Narrar e descrever: duas vocações.

È através da práxis, apenas, que os homens adquirem interesse uns para com os outros e se tornam dignos de ser tomados como objeto de representação literária.

Georg Lukács.

O fazer literário ocidental, a partir de meados do século XIX, inicia uma modificação de suas estruturas de estéticas. A narrativa épica, tão cheia de acontecimentos e dramas humanos, cede lugar a uma arte cada vez mais estática e descritiva; a dinâmica do enredo e sua originalidade perde espaço para a observação desapaixonada de quadros que mais parecem uma natureza morta.

Em seu Ensaios Sobre Literatura, Lukács, ao analisar esta modificação da literatura ocidental, usa alguns exemplos concretos para comprovar tese: Balzac, Stendhal e Tolstoi, três escritores que viveram numa época em que a sociedade burguesa consolidava-se, um momento em que as várias convulsões sociais davam o golpe de misericórdia nas antigas estruturas feudais; todos estes homens participaram ativamente desse processo, e se tornaram escritores a partir da experiência multifacetada dessas transformações.

Contudo, escritores como Gustave Flaubert e seu discípulo Êmile Zola, artistas de uma geração posterior, nascidos numa sociedade onde as relações capitalistas de produção já estavam praticamente consolidadas, não participaram ativamente dessa sociedade. Flaubert, um homem de posses, herdeiro de considerável fortuna; Zola, órfão, filho de imigrantes, impelido pela necessidade material, “já é um escritor profissional no sentido da divisão social do trabalho.” Como disse Lukács. Ambos, ao contrario dos seus predecessores, recusaram-se a participar da nova sociedade, abominavam-na, preferiram refugiar-se na solidão do gabinete, tendo a pena e a dicotomia da folha em branco como únicos companheiros e retrataram a todo o farisaísmo da vida burguesa, seja com um arguto senso de observação do criador de Madame Bovary, seja com a obsessão monográfica do autor de O germinal.

Essa escolha em ser apenas um frio observador da sociedade, descrevendo-a em quadros mais ou menos estáticos, não se dá apenas como uma motivação estética ou subjetiva do artista, há imperativos sociais. No século XIX as relações na sociedade tornaram-se mais complexas, a esfera do trabalho, em virtude da revolução industrial, passou por uma especialização crescente, o homem moderno já começava a tornar-se um “bárbaro altamente treinado” para usar as palavras de Geertz, e o capital já ultrapassava todas as barreiras culturais e se estabelecia por todo o globo. Estas modificações, em termos de literatura, significavam que não era mais possível individualizar um personagem simplesmente a partir da ação, “pelo modo segundo o qual os personagens reagiam ativamente aos acontecimentos.” Era agora preciso descrever em minúcias, deter-se nas “lamas das botas de Napoleão” abandonar a práxis como ligação com a vida interior, transformar a literatura numa espécie apresentação de cenas descritas minuciosamente e sem qualquer ligação mais profunda, o heroísmo de homens excepcionais é jogado fora e, em seu lugar: o prosaísmo e o vazio da vida.

Entretanto, nos últimos tempos, até a arte de descrever tem sido abandonada. Os escritores do novo século, verdadeiros “sensualistas sem coração”, brindam o público com romances policiais ocos de conteúdo, ou com historias medíocres de auto-ajuda: Códigos da Vinci, Alquimistas e congêneres pululam entre os mais vendidos. Não se escreve pelo compromisso com a palavra, simplifica-se ao máximo a linguagem para que um punhado de analfabetos funcionais possam lê-lo no menor tempo possível antes de ser completamente esquecido e, se for transformado em filme, tanto melhor, gerará mais divisas.

Diante da crescente mercantilização da arte, assim como de todas as esferas da vida, como fica o compromisso com a verdadeira literatura? Mas isso é assunto para outro artigo.

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