Amaldiçoado: a Vida e a Obra de Edgar Allan Poe (Parte II)

Vós que me ledes por certo estais ainda entre os vivos; mas eu que escrevo terei partido há muito para a região das sombras. Por que de fato estranhas coisas acontecerão, e coisas secretas serão conhecidas, e muitos séculos passarão antes que estas memórias caiam sob vistas humanas. E, ao serem lidas, alguém haverá que nelas não acredite, alguém que delas duvide e, contudo, uns poucos encontrarão muito motivo de reflexão nos caracteres aqui gravados com estiletes de ferro.

Edgar Allan Poe; Sombra

De fato, como está escrito no primeiro parágrafo da historia que serve de epigrafe para este pequeno artigo, muitos anos se passaram e muitas coisas aconteceram desde que o maldito de Boston partiu para a região das sombras, em Setembro de 1849.

Mas não foram poucas as pessoas que encontraram em seus escritos motivos para reflexão; gerações e gerações de milhares de leitores vêem nele um mártir, um gênio, um verdadeiro sacerdote que encontrou na arte literária a escapatória e ao mesmo tempo a expressão adequada de toda a miséria e aniquilamento interior pelo qual passava.

Não há duvida de que as feridas pútridas que tomavam o corpo da mãe, enquanto a morte ceifava-lhe a vida, muito o impressionaram; assim como a inclinação para a bebida que recebera do pai; ou o pavor de enlouquecer, medo que tomou feições de verdadeira fobia, quando presenciava os ataques epiléticos da irmã; as condições de humilhante miséria em que viveu quase toda a sua vida; e a morte de sua esposa Virginia Clemm foram sem dúvida as grandes amarguras que moldaram a personalidade e o estilo impar de sua literatura.

Sim, estilo impar, pois foi Poe o responsável pela renovação da literatura mundial, dentro dos esquemas românticos, elevou a arte da escrita a um novo patamar, dando-lhe tons de realismo que inexistiam nas historias de seus predecessores como Anne Radcliffe, Hoffmann, Walter Scott, Byron e Shelley. A grande diferença entre o autor de Escaravelho de Ouro e seus predecessores está na inversão dos caracteres tanto da narrativa quanto dos personagens; enquanto autores antigos colocavam um individuo comum em ambientes fantasmagóricos, velhas mansões e castelos medievais de onde surgiam espectros e demônios dando gargalhadas horripilantes, Poe simplesmente colocava homens estranhos em ambientes incomuns. Enquanto os outros descreviam um mundo exterior, o autor de Ulalume descrevia medos que estavam dentro do próprio personagem; atormentadas por fobias, nervos a flor da pele, mentes inquietas tomadas por toda sorte de doenças mentais, percepções tão agudas capazes de captar os sons vindos de estranhas dimensões do universo, seres convalescentes, neuróticos, dignos de pena, dominados por toda sorte de vícios, solitários, desviados do mundo, vivendo uma vida nômade repleta de torpeza; verdadeiros Out Siders, como é possível perceber no magistral conto Willian Wilson:

A bela página que agora jaz inerte diante de mim não merece ser conspurcada pelo meu verdadeiro nome. Este já foi por demasiado tempo objeto de zombaria, motivo de horror, até mesmo abominação para toda a minha família. (…) Ah! Proscrito de todos os proscritos o mais abandonado! Pois o mundo não te considera o mais morto e enterrado para sempre?

Outro ponto em que Edgar Poe se diferencia dos autores tradicionais do seu tempo é justamente na predileção pela historia curta. Enquanto estes escritores escreviam vastos romances em que grande quantidade de cenas horripilantes chegava a esvaziar o impacto que deveriam causar no leitor, Edgar Allan resolveu, por motivos tanto estéticos quanto pela sua saúde frágil, escrever em forma de historia curta, o que dava uma sensação de força concentrada, acarretando num efeito dramático muito maior sobre o leitor. É impossível não se impressionar com a força de historias como Berenice, O Poço e o Pêndulo e Ligéia, dotados de uma intensidade angustiante que chega a causar certa ojeriza ao leitor — eu, por exemplo, durante a leitura de Ligéia, tive de parar mais de uma vez para recuperar o fôlego.

