Flaubert e a Alma Feminina

Talvez não exista em toda historia da literatura ocidental um escritor tão obcecado pelas palavras, tão consumido pela idéia de perfeição ou tão devotado pelo valor inquestionável da arte literária quanto Gustave Flaubert, mestre do realismo e uma influência certa de dez entre dez escritores contemporâneos.

Não se pode dizer que o autor de Um Coração Simples tivesse a mesma facilidade em escrever de Honoré de Balzac, que compunha uma novela a cada duas semanas, ou mesmo seu aluno Guy de Maupassant, que deu ao mundo nada mais nada menos que trezentos contos. A verdade era que Flaubert travou uma luta incessante com a palavra, como se a pena e a folha em branco recusassem seguir suas ordens e a passar para o papel seus projetos literários.

Flaubert era um obsessivo. Escrevia e reescrevia milhares de vezes a mesma passagem, a mesma pagina, o mesmo parágrafo. Talvez ele tivesse a convicção de que apenas os escritores medíocres se satisfazem com as frases fáceis, com as descrições que aparecem de súbito e com os desfechos cômodos do enredo. Por isso escreveu tão poucos livros em vida; mas também, por isso mesmo, criou histórias que hoje são verdadeiras obras primas e referência obrigatória para quem deseja adentrar no rico mundo da cultura ocidental.

Seu texto mais famoso é com certeza Madame Bovary, publicado em 1856. Assusta ao leitor contemporâneo que esta história, uma pequena intriga de adultério ocorrida numa cidadezinha do interior da França, tivesse, na época, causado tanta polêmica. O autor chegou a sofrer um processo por ter escrito um romance que, segundo o advogado imperial Alfred Pinard, continha “ofensas a moral publica e a moral religiosa”. Também pudera, em meados do século XIX, as concepções a cerca do casamento ainda tinha o status de sagrado e a libido feminina era um assunto simplesmente ignorado. Portanto, lançar um romance que tratasse principalmente dos aspectos mais obscuros e desastrosos do matrimônio e desnudar a psicologia da mulher sem qualquer concessão ao recato só poderia ter como resultado a ira dos conservadores.

A história narra o fatídico destino de Emma Bovary, uma imaginosa mulher que tem desejos mundanos e sede por aventuras, mas que acaba casando com um médico de interior para satisfazer seus desejos de menina. Sua vida, para o seu desespero, assim como era antes de contrair o matrimônio, continua sendo tediosa e medíocre. Ao perceber o erro que cometera ao casar com Charles Bovary, um homem que mais tarde percebera ser um fraco, entra em depressão e passa a se entregar ao consumismo desenfreado, contraindo várias dividas e cultivando casos extraconjugais.

Como o pobre personagem de Miguel de Cervantes, que enlouquece de tanto ler romances de cavalaria, ela também deixa-se influenciar pelas historias românticas que devora e passa a desejar uma vida como as que encontra nos livros, repleta de paixões desenfreadas, de loucuras e de viagens. Um momento muito ilustrativo de seu desejo em fugir de sua vida prosaica de esposa de um pobre médico do interior é quando, logo depois de iniciar um caso amoroso com o Rodolphe, ela suspira: “Eu tenho um amante! Eu tenho um amante!”

As descrições sobre a personagem Emma Bovary são extremamente convincentes, sendo Flaubert um dos poucos escritores que se aproximaram de Balzac na perfeição do estudo da alma feminina. Os lances, as artimanhas e as manobras que a heroína usa para trair o marido são de tamanha verossimilhança que é possível dizer que ela foi a autêntica piriguete do século XIX.

Como todo clássico, Madame Bovary não se esgota na historia de uma esposa infiel e de seu marido ingênuo. Por todo o romance Flaubert destila, através do discurso indireto livre que se encaixou como uma luva na nova estética que estava criando, sua critica a todos os setores da sociedade, desde o fanatismo dos padres do interior, passando a pseudo-intelectualidade e das aspirações aristocráticas da burguesia, dos malefícios dos ideais românticos e, principalmente, pela ilusão do matrimônio vitalício.

