Vingança contra o sistema

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O filme “V vingança”, baseado na historia em quadrinhos de mesmo nome, é uma dessas películas rebeldes e contestadoras que fazem frente a industria do cinema “enlatado” ou industrial. Por isso mesmo “V vingança” já encontra um lugar cativo entre os “filmes malditos” da história do cinema; os filmes rebeldes, transgressores, aqueles que nos fazem pensar se tudo o que vivemos não é uma torpe mentira, se não estamos sendo manipulados pelas grandes corporações econômicas e por governos tiranos e corruptos. Mas é isso mesmo que essa produção critica, uma condenação impiedosa às ditaduras, às sociedades pós-modernas, a forma antiética de praticar ciência e à concepção conservadora de que nós não somos sujeitos da historia, de que precisamos de alguém para nos proteger e governar.

Inicialmente era um romance ilustrado dos anos oitenta, feito para críticar o governo de Margareth Thacher, a Dama de Ferro. Mas como a filmagem fora realizada nos dias de hoje, o governante em questão se torna o Sr. Bush, um presidente com uma face teocrática e autoritária, justamente o que é mais criticado no longa-metragem.

A primeira cena de inicia-se com uma retrospecção da “Conspiração da Pólvora” do século XVIII, um homem havia tentado, em vão, explodir o parlamento inglês com vários quilos de dinamite, quando descoberto, sua sorte foi a mesma daqueles que atentam contra a dita “moral” e a pretensa “ordem” nos estados supostamente “democráticos”: foi condenado a morte. Em seguida a narradora faz uma deliciosa reflexão sobre o materialismo dialético de Marx com a dialética idealista de Hegel: as idéias não sentam dor, não amam, não choram, mas muita gente já morreu por elas. Logo há um salto no tempo até os dias atuais; o governo da Inglaterra, que havia se tornado em uma ditadura, desponta como a grande potência mundial. O despotismo inglês lança mão de uma poderosa propaganda ideológica, com aval dos grandes grupos de comunicação beneficiados pelo sistema, no qual funde-se religião e política, sendo que aquela acaba ratificando esta. Um fato muito semelhante ocorreu e ocorre nos Estados Unidos, a suposta “terra da liberdade”. O presidente Bush, a fim de justificar a invasão do Iraque, não só usou de artifícios de cunho geo político, a “ameaça terrorista” à democracia e a liberdade, como também havia prerrogativas religiosas em tal invasão, a cena em que um general do exército americano surge na TV e afirma que a guerra é contra Satã e em prol do cristianismo.

A produção demonstra como pode ser daninho à sociedade quando se extingue o direito a liberdade de expressão. O governo tornar-se arbitrário, o poder tornar-se um fim em si mesmo, as ditaduras carecem de sentido; uma sociedade onde as informações passam pelo rigoroso crivo da censura perde a capacidade autocrítica de diagnosticar seus problemas, quando uma escola se proíbe de exercer o senso critico, essencial para uma educação para a cidadania, as pessoas se tornam alheias aos problemas sociais, são fáceis de controlar, transformam-se em “rebanho de cordeirinhos” para os grandes, contentam-se com qualquer paliativo capaz de entorpecer suas mentes.

A sociedade Inglesa satisfazia-se exatamente com este estado de coisas, não ligavam para as medidas totalitárias do chanceler, coincidência ou não, deleitavam-se com programas de variedades fúteis e em viver suas vidas totalmente sem sentido, desde que não fossem incomodadas.

Triste fruto da modernidade este excesso de individualização, as pessoas tornam-se tão voltadas para si mesmas que não percebem a dor, as tristezas, o sofrimento do outro, tão imersas em suas necessidades mesquinhas de subir na vida a qualquer custo ou de resolver as suas picuinhas perdendo a sensibilidade com o que está á sua volta; o excesso de individualização transforma as pessoas em reféns de si mesmas…

O senso comum tira a ciência de seu contexto e afirma que ela está sempre a favor da humanidade, um equívoco. Em “V vingança” o governo faz testes ilegais e detestáveis em cobaias humanas com a fim de se desenvolver uma nova arma biológica, o próprio “V” fora um das cobaias; quando uma pessoa morria, não era problema, pois no complexo de testes o homem era destituído de seu caráter humano, para em seguida ser uma simples coisa que deve ser aproveitada para os fins científicos e, no final, descartada. Com essa passagem do filme enfoca a questão da falta de neutralidade da ciência, pois está sempre inserida em um contexto, e nem sempre é aplicada em prol da sociedade.

O herói “V” revolta-se contra a tirania e contra os terríveis testes a que fora submetido. Seu objetivo principal é a “revolução”, a destruição do parlamento, símbolo do despotismo, a o despertar da consciência critica dos ingleses. Como todo rebelde em um estado altamente coercitivo, “V” é taxado de terrorista e toda sorte de adjetivos para despertar a rejeição sociedade. Sua meta é fazer os cidadãos perceberem que são os agentes da história, portanto não precisavam de uma ditadura quando eles mesmos tinham a possibilidade de criar um governo popular e governar seus próprios rumos de suas vidas.

Mikhail Bakunin, em seu ótimo “Deus e o Estado”, afirma ser o homem possuidor de vários estágios de desenvolvimento humano: animalidade, pensamento e revolta. O terceiro estágio seria o mais avançado, pois concernia à liberdade; este último nível com o qual “V” lutava para os cidadãos ingleses alcançarem.

Um filme de conteúdo tão contestador não poderia passar imune pelas “lanças” dos conservadores. Veículos de comunicação mais reacionários criticaram o filme, como por exemplo o revista Veja que, por meio da jornalista de cinema Isabela Boscov, atacou fortemente o longa metragem e, em tom de ironia, nomeou-o com o titulo “B de besteira”, afirmando ser a produção defensora de terroristas. A matéria afirma ainda que as conquistas democráticas se devem unicamente ao triunfo do capitalismo, para a revista o fato de o diretor criar um file condenando o capital se deve à estrutura democrática do próprio sistema..

Mas uma produção tão rebelde não poderia deixar de ter seus méritos, e estes estão justamente na provocação que ele nos faz sobre a realidade: “Isto tudo realmente deveria ser assim?”, “Não poderemos mudar o sistema para algo mais justo e humano?” ou “Como mudar?”. São estas as perguntas que o herói “V” nos faz, ele deseja que questionemos a realidade social de nossa comunidade, de nosso país, de nosso mundo, ele anseia que nós entremos em revolta contra esta democracia disfarçada em tirania e criemos um novo governo que atenda os anseios do povo e não das grandes corporações multinacionais.

Agora fica uma pergunta: “Como criar este novo sistema?” Bravo.

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Um comentário sobre “Vingança contra o sistema

  1. Interessante, V de vingança foi um dos melhores fileme que assisti, a unica coisa de que nao gostei no filme e na historia é justamente o apego ao passado, as coisas antigas e as tradiçoes, sao justamente estas coisas que eu questiono

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