Todas essas fobias representadas pelos seus personagens eram seus próprios terrores e complexos, por isso a narrativa em primeira pessoa. Era menos o personagem contando a história que o próprio Poe. Dotado de um grande senso de observação, ele soube como descrever o desenvolvimento de seus horrores e aplicá-las na escrita, como é possível perceber em Berenice, quando o narrador personagem, Egeus, descreve a estranha catatonia que o acomete:

A excessiva, ávida e mórbida atenção assim excitada por objetos de seu natural triviais, não deve ser confundida, a propósito, com aquela propensão à meditação, comum a toda a humanidade e mais especialmente do agrado das pessoas de imaginação ardente. Nem era tampouco, como se poderia a princípio supor, um estado extremo, ou uma exageração de tal propensão, mas primária e essencialmente distinta e diferente dela. Naquele caso, o sonhador, ou entusiasta, estando interessado por um objeto, geralmente não trivial, perde, sem o perceber, de vista este objeto, através duma imensidade de deduções e sugestões deles provindas, até que, chegando ao fim daquele sonho acordado, muitas vezes repletos de voluptuosidade, descobre estar o incitamentum causa primária de suas meditações, inteiramente esvanecido e esquecido. No meu caso, o ponto de partida era invariavelmente frívolo, embora assumisse, por intermédio de minha visão doentia, uma importância irreal e refratária. Poucas ou nenhumas reflexões eram feitas e estas poucas voltavam, obstinadamente , ao objeto primitivo como a um centro. As meditações nunca eram agradáveis, e ao fim do devaneio, a causa primeira, longe de estar fora de vista atingira aquele interesse sobrenaturalmente exagerado que era a característica principal da doença. Em uma palavra: as faculdades da mente mais particularmente exercitadas em mim eram, como já disse antes, as da atenção, ao passo que no sonhador-acordado são as especulativas.

Também a ambientação de suas historias sempre apresentam-se com as tonalidades cinzentas da morbidez, do horror e da desgraça. Contudo, nunca temos certeza se a descrição apresentada pelo narrador condiz com a realidade, pois estamos diante de um personagem com as faculdades mentais completamente distorcidas pela doença. Como é o caso do primeiro parágrafo da obra prima A Queda da Casa de Usher, o melhor conto de Poe:

Durante um dia inteiro, sombrio e monótono, na estação outonal do ano, quando as nuvens pendem baixas e opressivas dos céus, eu tinha estado passeando a cavalo, através de uma parte singularmente árida da região; e finalmente encontrei-me, quando as sombras do crepúsculo já se avizinhavam, a vista da melancólica Casa de Usher. Não sei como descrever, porém, desde que pela primeira vez contemplei o edifício, uma sensação de tristeza insuportável permeou meu espírito. Digo que era insuportável o sentimento não era aliviado por qualquer dessas impressões meio agradáveis, porque estão cheias de poesia, com as quais a mente recebe até mesmo as imagens naturais mais lúgubres, desoladas e terríveis. Contemplei a cena que se desenrolava diante de mim, a casa sem enfeites e as características simples apresentadas pela paisagem da propriedade, as paredes soturnas, as janelas que se assemelham á órbitas vazias, alguns juncos e caniços que cresciam abandonados, alguns troncos embranquecidos de arvores, com a alma envolta em uma depressão tão completa que não posso comparar a nenhuma outra sensação terrestre de maneira mais adequada que a ressaca de um viciado em ópio, aquele retorno violento e amargo a vida diária, a queda pavorosa do véu que encobria a realidade.

Em outro momento, no conto O Retrato Ovalado, o narrador descreve em poucas linhas o castelo:

(…) era um desses grandes amontoados de pedra que misturam o lúgubre e o senhoril, os quais por tantos séculos dominaram sobre os Montes Apeninos, como se fossem rostos de cenho franzido (…)

Poe também escrevia sobre lugares longínquos, realidades oníricas onde horrores erguem suas azas lúgubres por todo firmamento. Como pode ser percebido nos contos Silêncio:

Escuta – disse o demônio, pousando a mão sobre a minha cabeça. – O país de que te falo é um país lúgubre, na Líbia, às margens do rio Zaire. E ali não há repouso nem silêncio. As águas do rio, amarelas e insalubres, não correm para o mar, mas palpitam sempre sob o olhar ardente do Sol, com um movimento convulsivo. De cada lado do rio, sobre as margens lodosas, estende-se ao longe um deserto sombrio de gigantescos nenúfares, que suspiram na solidão, erguendo para o céu os longos pescoços espectrais e meneando tristemente as cabeças sempiternas. E do meio deles sai um sussurro confuso, semelhante ao murmúrio de uma torrente subterrânea. E os nenúfares, voltados uns para os outros, suspiram na solidão.

No conto Sombra, a descrição horripilante de uma epidemia que se espalha pelo mundo:

O ano tinha sido um ano de terror e de sentimentos mais intensos que o terror, para os quais não existe nome na Terra. Pois muitos prodígios e sinais haviam se produzido, e por toda a parte, sobre a terra e sobre o mar, as negras asas da Peste se estendiam.

