Graciliano Ramos: O cronista de uma época

Graciliano Ramos está entre os três maiores escritores brasileiros de todos os tempos, ao lado de Guimarães Rosa e Machado de Assis. Sua prosa é um reflexo da condição miserável do nordeste, áspera, dura, seca e impiedosa.

No momento de seu reconhecimento como escritor, Graciliano foi, e com razão, comparado á Machado de Assis, muito embora o autor de Angústia nunca tenha lido o Bruxo do Cosme Velho. Mas as semelhanças entre um e outro se dão não por questão de influência, mas de opiniões com relação á sociedade. Em ambos se percebe o pessimismo frente ás instituições, a hipocrisia dos indivíduos e seu egoísmo disfarçado. Entretanto, em Machado está tudo impresso com humor e ironia, ao passo que em Graciliano está o mais profundo desprezo e ódio, pintado num realismo agressivo e sem concessões.

Se em Caetés o autor ainda estava preso a moldes alheios, como por exemplo Eça de Queiros, sua maior influência, em São Bernardo já se mostra um escritor maduro, dono de uma prosa precisa e elegante. Aliás, esta novela é uma parábola das transformações que o capitalismo implantou em nosso país e no mundo; o personagem principal, Paulo Honório é um homem que encarna exatamente os valores da modernidade. Inescrupuloso e tomado por uma ambição desmedida de enriquecer, leva a cabo o seu plano com as mais odiosas estratégias. Honório transforma o seu mundo, moderniza a fazenda São Bernardo, mas é tragado pela própria fúria, ao ver-se em trágicas dificuldades financeiras causadas por uma revolução operária; termina abandonado pelos amigos e pela esposa, que se mata por não suportar-lhe a brutalidade.

Como afirmou Àlvaro Lins em 1941: “existem homens que explicam suas obras, como há obras que explicam os seus autores.” Este era o caso de Graciliano, um homem tímido, introspectivo, discreto. O brilho do autor só revela-se aos poucos, com a leitura de algum de seus livros; Sua prosa era, na verdade, um reflexo de seu temperamento. Constituída de profundas analises psicológicas, concentrou suas histórias na vivência interior das personagens, onde o ambiente movimenta-se simplesmente em função destes. Não sabemos se determinado cenário ocorre com exatidão, pois ele é sempre retratado a partir da perspectiva de quem vive a história. Os fatos não são a ênfase em sua obra, mas o homem interior, o homem psicológico, o que compensa esta falta de dinamismo no enredo.

Graciliano não pertence á linhagem de escritores como Edgar Allan Poe, para quem os estados de loucura e devaneio são preponderantes, mas sua descendência vem de autores realistas como Flaubert; como eles o alagoano é um frio experimentador, um analista de uma realidade estática; nas palavras de Lins: Graciliano é um historiador da consciência.

Simpatizante do marxismo, pagou caro por suas convicções políticas. Foi enviado para prisão pela ditadura de Getúlio Vargas, o que lhe proporcionou material para produção de Memórias do Cárcere, onde pulsa todo a seu gênio. Graciliano enxergou todo o absurdo e sordidez que uma ditadura poderia causar na sociedade. O Estado Novo era para o escritor nada mais que um Fascismo Tupiniquim a serviço da elite nacional e estrangeira. Memórias do Cárcere é, acima de tudo, o relato de uma época sombria e vergonhosa do Brasil, só um homem com o espectro moral de Graciliano poderia criar um depoimento como este com tamanha honestidade e realismo.

Dizem que o mestre alagoano captou no romance regionalista sentimentos do homem universal. Mas o que é o homem universal? O homem, onde quer que esteja, sempre vai estar em consonância com o contexto histórico-cultural de sua sociedade. Valores como o amor, ternura ou piedade, estão permeados destas determinantes históricas. Falar em universalismo neste ou naquele autor é um tanto pedante, pois toda obra de arte possui um traço universal: trata das aspirações humanas.

Arrisco a dizer, com as devidas liberdades de interpretação que, se Machado de Assis criou a prosa realista brasileira, G. Ramos modernizou-a, ao promovê-la aos patamares do século XX. Em 1954 Nelson Werneck Sodré escreveu: “No dia em que alcançassem a difusão em outras línguas, constituiriam leitura generalizada e universal, levando aos demais povos as imagens do nosso povo, de quem foi nosso autêntico representante e pintor fiel.” De fato, Sodré acertou em sua previsão, o autor de Angústia tem hoje um prestígio mundial, sendo que sua obra mais famosa, Vidas Secas, já foi traduzida para o russo, italiano, francês, húngaro, alemão, entre tantas outras línguas.

Graciliano Ramos foi, na verdade, o cronista de uma época

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Um comentário sobre “Graciliano Ramos: O cronista de uma época

  1. Alex Oliveira da Silva

    Realmente, Graciliano Ramos merece um destaque em nossa literatura por ter em suas obras uma realidade verossímil. Assim como nosso mestre Machado, ele explorou a sua realidade e a expôs sob uma ótica íntima, dando-nos uma visão geral de seu conflito interior em contrapartida com a realidade.

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