Arte, Ciência e Sociologia

O interesse do artista na forma é o interesse do cientista na estrutura. Em cada um, o desejo de visão e entendimento é dominante. Cada um trabalha empiricamente; luta para comunicar sua descoberta através de um padrão ou uma estrutura formal que requer técnica para ser dominado. R. Nisbet

O desenvolvimento do pensamento moderno durante os dois últimos séculos acabou por criar e propagar uma imagem de que a ciência e a arte são coisas completamente diferentes. Ou seja, tornou-se senso comum a tese de que a mente cientifica é impulsionada pelo estudo sério, pelo apego rígido a métodos previamente aprovados e pelas observações empíricas mais elementares; enquanto que o artista seria movido pela beleza, pelo dom da inspiração e pela ojeriza a sociedade.

Mas para o sociólogo Robert Nisbet em seu ensaio A Sociologia como uma forma de Arte, essa forma de imaginar estas duas esferas do pensamento humano não poderiam estar mais equivocadas, pois tanto ciência quanto arte são, na verdade, duas representações diferentes de uma característica humana — a busca pela verdade. Tanto o artista quanto o cientista estão preocupados em compreender o universo e se comunicar, por meio de sua subjetividade, com o mundo a sua volta.

Se recuarmos até o Renascimento, veremos que o artístico e o cientifico eram manifestações diferentes de uma mesma mente criativa.

“O homem da Renascença viu o mundo a sua volta a partir do vantajoso ponto de vista do artista cientista; não algo para ser reverenciado ou para manipular, mas para entender e dominar (…)” (pg. 119-120)

Esta separação radical entre arte e ciência começou a ganhar espaço a partir da revolução industrial e da revolução francesa, quando, com os processos levantados pelos movimentos sociais e pela divisão do trabalho criaram a concepção de que artistas e cientistas trabalhavam de maneiras extremamente antagônicas. No século XIX essa aparente separação radicalizou-se com o romantismo. Imaginava-se que o artista era movido pelo gênio e pela inspiração, nunca através de estudos constantes e da experimentação — preocupado com a arte e com a beleza, isolava-se do mundo como um antídoto contra a civilização industrial. Do outro lado estava a ciência, recrutada para as fileiras da sociedade capitalista e totalmente englobada pela tecnologia utilitarista “fazendo dela não mais o que havia sido por séculos, fundamentalmente a atividade da mente reflexiva, mas uma profissão governada pelos códigos e critérios do serviço, tal como o direito, a engenharia e a medicina.”

Assim, a ciência do tipo aplicado foi ganhando espaço entre as universidades americanas e européias. Acreditou-se que a ciência estaria preocupada apenas com a realidade, enquanto a arte serviria apenas para aguçar e agradar aos sentidos.

Espalhou-se e idéia de que a ciência, diferentemente da arte, flui através dos mesmos canais metódicos e sistemáticos que os negócios ou o direito ou a medicina. Sentia-se que o crucial não era a reflexão livre, a intuição e a imaginação. Mas a rigorosa aderência aos procedimentos. A maquina na fábrica havia provado que a habilidade poderia ser transferida do homem para a tecnologia, fazendo da engenhosidade humana um item dispensável. Não poderia o método ser análogo da maquina? Muitas gerações de americanos pensavam que sim, escolas e colégios ficaram cheios de estudantes aprendendo fielmente o que se pensava ser método cientifico — não, infelizmente, como uma ajuda ao raciocínio, mas como um substituto dele. (Pg.115-116)

Mas o artista também procura, tanto quanto o cientista, interpretar a realidade. Ele procura apreender o mundo a sua volta através de sua subjetividade e comunica sua visão da Verdade Universal para a sociedade.

A sensibilidade do artista o faz captar as novas relações geradas no interior do tecido social; o faz sentir, primeiro que o cientista, pequenas mudanças que anunciam eventos que ainda estão por surgir — a intuição da mente cientifica para a sociedade é muito mais clarividente que a da mente cientifica, cuja percepção para os novos eventos se processa de maneira mais lenta.

Os problemas e as respostas que formam o núcleo da cultura moderna são o trabalho, não dos Úteis da sociedade, mas dos Visionários, daqueles que se perdem em conjecturas e que, sem saber para onde estão indo, vão por isso mais longe. (pg.120)

Reduzir as ciências humanas em simples manuais metodológicos, questionários e técnicas de tabulação, apenas tolda a capacidade dos alunos em desenvolver sua própria imaginação icônica e avançar mais longe em suas pesquisas — limitar a realidade em simples tabelas estatísticas restringe a capacidade critica do pesquisador e o que resta é somente as “generalizações superficiais da pratica do senso comum”.

O sociólogo americano Robert Nisbet (1913-1996): arte e ciência caminham juntas.

Se observarmos os grandes nomes da sociologia, Giddens com a sua teoria dos sistemas peritos e da modernização reflexiva; Beck com seus estudos sobre a sub-política; Bauman com sua tese da modernidade liquida; Weber a dominação racional; Simmel e suas reflexões sobre o dinheiro e sobre a vida nas grandes cidades; Durkheim e o fato social; Faoro e o patronato político; Holanda e seu homem cordial; perceberemos que suas inovações e reflexões perspicazes não vieram através de um apego rígido aos velhos e antiquados manuais de pesquisa técnica, foram sobretudo fruto de um cultivo intenso da atividade intelectual, com a leitura de um imenso arco teórico, que abarca filosofia, sociologia, historia, literatura, psicologia, psicanálise e tantas outras áreas que lhe permitiram reagir ao mundo que os cercava, desenvolver a perspicácia, inteligência imaginativa e a intuição para inovar, ir adiante e tornarem-se hoje dignos dos louvores que hoje recebem.

Somos dependentes, segundo Nisbet, destes conceitos da mesma forma que os artistas são dependentes de seus mestres. Assim como o escritor ainda aprende algo ao reler Balzac; o pintor ao estudar os traços de Van Gogh; o músico apreende algo ao escutar Antonius Rex ou Bach; nós ainda aprendemos muito ao reler As conseqüências da Modernidade, O suicídio ou O capital.

A arte abomina sistemas, e assim procede tudo o que é criativo. A historia é o cemitério dos sistemas e é precisamente por isso que Simmel e Cooley e Summer mantêm-se atuais e valiosos para nós hoje e porque poucos lêem Spencer ou Ward. Com qual freqüência os construtores de sistemas produzem estudantes que são criativos e viáveis? O sistema mata, o insight dá vida. O que resta hoje do nominalismo, do realismo, do sensacionalismo, do pragmatismo e de todos os outros sistemas que uma vez desfilaram nas terras da Europa? Mortos, todos mortos. (Pg. 129)

Não se forma um estudante nas ciências humanas ou sociais fazendo-o analisar os velhos e antiquados sistemas e métodos de pesquisa, mas sim apresentado-o toda a riqueza da cultura e do pensamento humano, pois como afirma Nisbet: “Sistemas tornam-se facilmente burocracias do espírito, sujeitos as mesmas normas e regulamentações insignificantes.”

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