Juliana

Lembro-me bem dela. Era uma das mulheres mais atraentes do Bairro da Paz, dessas que encantam os corações dos homens mais velhos e enchem os mais novos de sonhos impossíveis. Na época em que eu morava por aquelas bandas, ela estava com seus vinte anos, no auge da beleza tanto física quanto moral. Tinha os olhos castanhos claros; cabelos lisos que esvoaçavam sensualmente ao caminhar, deixando reluzir as coxas bronzeadas e deliciosamente grossas; seios redondos e pequenos, pendendo naquelas camisetas que deixavam a mostra os ombros de contornos ternos. Não sofria daquele egocentrismo doentio que outras fêmeas, conscientes de seus dotes de beleza, são acometidas; sempre com um conquistador sorriso, cumprimentava a todos. Até ficava alguns momentos trocando conversa conosco e gargalhava com nossas piadas — nós, os moleques de dezessete e dezoito anos que jogavam bola na rua.

Ela trabalhava com a venda de cosméticos, vendendo de porta em porta. Devido a sua graciosidade, quase todas as mulheres da vizinhança eram sua freguesia. Não era uma mulher de grandes dotes intelectuais, mas sua sensibilidade compensava todas as suas deficiências de inteligência. Eu diria que ela era o modelo de mulher que todos nós, adolescentes da época, sonhávamos. Distorcendo uma expressão caríssima para a psicologia comportamental, Juliana era uma fêmea alpha.

Era filha única de Seu Timoteo Rodrigues e de Dona Maria Ana; o pai era um velho operário e ex-sindicalista aposentado da Zona Franca, homem alto, pele queimada, tinha um físico de touro, temperamento taciturno, olhos miúdos e muito negros; costumava beber no boteco do Carlinhos em companhia de outros velhos amigos de sindicato ao som de Soriano e outros célebres do bolero. Adorava contar as historias da época de ouro do sindicalismo em Manaus, na década de 1970, quando fizeram uma greve e a policia chegou metendo porrada em todo mundo. O velho sindicalista conta que fora levado pelo DOI-CODI e chegou a ser torturado.

“Eles me xingaram de comunista e ainda me bateram aqui e aqui…” Dizia, mostrando o lugar onde foi aplicado as sevicias.

A mãe tinha um bazar no centro comercial do bairro; mulher baixa, ossos largos, ancas muito largas, corpo farto de carne, adorava travar longas conversas com os fregueses que iam ao seu estabelecimento onde soltava estridentes gargalhadas.

Moravam numa rua que ficava perto da Igreja Evangélica, uma pequena casa de dois andares, paredes azuis, de aspecto estreito e muros médios; provida de um pequeno portão marrom, logo ao lado podia-se observar uma escada de caracol já enferrujada que levava ao segundo nível onde havia outra casinha cuja varanda era amparada por grades pretas — como Dona Ana era muito católica, mandara talhar na parede principal a imagem de São Judas Tadeu.

“Olha só estes crentes… São Paulo deve estar quase pra desmaiar de tanto cc…”

Era o que dizia, entre gargalhadas, quando os fieis se dirigiam ao seu templo com as bíblias debaixo do braço.

O marido, meio indiferente, respondia aos gracejos da mulher apenas com um gemido, enquanto mascava um tanto de tabaco.

Na época Juliana estava noiva de Marcos Lucas. Um sujeito que, embora não tivesse tantas posses, era esforçado. Trabalhava como gerente numa loja de roupas do centro, estava no segundo ano da faculdade de administração e alugava um quarto numa pensão próxima da rua da minha casa. Lembro-me que também tinha uma moto. Sempre víamos os dois juntos, indo aos pagodes tarde da noite. Nos domingos ele sempre parava para jogar bola com a gente.

