Cena Num Engarrafamento

Quando se está indo para a faculdade, imerso naqueles ônibus caindo aos pedaços, atolados de gente, com aquele calor desesperador, sob o tédio e o peso destruidor da rotina, é quase impossível notar algo interessante que possa valer uma crônica, um conto ou um registro que seja; todos estão sisudos, estressados, todos loucos para que o dia, mal começando, acabe — a coisa fica ainda pior quando nosso meio de transporte fica preso vários minutos num engarrafamento…

Mas foi exatamente numa manhã medíocre destas que notei algo que me estarreceu…

Era por volta de nove horas e trinta minutos. Eu estava sempre atrasado, sempre com sono… O coletivo, que por sorte estava quase sem ninguém, parou exatamente sob o viaduto da Recife; na época, o famigerado viaduto ainda estava em obras, portanto, o tempo de espera naquele cruzamento debaixo de um sol maldito era um dificílimos teste de paciência.

Como estava sentado num banco de janela, percebi que, num celta logo ao lado de onde me sentara, o motorista tentava violentar a moça que estava no banco do passageiro… A garota devia ter pelo menos quinze anos e o homem, lá pelos trinta, urgia em beijar a força a pobre rapariga.

Ela tentava a todo custo desvencilhar-se das investidas do seu algoz, erguendo os braços para proteger o rosto, mas o homem era insistente, muito insistente… Tive a impressão, pois não podia ver bem o rosto do agressor, que ele dizia coisas obscenas, com um riso sarcástico entre os lábios.

Quando o sinal abriu, ele parou por um momento, deixando a garota imersa em prantos, inclinada para frente, as mãos na face e os cotovelos apoiados no porta luvas e os cabelos assanhados.

Eu apenas observava, não sei se estupefato ou horrorizado, mas realmente detestei que ali não houvesse um único policial nem um guarda de trânsito…

Quando a fila parou novamente, pois naquela época ela ia com mais lentidão que uma tartaruga, o condutor tentou mais uma vez abusar da jovem, desta vez ele forçava passar as mãos pelas coxas dela e pelos seus os seios, e a garota, mais uma vez, angustiada, com lágrimas no rosto, desviou-se desesperadamente do violentador.

O sinal abriu e a fila desmanchou-se, assim como aquela hedionda visão que presenciei…

Hoje, fico imaginando como deveria ser a vida daquela adolescente e o que acontecera para ela ir parar exatamente ali. Entretanto, apesar de ela não saber, havia apenas uma testemunha, completamente impotente, do seu suplício…

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