Conhecimento e Educação em Kant

Considerado como um dos grandes filósofos da era moderna e um dos grandes críticos ao pensamento metafísico medieval, Emmanuel Kant (1724-1804) representa uma verdadeira revolução para a historia da filosofia.

O filósofo  está incluído na nova tradição do pensamento ocidental que postula a supremacia da razão natural como premissa básica para o desvendamento objetivo da realidade. Ao conceder a razão o monopólio do conhecimento, os homens tornar-se-ão livres de quaisquer imprecações religiosas que o impeçam de conhecer, manipular e desvendar os mistérios do mundo — eis o ideal mais caro ao iluminismo, que minaria todas as antigas concepções medievais.

Ao contrário da filosofia clássica, ou metafísica, que defendia a preocupação em especular sobre a essência do mundo e das coisas, a filosofia moderna, que começa a surgir no século XVI, vai se concentrar na questão do conhecimento, debater a capacidade do ser humano em apreender esta própria realidade, discutir este processo e estabelecer seus limites para o ato de conhecer. Os filósofos modernos, entre os quais está incluido Kant, mostram que não há como chegar a essência das coisas, a única saída, portanto, é dedicar-se aos conhecimento dos fenômenos — aquilo que é percebido pelos nossos sentidos. Assim será possível compreender o mundo e tornar-se um co-criador da realidade circundante.

Para criar a sua própria teoria, Kant une duas correntes de pensamento aparentemente opostas do pensamento ocidental: o empirismo do inglês Hume e o inatismo do francês Descartes. Para o autor de Critica da Razão Prática, o conteúdo do conhecimento se dá a partir das informações sensíveis aos sentidos e organizado por uma estrutura inata presente no sujeito conhecedor que organiza, analisa, cataloga e sistematiza os dados. A mente humana, portanto, não é uma tabula rasa onde as informações são armazenadas mecanicamente, e nem uma estrutura em que as idéias estariam já previamente escritas. O ato de conhecer é um processo de síntese e não de analise. Kant mostra que o sujeito conhecedor não é um ser passivo diante da realidade, mas alguém que assimila os dados e os interpreta de uma maneira singular.

Além das intuições sensíveis e das formas únicas de cada individuo em organizar o conhecimento, existe uma terceira faculdade: a razão, responsável pelas idéias. Metafísicos como Aristóteles, Platão e Tomas de Aquino erraram ao confundir os objetos da idéia e do pensamento como se fossem conteúdos do conhecimento. O simples fato de imaginar as idéias de alma e deus não são suficientes inferir que estas entidades existam para se tornarem objetos de conhecimento. Apenas a ciência possui a primazia do ato de conhecer e apenas os fenômenos sensíveis podem ser conhecidos.

Entretanto, as categorias de alma e deus, mesmo não sendo conhecidas, devem ser pressupostas, pois elas são condições básicas para a fundamentação da moralidade, requisito indispensável da convivência humana. Os homens praticam o ato moral não como uma circunstância histórica ou cultural, mas como uma força universal de caráter transcendental — para Kant, o fato de o homem ser um ser moral demonstra a existência de alma e a existência de deus.

Portanto, para o aperfeiçoamento da sociedade, a ética deve ser seguida do mesmo modo que esforço de incorporação do conhecimento cientifico, pois ambas fazem parte da estrutura da experiência humana.

Apesar de não ter escrito diretamente sobre educação, sua filosofia aborda o tema de maneira transversal em toda a sua obra. Para ele a razão de ser de toda sociedade basicamente é a construção da emancipação coletiva e individual. Para isso é necessária a busca incessante da disciplina; não a disciplina opressiva, mas uma disciplina que o possibilitasse controlar seus instintos e tornar-se um cidadão autônomo, prudente e capaz de resolver de forma pacifica as circunstancia adversas que o mundo e sua época lhe apresentam. Para que isso se concretizasse, Kant defendia a expansão do conhecimento cientifico, do ensino da arte e da estética.

As concepções do pensador alemão sobre a função da ciência e do conhecimento seguem a corrente progressista da época em que a razão instrumental, instrumento útil para a manipulação do mundo em prol da humanidade (diga-se capitalismo) tentava ganhar terreno contra os poderes constituídos na época: a igreja católica, a nobreza e a monarquia, que impediam que novas forças sociais se desenvolvessem plenamente. Nos tempos atuais estas premissas, antes revolucionárias, tornaram-se o próprio senso comum e um valor passível de criticas e revisões.

Apesar de seu esforço para o aperfeiçoamento humano, a razão instrumental foi responsável por várias conseqüências nefasta para a humanidade; contribuiu para a hiper exploração dos povos oprimidos — antes no papel de colônias e agora metamorfoseados em paises emergentes; assim como a concepção de que a natureza deveria ser manipulada e alterada em favor do homem propiciou uma devastação irresponsável e sem precedentes do tecido ambiental do planeta.

Embora passível de crítica, as lições kantianas a respeito do conhecimento e da educação, apesar de transpassadas por toda uma gama de preocupações eminentemente históricas, fornece reflexões sobre questões bastante atuais, como de onde viemos, para onde vamos, o quê e para quê devemos aprender.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s