Lost e a Filosofia

Uma das ideias mais difundidas no Brasil sobre a filosofia é de que ela é um discurso de difícil compreensão. Isso se deve em parte pela falta do hábito de leitura do brasileiro, cuja indolência mental o impede de dialogar com um texto de linguagem mais elaborada e, também, pelo próprio processo de encastelamento que a disciplina se alienou ao longo de sua institucionalização.

Isso que dizer que a filosofia foi ficando cada vez distanciada dos problemas do homem comum e se detendo em assuntos que tinham relevância apenas para os acadêmicos da universidade.

Mas essa tendência, hegemônica em períodos recentes, está cedendo lugar para uma nova postura dos filósofos em relação a esferas da vida social que antes eram vistas de maneira pejorativa. Se antes o discurso filosófico, por exemplo, se ocupava apenas da arte tradicional, detendo-se nas imprecações dos incompreensíveis artistas abstratos, agora ela passa a centrar sua atenção nos fenômenos da cultura de massa, como o cinema popular, as novelas e as séries de televisão. A filosofia, assim, despe-se de uma racionalidade cansada e dedica-se aos fenômenos da vida cotidiana.

O livro A filosofia de Lost, do italiano Simone Regazzoni, é um exemplo dos novos rumos que o discurso filosófico está tomando nos últimos decênios. Com um estilo simples e ligeiro, o pensador analisa os principais assuntos abordados por uma das mais bem sucedidas séries de televisão da contemporaneidade.

Usando um amplo arco de pensadores como Gramsci, Freud, Derrida, Rousseau e Heidegger, Regazzoni considera Lost um verdadeiro fenômeno transmidial que extrapolou suas fronteiras midiáticas tradicionais e tomou conta de outras mídias como a internet, o cinema e a literatura. Sua grandeza, segundo Regazzoni, está na capacidade dos seus roteiristas J.J. Abrams e Damon Lindelof em fundir elementos da cultura erudita, da cultura pop e dos filmes B.

O estilo do seriado é não-linear, e sua atmosfera, as vezes cômica, as vezes épica, é quase sempre angustiante. Lost é um verdadeiro drama filosófico que discute a condição moderna e sua implicações para a humanidade.

A busca pela verdade. Entretanto, a influência filosófica de Lost não reside apenas no fato de que os personagens possuem nomes de filósofos como Rousseau, Locke ou Desmond David Hume. O que o seriado quer propor com isso é a premissa de que todos os homens são filósofos e, portanto, portadores de uma filosofia e de um visão de mundo específica. Isso é evidente quando tomamos conta de que cada personagem possui uma opinião sobre as coisas a sua volta, uma perspectiva dos acontecimentos, uma lenda pessoal*. Seus episódios são sempre apresentados pela ótica de determinado personagem. O que está em jogo no seriado é um tema que vem sendo discutido desde os primórdios da filosofia — a busca pela verdade. E cada um dos sobreviventes é uma verdade que está em luta constante contra outras verdades.

Indo mais a fundo, e isso é uma metáfora de um drama especificamente moderno, todas as nossas antigas certezas se esfacelaram diante da razão, e agora, em pleno século XXI, até mesmo a razão sofre um processo de critica severa que, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, se tornou incapaz de controlar o mundo social e natural. Hoje, a única coisa que parece sólida é a incerteza, a insegurança e a ansiedade. A modernidade libertou as forças da sociedade das amarras de ferro da tradição e com isso povoou o mundo de uma variedades de visões, de perspectivas e de filosofias, e onde cada indivíduo ou grupo social veste-se ou despe-se de delas dependendo do seu lugar no mundo ou da mudança da conjuntura social ou politica. O que vemos e o que vivenciamos, portanto, não é a Verdade, apenas mais uma perspectiva influenciada pela nossa história de vida e pelo nosso lugar no modo de produção-informação. Se há tantas verdades em luta, então todas elas são equivalentes. Nenhuma é mais válida que a outra. Nenhuma pode explicar mais coisas que a outra. Porque buscar pela Verdade, então, se conforme nos diz Regazzoni: ela permanece opaca, impenetrável, irredutível a clareza de evidência?

Eu diria mais: porque buscar pela verdade se ela não existe?

Tortura. O fato de haver em Lost um personagem que foi um torturador profissional não pode ser reduzido ao intento de que os autores estavam sendo influenciados pelo cenário politico contemporâneo. Para Regazzoni, o tema cujo epicentro é a personagem Sayd possui muito mais complexidade. No seriado, a tortura não pouca ninguém, é praticada deliberadamente por todos os grupos da trama. Esta forma deliberada de praticar um ato cruel está em sintonia com das declarações do ex-vice-presidente Dick Cheney, quando admitiu o uso de métodos leves de tortura para arrancar confissões de terroristas. Isso não pôs fim à hipocrisia, mas tornou a tortura normalizada, aceita e almejada em determinadas circunstâncias. A tortura foi elevada á um principio universal. O enunciado de uma coisa acabou por mudar seu próprio conteúdo.

A Ilha. Ela não é apenas um mero pano de fundo onde a ação dos personagens se desenrola. Ela é o personagem principal da trama. Uma bem elaborada metáfora ou manifestação de deus. Assim como Jeová do velho testamento, ela está sempre à espreita, enviando sonhos proféticos, visões e instruções para os seus personagens. Locke, o homem dono do sentimento oceânico e predestinado a ser o líder espiritual, quando se refere a deus, diz ilha. Ele não acredita que deus o tenha curado de sua deficiência nas pernas, mas que a Ilha o curou. Num dos episódios da primeira temporada, por exemplo, ele diz a Jack, eu vi o âmago a desta Ilha, e o que eu vi foi lindo. Quando ele está dando socos na escotilha, no final da primeira temporada e diz, porque você fez isso comigo? Ele não se refere a deus, mas a Ilha.

O livro faz uma verdadeira arqueologia filosófica ao expor temas que no seriado parecem apenas implícitos ou escamoteados pelo desenrolar da trama. Talvez os roteiristas sequer imaginavam que sua narrativa poderia ser um terreno fértil para discussões de assuntos como os que foram detectados por Simoni Regazzoni. Toda obra prima ultrapassa as verdadeiras intenções de seus realizadores e diz coisas que seus autores sequer desconfiam.

A filosofia de Lost é uma boa opção para o estudante de ciências humanas interessado em estudar a cultura de massa, fenômenos transmidiais ou a nova tendência individual media da televisão. Para o fã da série, uma ótima fonte para discutir alguns aspectos do programa que vão muito além do mero espetáculo.

*Paulo Coelho não me agrada, mas o termo presente n’O Alquimista se aplica muito bem ao contexto.

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4 comentários sobre “Lost e a Filosofia

  1. Khemerson Macedo

    Lembro da primeira temporada quando discutia cada episódio de Lost com meus colegas das ciências sociais. Falando nisso, acho que sou um dos poucos que acompanhou o seriado durante as seis temporadas e tem uma opinião sobre cada episódio.

  2. Pingback: CLÁSSICOS RECENTES DA TV: O FINAL DE LOST « Bau de Resenhas

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