O Legado de José Saramago

O escritor português José SaramagoO que faz de um escritor um clássico é justamente sua capacidade de analisar o mundo que o cerca, perfurar o mais profundo possível as camadas deste “substrato oculto” que é o coração dos homens para dele extrair suas maiores angustias e, com isso, transformá-las, por meio de sua aguda subjetividade de artista, em obra de arte.

José Saramago (1927-2010) era um destes escritores.

Quem poderia prever que aquele menino, nascido na miserável província de Ribatejo, filho e neto de analfabetos, seria um dos maiores e mais polêmicos prosadores contemporâneos?

Trabalhou em diversas atividades, desde carpinteiro, desenhista, servidor público e jornalista. Mas foi a literatura que lhe possibilitou a capacidade de expressar as agonias da era moderna. Nunca se esqueceu de onde veio. Era um autentico intelectual orgânico. Sempre se envolveu com a militância pelos direitos dos oprimidos e em questões humanitárias. Viajava por todas as partes do mundo, dava palestras, participava de eventos como o Fórum Social Mundial e defendia a necessidade da reflexão para romper com a vida esteril em que o capitalismo mergulha o homem:

Acho que na sociedade atual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objetivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objetivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem idéias, não vamos a parte nenhuma.

Comunista, fora grande defensor da revolução cubana, mas rompeu com Fidel Castro na década de 1990 ao discordar do tratamento dado aos migrantes que tentavam deixar Cuba.

Polêmico, foi um dos mais argutos críticos da igreja católica e jamais escondeu o seu ateísmo, como em uma de suas mais famosas frases:

Não sou um ateu total. Todos os dias procuro algo que prove a existência de deus, mas infelizmente não encontro.

Seus livros cultivam uma linguagem elegante, repleta de frases longas e diálogos que prescindiam da pontuação convencional. Fora um verdadeiro artesão da palavra. Com sua passagem para aquele undiscorevered country, junta-se ao seleto grupo de Camões, Eça de Queiroz, Machado de Assis e Guimarães Rosa, como um dos maiores escritores em língua portuguesa.

Em seus livros cultivava uma verdadeira busca, não apena pela perfeição estética, mas pelas respostas as questões que afligiam o homem moderno, como a importância da morte (Intermitências da Morte), das limitações da democracia (Treva Branca) ou da releitura de velhos mitos de importância capital para a cultura ocidental (O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Caim).

Em seu mais famoso romance, Ensaio sobre a Cegueira, que lhe rendeu o premio Nobel em 1998 e foi adaptado para o cinema por Fernando Meireles (leia aqui a resenha do filme), explorou a incapacidade do homem moderno em enxergar além do que os olhos veem. Para Saramago, a única forma de recuperar o afeto perdido em um mundo onde reina a o egoísmo exacerbado e a incapacidade de enxergar a outro como igual é justamente ir além das aparências, das pré-noções e resgatar aquilo que realmente somos: Dentro de nós há uma coisa sem nome, essa coisa é o que somos.

José Saramago fez da literatura um grito de protesto contra a barbárie e um brado a favor da vida e da solidariedade entre os homens — seu legado, portanto, ficara vivo até o entardecer dos séculos.

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