Metallica: do Suicídio á Redenção

Depois de ter passado por uma das piores fases da sua carreira, o quarteto mais famoso da Bay Àrea consegue, como poucas bandas, fazer o tortuoso caminho da superação com o arrebatador Death Magnetic, já considerado um clássico do Heavy Metal contemporâneo.

O fracasso de St. Anger (2003) tornou evidente que, se o quarteto quisesse mesmo voltar aos tempos áureos, deveria deixar de seguir as modas e tendências passageiras do rock e voltar-se para a tradição — a rica e revolucionária tradição do Heavy Metal dos anos oitenta, da qual o grupo faz parte e ajudara a moldar.

Então, em abril de 2007, o vocalista e guitarrista James Hetfield, o baterista Lars Ulrich, o segundo guitarrista Kirk Hammett e o baixista Robert Trujillo, viajam para Sound City Studios em Malibu, Califórnia, e trabalham duro até maio de 2008.

Os músicos foram buscar inspiração num dos seus mais técnicos e reconhecidos trabalhos, o And Justice for All, de 1988, que era uma critica avassaladora à justiça e ao sonho americano.

Deste modo, o novo trabalho possui uma estrutura bastante similar a do seu primo mais velho.

Death Magnetic é um disco rápido, extremamente pesado e técnico. Contudo, deve-se deixar claro que esse virtuosismo não o deixa opaco ou frio, como por vezes era o Justice For All, muito pelo contrário, é um trabalho de verdadeiros artesãos da música, de artistas peritos na composição pesada; sente-se a espontaneidade no desenrolar das melodias, como também uma sinceridade que há décadas não se via numa banda de rock. O resultado são dez faixas criadas a partir dos paradigmas do Metal nos anos oitenta, que empolgam e nos fazem pensar: o metal não morreu.

O ouvinte é seduzido pelos elaborados e destruidores arranjos de guitarras da dupla James Hetfield e kirk Hammett, que estão mais entrosados do que nunca; este, felizmente, voltou a fazer solos realmente dignos de serem ouvidos; Robert Trujillo, que no disco anterior estava totalmente deslocado e não tinha sequer participado de nenhuma seção da gravação de St. Anger, agora demonstra, no decorrer das faixas, um grande domínio do instrumento, com linhas coesas e precisas e nos apresenta o porquê de ter sido anteriormente escolhido como o baixista da banda de Ozzy Osbourne; Lars Ulrich, por sua vez, volta a tocar sua bateria com a vitalidade de outrora, e mesmo que nunca tenha sido um virtuoso no instrumento e atualmente perto de completar meio século de vida, sua performance supera a de muitos bateristas de vinte e poucos anos.

Esqueça aquelas bandas que falavam sobre demônios, monstros, ocultismo e outras bizarrices que emergem de castelos medievais, catacumbas esquecidas e outros clichês que só assustam alguns adolescentes ingênuos. O metallica explora temas cotidianos, como as distorções da nossa sociedade e a exploração do mundo capitalista. Os monstros e os demônios estão muito mais perto de nós. Existe algo mais assustador do que isso?

Um fato importante é a descentralização das composições, antes monopolizadas praticamente nas mãos da dupla Hetfield e Ulrich. Agora todo o quarteto participa igualmente na elaboração das músicas. Numa entrevista eles afirmaram que Trujillo já tinha contribuído em apenas um disco muito mais que Jason Newsted em mais de dez anos. Incompetência do antigo membro? Longe disso. Andréas Kisser, guitarrista do Sepultura e amigo pessoal de Newsted, em entrevista a Metalhead, afirmara que Jason fazia muitas músicas, contudo os chefes não as aproveitavam — se assim o fizessem, talvez os autores de Kill´m All não tivessem amargado uma fase tão ruim com discos medíocres e apagados…

Entre as faixas de destaque podemos citar That Was Just Your Life, que abre o disco com uma entrada bastante sombria, que vai ganhando aos poucos intensidade até descarrar numa poderosa avalanche sonora.

Suicide & Redemption, a penúltima, é uma típica musica instrumental de Heavy Metal, longa, cerca de dez minutos, com um tema principal e variações que lhe vão sendo acrescidas, logo ganha uma atmosfera amena, que vai cedendo lugar aos poucos para arranjos extremamente agressivos e um retorno inteligente ao tema principal; não é uma peça de grandes inovações técnicas, mas sua competência na execução e a habilidade dos compositores em encaixar-lhe as partes num todo perfeito, fazem-na da faixa mais bem construída do novo trabalho.

The Day That Never Comes conta a história de um soldado americano no Iraque; possui a constituição muito similar a da já clássica One, tanto na parte lírica, ao contar os horrores da guerra, quando na musical, dividida em duas partes, a primeira mais lenta, e uma segunda incorporando arranjos mais furiosos, além das guitarras dobradas nos lugares certos — além disso, o solo de Hammett é muito similar á sua versão para as músicas do Mercyfull Fate no disco Garage Inc.

Outras faixas que com certeza ficarão para a posteridade são Cyanide, The Judas Kiss e My Apocalypse, que fecha o disco — a mais pesada, com uma linha vocal bem semelhante á de Tom Arraya, do Slayer.

Mas o novo trabalho possui suas falhas, e está exatamente na pretensiosa The Unforgiven III, uma canção medíocre e notadamente comercial. Fazer a terceira versão de uma música soa como uma verdadeira picaretagem. Uma peça fraca, enfim, que nada acrescenta ao conjunto geral do disco, apenas quebra com a seqüência de acertos de Death Magnetic.

Voltar a beber na tradição, contudo, não significa uma transposição da mesma, mas a reinvenção dela a partir da situação histórica atual, por isso que Death Magnetic, mesmo inspirado no espírito clássico do Heavy Metal, está carregado de elementos modernos. Talvez algum headbanger fundamentalista considere isso uma heresia, entretanto, trata-se da constatação da injeção de vitalidade que o estilo está tomando — em oposição á fase de estagnação que o estilo sofrera nos anos noventa.

Ouvir Death Magnetic é uma experiência válida e agradável, uma prova de que o Heavy Metal não havia falecido, como proclamaram alguns apressados, mas ele desperta de seu sono de quase uma década, rejuvenescido e contestador — exatamente como deve ser a verdadeira arte.

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Um comentário sobre “Metallica: do Suicídio á Redenção

  1. Cara ! eu sabia ! tinha que ser metal !

    A muito tempo deixei de ser um “metalhead xiita”,mas o metal corre nas veias de quem um dia ja bangueou ao som de tantas bandas como metallica… desde Load que nao acompanho mais os “traidores do movimento” rss, agora quem sabe,

    enfim, e bom saber que o metal nao morreu e melhor ainda saber que e possivel beber nas tradicoes e reconhecer o seu valor sem ter que necessariamente estar preso a elas !

    Stay Heavy !

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