Karl Marx e a Revista Veja.

No artigo anterior, Um espectro ronda o mundo, abordei a volta das teorias de Marx ao centro do debate intelectual e como seus conceitos nunca perderam a vitalidade. Agora, o caso é tecer alguns comentários sobre o que a imprensa conservadora acha desse retorno, em especial uma das latifundiárias da mídia brasileira, a conhecida Revista VEJA.

O semanário de Roberto Civita, arquétipo do jornalismo neocon da imprensa nacional, também resolveu fazer mais uma de suas “profundas analises” sobre o fórum de Davos e sobre a presença, mesmo que discreta, do materialismo histórico nas discussões…

Era mais um dessas corriqueiras matérias disfarçadas de panfletos tão comuns da revista (estranhamente, ela nem sequer foi assinada), publicada na edição do dia 4 de fevereiro, intitulada O Fórum Social de Davos.

A ira de Veja contra o autor de O Capital não é novidade, assim como seu total desconhecimento em lidar com os conceitos marxianos. Contudo, o que mais surpreendeu, foi a visão completamente ingênua da dinâmica da crise — algo impensável para uma revista considerada a terceira maior do mundo. A revista afirmava categoricamente que o problema não estava na configuração do sistema enquanto tal, mas simplesmente na decisão de alguns “incapazes” em gerir a economia.

Tomando uma perspectiva totalmente anti-histórica sobre o processo econômico-social, Veja esvazia o debate e mascara as reais distorções inerentes ao sistema capitalista; ao advogar a visão de que o capitalismo é apenas feito de indivíduos e de suas ações isoladas, ela esquece que estes mesmos indivíduos tecem relações entre si por meio do trabalho, criando e sofrendo conseqüências imprevistas no tecido social… Já dizia o bom Durkheim: as consciências particulares, unindo-se, agindo e reagindo uma sobre as outras, fundindo-se, dão origem a uma realidade nova que é a consciência da sociedade.

A revista, ainda por cima, sempre com aquele tom descabido, como se ela estivesse falando de meninos do maternal que de repente fazem uma travessura, criou uma cartilha para os dirigentes perguntarem-se a sim mesmos durante as discussões:

“O que EU fiz de errado que ajudou a nos colocar nessa encrenca.” Antes de voltar para casa, seria uma boa idéia cobrar deles um depoimento de despedida com o tema: “O que EU farei para que a crise seja menos cruel de que se anuncia e não mais se repita.” Como o eu sumiu de Davos, a visão sistêmica e coletivista do determinismo histórico marxista se instalou, mesmo que pouca gente tenha dado conta disso.

A matéria não poderia ter sido mais bizarra…

Considerar o processo histórico como algo natural, principalmente a constituição mais recente da sociedade como o estágio mais avançado e inevitável, é uma concepção típica dos segmentos sociais que dela se beneficiam, como já constatara Thoreau: O homem rico (…) é um ser vendido á instituição que o enriquece. Entretanto, é realmente grotesco um semanário se imbuir de uma certeza postiça e proclamar a invalidez de um pensador que, dentro das limitações teóricas do século XIX, conseguiu fazer uma das maiores analises do sistema capitalista.

Algum filósofo foi consultado? Algum economista? Algum sociólogo? Nenhuma menção, nenhuma referência… Apenas conjecturas vãs… Apenas o velho estilo venenoso e acusador…

Não é a toa que a “Qualidade Veja de fazer Jornalismo” é campeã de processos judiciais e amargou no ano passado a maior queda do número de assinantes entre as revistas semanais.

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