A última Obra Prima de José Saramago

O escritor manauara L. Ruas, ao prefaciar o livro Vitrais da Busca, de Max Carphentier, disse que não é tarefa do artista seguir o mesmo caminho dos cientistas ao analisar a realidade; seu papel seria simplesmente ser um receptor do mundo a sua volta para expressá-la com a sua aguda sensibilidade. O filósofo italiano Simone Regazzoni vai mais além ao afirmar que não cabe a obra de arte encenar comportamentos conforme as leis e a moral.

Esta sem dúvida é a máxima que rege a produção artística na modernidade. Não há nada sagrado o suficiente que não possa ser analisado, relido, criticado ou satirizado. Todos os fatos históricos, por mais importantes que sejam para uma nação, as leis e valores para uma sociedade ou os mitos canônicos de uma religião, devem passar pelo fio agudo da espada dos artistas. A arte não é moral nem imoral. Ela é simplesmente um instrumento pelo qual o artista, ao refletir subjetivamente sobre um acontecimento, pode despertar a reflexão para si e para aqueles que apreciam sua obra.

É sabendo deste teor revolucionário da arte que José Saramago escreveu seu ultimo livro, Caim (2009), seguindo a mesma rota iniciada em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ao fazer uma releitura de histórias consideradas como sagradas e que ajudaram a moldar o imaginário ocidental. Desta vez a peça escolhida foi a trágica história de Caim e Abel, filhos de Adão e Eva.

Na obra o autor pinta um Deus não muito amável com a sua criação. Preconceituoso, cruel e vingativo, o Todo Poderoso, ao ver que Adão e Eva o desobedecem, chega a parecer com uma criança cheia de ódio que destrói seus brinquedos quando não faz exatamente o que ele espera.

Logo depois de matar Abel, Caim acaba condenado por Deus a vagar pelo mundo sem encontrar sossego, passando por vários presentes e futuros da historia de Israel, tudo num tom que mistura erotismo, humor e fina ironia que em muito faz lembrar outro mestre da literatura: Machado de Assis.

Caim torna-se um escravo sexual de uma rainha, mas como acaba despertando a ira do rei e engravidando sua esposa, segue seu destino como errante presenciando todo o absurdo da vontade divina; como o sacrifício desnecessário das crianças com a destruição de Sodoma; as carnificinas que se segue com a queda de Jericó ou a crueldade que Deus e o Diabo ao fazer uma aposta com relação a suposta fidelidade de Jó para com o senhor.

No romance, por exemplo, não faltam lances grotescos que dão a narrativa um tom de farsa; como o de Abel, que seria filho bastardo do anjo que guardava a entrada do Jardim do Éden, e que apenas teria deixado Eva entrar para pegar algumas frutas em troca de uma boa trepada. Quanto a célebre história de Abraão e Isaac, o pobre filho do patriarca apenas teria sido salvo do fanatismo de seu genitor porque Caim consegue chegar no momento exato da crucificação. O anjo enviado pelo Senhor que deveria impedir o assassinato chega tarde e como desculpa dispara:

Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha pra cá surgiu-me um problema da asa direita (…) não tinham me explicado bem em qual destes montes era o lugar do sacrifício. (Pg.80)

Depois do filho ter sido tirado do altar da crucificação, Saramago usa o personagem Isaac para tecer as suas brilhantes criticas a religião e ao fanatismo neste brilhante diálogo com Abraão, presente na página 82:

“E que senhor é esse que manda um pai matar seu próprio filho?”

“È o senhor que temos, o senhor de nossos antepassados (…).”

“E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar?”

“O futuro dirá.”

“Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior.”

“Assim é.”

“E se tivesses desobedecido a ordem?”

“O costume do senhor é mandar à ruina, ou uma doença, a quem lhe falhou.”

“Então é rancoroso.(…) Nem um erro, nem um crime?(…)”

“Os erros e os crimes, sobretudo.”

“Pai, não entendo desta religião.”

O pobre Caim também acaba indo parar em plena construção da Arca de Noé. Entretanto, Jeová lhe ordena executar uma tarefa um tanto curiosa: a de reprodutor. Como há poucas pessoas na arca, o filho de Adão deve copular com as mulheres dos filhos de Noé e com a própria esposa do patriarca para ajudar no repovoamento da terra. Mas o amaldiçoado protagonista já está cansado de tantas loucuras e crueldades de um Deus desastrado e resolve se vingar assassinando cada um dos tripulantes da embarcação para abortar de vez com os planos do Senhor.

O último livro de José Saramago não possui a mesma pungência dramática ou filosófica do seu Ensaio Sobre a Cegueira, mas sua capacidade de recontar, tudo com muito humor e elegância, velhos mitos que formaram a cultura ocidental faz de Caim uma bela narrativa que, além de ser um divertido libelo contra todo fanatismo, nos faz repensar sob uma nova perspectiva nossas tradições e entender suas descontinuidades e incongruências.

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