Em certas ocasiões me dava uma carona até a escola quando me via na parada de manha cedo esperando o 203. Dizia-me que quando se juntasse com Juliana queria comprar um carro, tirar uma casa — bom sujeito…

Mas as coisas não ocorreram como o meu bom amigo imaginava. Juliana o deixou por Frank, morador de uma rua lá debaixo. Este sujeito não era uma dos mais interessantes de travar qualquer relação. Bebia e brigava nos forrós.

Não podia ver alguém progredindo que se logo se prestava a difamar a pessoa. Adorava botar pra cima das mulheres dos outros. Vivia contando vantagens.

Também não era muito honesto — todo mundo conhecia a historia de que fora demitido da banca de frutas do Homero porque descobriram que andava surrupiando o dinheiro do caixa…

Após o rompimento, me recordo muito bem da decadência em que Marcos resvalou. Andava por ai como um morto vivo, chorando, querendo matar o outro e se matar junto… Perdera o ímpeto e trabalhar, estudar, de sair de casa.

Começou a cortejar a bebida. Uma lástima.

Os pais de Juliana não aprovaram o novo namorado e pressionaram até os limites da sanidade para que ela deixasse o sujeito, conta-se que até deixaram-na trancada em casa para não ver Frank. Mas as mulheres parecem ter a vocação para escolher os caminhos errados. Imaginando que o amor pelo novo namorado era infinito, fugiu com ele. Não posso esquecer da aflição de Dona Ana e nem da tristeza de Seu Timoteo; ela chorava o tempo todo, deixou os negócios da loja desandarem e transformou-se numa mulher taciturna, de semblante quase sempre contraído; o pai passou o resto da vida sentado na cadeira de balanço em frente de sua casa, muito sério, ruminando coisas incompreensíveis, parecendo um velho senil.

Ninguém teve mais noticias dos dois. Quanto a Marcos, ele teve a sorte de passar num concurso publico e se mudou, desde então perdi o contacto com ele.

Três anos depois, quando estava no ônibus indo para a UFAM, eu a vi outra vez. Não fiquei apenas surpreso, mas profundamente desgostoso com a cena que me foi descortinada dentro da linha 125. Ela parecia envelhecida trinta anos; tornara-se uma mulher do povo, sua transformação foi semelhante á mulher do conto O Colar de Diamantes, de Maupassant. Os olhos estavam sem a mesma vibração, em volta deles havia profundas olheiras enegrecidas onde eu podia perceber dezenas de rugas; as mãos anteriormente delicadas e macias, agora estavam grosas como mãos de um trabalhador braçal; os cabelos, outrora leves e delicadamente bem cuidados, estavam desalinhados e esboçavam uma tonalidade sem vida; a pele estava cheia de manchas de sol; os seios, antes justos e firmes, pareciam os de senhora que tivesse parido meia dúzia de curumins; a barriga, que me lembro bem, não tinha uma grama de gordura, aos meus olhos naquele momento eram os de uma grávida; aquelas belíssimas coxas que tanto mexeram com meu imaginário de jovem apresentavam-se completamente caídas, finas e ossudas; outrora uma mulher vaidosa, que sempre se preocupava em vestir-se com as melhores roupas, agora se vestia como uma rameira de porto.

Enquanto ela passava pela borboleta, percebi que segurava uma criança de colo. Arrisco dizer que a pequena tinha um ano de idade; era branca, olhos castanhos e vestia-se com uma simplicidade quase beirando a miséria. Atrás estava Frank, não mudara em quase nada, a mesma cara de malandro, a mesma malicia nos olhos e o mesmo visual — cabelos pretos com luzes louras.

Assim que nos aproximamos do Fórum Henoch Reis, eles foram para a traseira do ônibus desembarcar. Quando a pobre moça me viu, não retribuiu o meu cumprimento, ao invés disso, baixou a cabeça deixando vazar uma vergonha torturante nos olhos.

Enquanto vi aqueles três pobres diabos se dirigirem para um prédio onde estava escrito Conselho Tutelar, tive a convicção de que Machado de Assis estava certo — as mulheres só se apaixonam pelos tolos…

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