”

Todas as pessoas decentes que estavam a volta observavam caladas.

“Levanta, caralho!” Dava-lhe pontapés que atingiam as pernas, o papelão e as suas latas.

Arrumou os cacarecos e, com os gestos lentos e submissos, caminhou até uma loja ao lado que já tinha encerrado o serviço, estendeu o papelão, ajeitou as latas e voltou a dormir enquanto era observado pelos olhos condescendentes dos convidados.

Havia um garoto, de seus poucos mais de quatro anos, que observava tudo com aqueles pequenos olhos castanhos e arregalados, a boca aberta e um pequeno carrinho de plástico numa das mãos, vestido com uma camisa linho marrom e uma calça de crepe preta em seus sapatinhos de couro escuro. Pela semelhança com o dono presumi que era seu filho.

O dono da livraria subiu com o garoto no colo, enquanto resmungava em voz baixa. E aquele pobre diabo recolheu-se, resignado, por entre a escuridão que a marquise da loja lhe oferecia.

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Um comentário sobre “Cenas da Vida Literária

  1. Quiroga é conciso como uma faca e inquietante como só os piores pesadelos são. Sua objetividade assusta por nos revelar um universo que se sustenta pelo terror quase psicológico, simplesmente porque ele não exita em nos mostrar um painel que é absolutamente verossímel, guardados obviamente, as licenças poéticas adequadas, sobretudo em relação aqueles contos que abordam direta ou indiretamente o aspecto fantástico e/ ou psicológico. Meu conto preferido é sem dúvida O Travesseiro de Plumas, pois começa romântico, desenvolve-se monótono, aponta para o trágico e conclui-se sublimemente com um clímax assustadoramente fantástico.

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