Tomando Balzac como sua principal influência, o escritor virou de cabeça para baixo o mundo literário de autor de Ilusões Perdidas. Ao invés de colocar personagens movendo-se no centro do mundo ocidental, no caso Paris, Flaubert pegou estes mesmos personagens e jogou-os na monótona vida do interior da França, com sua rotina angustiante, com suas picuinhas e sua mediocridade. È possível dizer o universo flaubertiano é praticamente uma caricatura do mundo balzaquiano.

A estética criada pelo autor, que se baseia na observação e descrição desapaixonada dos fatos, foi ganhando o espaço desfrutado pelo antigo drama épico. Entretanto, essa mudança não pode ser creditada apenas ao gênio de um individuo, mas as próprias mudanças a que estava sofrendo a sociedade capitalista no século XIX.

A época de escritores anteriores a Flaubert, como Tolstoi, Stendhal e Balzac, as relações de produção capitalistas estavam se consolidando a custa de várias convulsões sociais que destilavam o golpe mortal contra os resquícios do mundo feudal. Estes artistas, por terem participado ativamente do processo, e tomado partido nele, passaram a retratar o mundo em que viviam a partir da experiência que tinham. Flaubert, ao contrário, nascido numa época posterior, escolheu fazer o inverso de seus mestres, como escrevi em outro artigo sobre o tema:

Essa escolha em ser apenas um frio observador da sociedade, descrevendo-a em quadros mais ou menos estáticos, não se dá apenas como uma motivação estética ou subjetiva do artista, há imperativos sociais. No século XIX as relações na sociedade tornaram-se mais complexas, a esfera do trabalho, em virtude da revolução industrial, passou por uma especialização crescente, o homem moderno já começava a tornar-se um “bárbaro altamente treinado” para usar as palavras de Geertz, e o capital já ultrapassava todas as barreiras culturais e se estabelecia por todo o globo. Estas modificações, em termos de literatura, significavam que não era mais possível individualizar um personagem simplesmente a partir da ação, “pelo modo segundo o qual os personagens reagiam ativamente aos acontecimentos.” Era agora preciso descrever em minúcias, deter-se nas “lamas das botas de Napoleão” abandonar a práxis como ligação com a vida interior, transformar a literatura numa espécie apresentação de cenas descritas minuciosamente e sem qualquer ligação mais profunda, o heroísmo de homens excepcionais é jogado fora e, em seu lugar: o prosaísmo e o vazio da vida. (Silva, R. L. Narrar e descrever: duas vocações)

O retrato do vazio da vida tornou-se um dos temas centrais de Flaubert, pois também sua vida era prenhe deste vazio. Nascido numa família rica, nunca precisou trabalhar e nem mesmo terminou a faculdade. Morando em Rouen, cidade do interior da França, ele angustiava-se da vida monótona da província e resolveu, a partir de sua posição dentro da sociedade francesa e de sua paixão pela literatura, retratá-la sem rodeios. Por isso é possível dizer que o autor de Madame Bovary foi um dos primeiros escritores profissionais no sentido moderno do termo.

Com o estrondoso sucesso alcançado pela obra, não foram poucas as pessoas que se perguntaram quem teria sido Emma Bovary. O autor, entretanto, respondeu com ironia: Madame Bovary sou eu. Embora muitos tenham encarado a resposta como uma pilhéria, ela não deixava de conter uma parcela de verdade. Na mocidade Flaubert foi um devotado adepto do romantismo. Mas a diferença, segundo Heitor Ferraz era que ele não tinha ilusões, conhecia o estrago que tal veneno podia causar.

Sendo uma simples historia sobre adultério, uma critica aos ideais românticos ou uma paródia dos valores mais caros da sociedade de seu tempo, Madame Bovary deixou seu legado e tornou Gustave Flaubert, ao lado de seu mestre Honoré de Balzac, um dos os autores que melhor retrataram as nuances da alma feminina e as desilusões do casamento.

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