Apesar de sua obra não haver cenas de sexo, a figura da mulher é sempre uma constante em sua obra. Representada sempre como figura de grande beleza, não passa, porém, de um ser frágil, convalescendo em doenças psíquicas ou qualquer definhamento moral — o fim destas criaturas é sempre a morte.

Uma primeira leitura pode dar a impressão de que as historias de Poe são apolíticas, por aparentemente não se ocupar de temas sociais da vida americana do inicio do século XIX; com exceção de O homem da Multidão que possui uma saborosa descrição dos tipos humanos da sociedade de seu tempo, de A Máscara da Morte Rubra, que pode ser lido como uma critica a elite da sociedade que se isola em castelos sem se importar com a miséria do povo a sua volta (não são os condomínios fechados do nosso tempo?) e o Diabo do Campanário, que o antropólogo Roberto Damatta interpretou como uma metáfora sobre o impacto que a modernização causa sobre as comunidades tradicionais. È possível, entrementes, detectar uma predileção pelos estratos mais altos da sociedade quando descreve seus personagens, quase todos vêm de famílias nobres, como seu autor, visionários da mais aguda inteligência:

Meu nome de batismo é Egeu. O de minha família não revelarei. Contudo não há torres no país mais honradas do que as salas cinzentas e melancólicas do solar de meus avós. Nossa estirpe tem sido chamada de uma raça de visionários. Em muitos pormenores notáveis, do caráter da mansão familiar, nas pinturas do salão principal, nas tapeçarias dos dormitórios, nas cinzeladuras de algumas colunas de armas, porém, mais especialmente, na galeria de quadros no estilo da biblioteca e, por fim, na natureza muito peculiar dos livros que ela continha, há mais que suficiente prova a justificar aquela denominação.

Num exame mais cuidadoso sobre os artigos que Poe publicava no jornal, é possível perceber que suas idéias estavam muito distantes das de um democrata. Considerava a vida cultural de seu país extremamente atrasada justamente por inexistir uma aristocracia forte o suficiente para mostrar aos outros estratos da sociedade a noção verdadeira de belo — foi lendo Edgar Allan que Baudelaire se distanciou do socialismo.

Mas Poe não dedicou-se apenas no gênero terror. Tinha grande facilidade para cálculos e usou sua genialidade para escrever contos detetivescos, entre os quais destacam-se O Escaravelho de Ouro, A Carta Roubada e Crimes da Rua Morgue, nos quais lança mão de charadas e criptogramas. Pessoalmente não gosto muito dos seus contos detetivescos, mas não se pode negar sua genialidade na elaboração de problemas matemáticos, e por ter sido o responsável pela criação no gênero policial moderno.

Em toda a sua vida fez uma única historia longa, A Narrativa de Arthur Gordon Pynn, uma narração sobre um motim num navio mercante e sobre uma viagem ao pólo norte. Ela pode ser encarada como um resumo de seu mundo literário, onde nele estão presentes os principais traços de seu estilo: desde uma atmosfera sufocante e intolerável, até esquemas matemáticos de cartografia.

Reconhecido apenas no final da sua curta vida, a influência de Edgar Allan Poe para a literatura, porém, foi vastíssima, desde o já citado Baudelaire, passando por Rimbaud, Stephen King, Lovecraft, H. G. Wells, Julio Verne e Kafka. Mesmo os escritores da escola realista espelharam-se em alguns de seus temas — Maupassant usou muito da atmosfera onírica e caótica do autor de O Gato Preto para escrever o seu incrível conto de suspense O Horla.

No Brasil teve como grandes discípulos Machado de Assis, que traduziu o seu O Corvo, e o poeta Augusto dos Anjos, que se inspirou no clima pesado e malfazejo para escrever sua poesia.

Passados 160 anos da morte do grande escritor, suas historias ainda despertam calafrios ou êxtase em milhares de leitores contemporâneos, seus contos continuam sendo editados e reeditados em tantas coleções e formatos quanto se pode imaginar.

Edgar Allan Poe, maldito pela vida que teve, bendito pelo legado literário deixado ao mundo.

Anúncios

2 comentários sobre “Amaldiçoado: a Vida e a Obra de Edgar Allan Poe (Parte II)

  1. Alessandro

    Olá,

    quero parabenizar pelo breve e preciso texto sobre o Edgar Allan Poe.A única ressalva,se me permitir,é sobre a questão do autor te sido o responsável pela criação do gênero policial moderno.Essa é a opinião de grande parte dos críticos literários,mas,recentemente,li uma dissertação de mestrado que comenta dois críticos franceses que acreditam que Poe foi um dos resonsáveis por reinventar o gênero.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s