Amaldiçoado: A Vida e a Obra de Edgar Allan Poe (Parte I)

Dir-se-ia que a Natureza, e creio que isso já foi muitas vezes observado, torna a vida bastante dura àqueles de quem deseja extrair grandes coisas.

Charles Baudelaire

Tal assertiva do autor de Flores do Mal se encaixa perfeitamente na vida deste ilustre maldito da literatura mundial, o norte americano Edgar Allan Poe, autor do clássico poema O Corvo.

Na primeira metade do século XIX, época em que viveu Edgar Allan Poe, nos Estados Unidos, mesmo depois de décadas de sua independência, ainda estava lutando para se firmar como nação. O país recebia uma quantidade enorme de imigrantes europeus e asiáticos gerando uma grande variedade social e cultural. A conquista do oeste estava a todo vapor, efetuada pelos imigrantes que, sem oportunidades no leste, punham-se na conquista de novos territórios em carroças cavalos ou por via fluvial, expulsavam ou dizimavam as populações indígenas. As novas terras eram usadas para agricultura, pastagens e na procura de metais preciosos. As contradições sociais geradas pelo desenvolvimento do norte e do leste frente ao sul escravocrata fariam em breve o país entrar em guerra civil (1861-1865).

No plano literário, os Estados Unidos ainda não tinham se solidificado. Muito da produção cultural norte americana ainda seguia os modelos europeus, em especial o inglês. O que levaria ao escritor britânico Sydney Smith a dizer, em 1820, que a América, quarenta anos depois da independência, ainda não tinham dado nenhuma contribuição relevante para a arte ou para a ciência.

É neste contexto conturbado e de luta pela solidificação cultural e social que Edgar Allan Poe está inserido. Um dos principais fundadores da literatura americana e renovador das letras mundiais, sua obra pode também ser lida, tanto como a expressão de suas fobias e sofrimentos que teve em vida, como uma metáfora da conturbada sociedade em que viveu.     

Sua vida foi amarga, repleta de decepções e perdas. Nasceu em Boston em 1809 e faleceu em 1849, quando já tinha atingido plena maturidade literária. Perdera os pais ainda na infância, dois atores fracassados, vitimados pela tuberculose — o irmão também era tuberculoso, e a irmã, epilética.

Depois da morte dos pais foi adotado por um casal aristocrata de Richmond, chamados David e Elizabeth Allan. Entre os anos de 1815 e 1820, a família mudo-se para Inglaterra onde o pequeno Edgar estudou em instituições particulares de renome como Stoke Newington, em Londres, recebendo uma esmerada educação. Quando retornou a América, entrou na Universidade de Virginia, a mais aristocrática universidade do sul dos Estados Unidos, fundada por Thomas Jefferson.

Contudo, o clima burguês da instituição em muito desgostava o jovem Edgar. Os alunos seguiam hábitos extremamente austeros e puritanos. Exatamente o contrario da personalidade inquietante do poeta. Avesso a rotinas, detestando todo e qualquer convencionalismo da vida cotidiana, Poe entregava-se aos excessos de uma vida boêmia; bebia, blasfemava contra a religião e contra os valores morais mais caros aos burgueses da Universidade. A fama de devasso logo espalhou-se, chegando aos ouvidos das famílias dos alunos, o que acarretou inevitavelmente na sua expulsão. A noticia caiu como uma bomba na mansão dos Allan, deteriorando ainda mais a relação entre David e Edgar, que já vinham se desentendendo em virtude do vicio de jogo do futuro escritor.

Depois de passar um tempo servindo ao exercito, sob o nome de Edgar Allan Perry, ingressou na academia militar por influência de seu pai, mas acabou expulso por insubordinação.

Com este acontecimento Edgar e David nunca mais se falaram.

Sem qualquer perspectiva em Richmond, Poe vai para a sua cidade natal, Boston, na Nova Inglaterra. Onde passou a morar com sua Tia, a Senhorita Clemm e sua filha, Virginia Clemm, que em pouco tempo seria a esposa de Poe e grande amor de sua vida.

Para sobreviver colaborava em inúmeras revistas, onde publicou seus mais famosos contos, dava palestras e chegou a ser editor da Burton´s Gentleman Magazine e, mais tarde tornou-se sub-editor da Evening Mirror — mesmo assim a vida não era fácil para os escritores da época, e passou toda a sua vida adulta amargando uma vida miserável.

Com Virginia, foi morar numa pequena e destruída casa, onde o casal passava dias inteiros sem comer. Foi ali que sua amada esposa morreu tuberculosa, numa cama fétida sendo coberta apenas por um velho capote militar de West Point.

A morte da mulher em muito o afetou, e Poe, que já tinha problemas com álcool, começou a beber ainda mais. Alguns amigos, como Jonh Sartain, notou no escritor já alguns sintomas de desequilíbrio mental.

Túmulo de Edgar Allan Poe

Em setembro de 1849, encontraram-no desfalecido numa sarjeta de Baltimore, levado para o hospital, faleceu alguns dias depois balbuciando frases desconexas, entre as quais: “It´s All Over now, write Eddy is no more…”         

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