Rui Barbosa: Política e politicalha

Rui Barbosa-Política e politicalhaA política afina o espírito humano, educa os povos, desenvolve nos indivíduos a atividade, a coragem, a nobreza, a previsão, a energia, cria, apura, eleva o merecimento.

Não é esse jogo da intriga, da inveja e da incapacidade, entre nós se deu a alcunha de politicagem. Esta palavra não traduz ainda todo o desprezo do objeto significado. Não há dúvida de que rima bem com criadagem e parolagem, afilhadagem e ladroagem. Mas não tem o mesmo vigor de expressão que os seus consoantes. Quem lhe dará o batismo adequado? Politiquice? Politiquismo? Politicaria? Politicalha? Neste último, sim, o sufixo pejorativo queima como ferrete, e desperta ao ouvido uma consonância elucidativa.

Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente.A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis.

A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais. Constitui a política uma função, ou um conjunto de funções do organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação consciente e senhora de si. A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada

Porque Me Tornei Agnóstico

150px-Agnostic_Question_Mark.svgFoi aos dezoito anos que abandonei a religião de meus pais e a tradição da minha família. Cheguei a conclusão de que, devido à grande complexidade do mundo, à variedade das suas culturas e sociedades, e à grandeza insondável do universo, o deus que nós imaginávamos era apenas uma explicação grosseira para responder a perguntas muito difíceis.

De onde viemos? Para onde vamos? Como foi o início de tudo?

As respostas que eu sempre ouvia do pastor enquanto estava sentado no banco da igreja muitas vezes me causavam mais dúvidas do que certeza. Por que deus, se era tão perfeito, ia criar o mundo e pôr o homem nele se ele já sabia que o homem o desonraria? Se deus é amor e é tão bom, porque ele deixa que tanto mal e tanta escuridão tome conta do mundo? As respostas que sempre me davam desde a infância nunca me convenceram totalmente. Assim como José Saramago, eu não queria acreditar, eu queria saber…

Eu via pessoas ao meu lado experimentando a suposta graça divina, e perguntava porque eu não experimentava a mesma sensação da existência de deus. As respostas que recebia eram reprimendas:

Você precisa acreditar, Ricardo… Você não tem fé suficiente…”

E eu ficava sempre triste, confuso e cheio de culpa. Lembro-me quando fiz minha profissão de fé e aceitei Jesus Cristo, o fiz muito mais por medo de queimar no fogo do inferno que por um sentimento de graça recebida.

Eu via todas as religiões do mundo defendendo seus deuses e seus ritos com igual tenacidade e todas estas divindades servirem de desculpas para os homens cometerem loucuras e matarem uns aos outros.

Logo percebi que toda sociedade cria seus próprios deuses, seus próprios dogmas e usa as religiões como um alicerce de segurança contra a desintegração social. Também notei que muitos agrupamentos humanos usavam estas religiões para que alguns continuassem se dando bem em cima de outros…

Foi o homem quem criou um Ser e nele projetou tudo aquilo que nós temos de bom e de ruim.

Se Deus existe, coisa que é bem improvável, ele talvez seja completamente diferente da forma como as sociedades, os profetas e os indivíduos idealizaram.

A noção que temos de deus, bem como os valores e tradições que defendemos como os únicos e definitivos, nada tem de absolutos, são um reflexo do nosso tempo histórico, uma forma que os homens encontraram para dar sentido a uma coisa sem sentido, que é a nossa existência na terra. Cabe a nós, em nossa relação uns com os outros, com quem amamos ou com quem odiamos, criar nossa própria biografia, nosso próprio arsenal de valores e seguir o caminho das pedras e dos espinhos, nunca sucumbindo ao mar desesperador e escuro que nos faz perder a humanidade. Nossa vida, sendo uma dádiva ou um acaso do universo, é um bem pelo qual vale a pena lutar, um bem pelo qual vale a pena preservar. Cabe a nós viver uns pelos outros, apoiando uns aos outros, pois nossa humanidade só existe quando nos relacionamos.

Se existência não tem sentido, então vamos dar sentido a ela cultivando os melhores valores já criados pela humanidade: a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

Tornar-se agnóstico, na confortável incerteza de estar além do bem e do mal, tendo consciência de que tudo pode ou não existir, foi uma saída para sentir-me livre da culpa de não acreditar em deus ou em deuses e livre do medo da punição do pecado; foi como uma libertação para mim, como pôr um termo ao sofrimento de estar fazendo algo errado ou traindo um pai vigilante e punitivo…

Pois cada vez tenho mais certeza que, como disse Nietzsche, nossas crenças e tradições são humanas, demasiado humanas…

Crônica: Laércio

Por Thiago Limeira

Está chovendo. Chovendo como há tempos não chovia. E nesta noite fria, só consigo pensar em duas coisas: Uma é passado, a outra é.

Ele costumava me chamar para eu colocar músicas no computador para ele ouvir. Racionais. Madonna. Ndee Naldino. Robério e seus teclados. We are the world. Ele ouvia de tudo, mas eram sempre as mesmas músicas que ele costumava pedir. Às vezes, me era um teste de paciência atender aos seus diversos pedidos. “Thiaguinho isso”, “Thiaguinho aquilo”, “Ô Thiaguinho”. Bah. Era o jeito dele, e eu sabia. E ele era um dos moradores mais porcos do abrigo. Me lembro uma vez que, após duas semanas na rua, bebendo, ele retornou com aquele conhecido e já esperado aspecto de espantalho. Magro, sujo, bafo de cachaça, completamente repugnante. Uma vez, de tão bêbado, deitou no chão e começou a girar. Mas voltando ao assunto. Ele passara duas semanas na rua, e não tirara a meia que estava utilizando nem uma única vez durante estas duas semanas. E ele tinha uma doença na parte inferior da perna. As meias estavam podres, imagine você a situação. E eu tive de tirá-las de seu pé pois o lazarento era folgado e bêbado demais para fazer isto. Foi nojento. Me lembro até hoje do cheiro. E era um tormento convencê-lo a ir tomar banho. Como eu disse, sua higiene era precária. E ele, mesmo já estando morto devido a quarenta anos de uso intenso de álcool e outras drogas, ainda incomodava outros moradores que moravam debaixo do mesmo teto. E foram exatamente as desavenças que, muitas vezes, o fizeram sair do abrigo para ir beber. Quando ele saia com a mochila nas costas, já sabíamos, só o veríamos dali a uma semana ou até mais tempo. E ele sempre voltava, mas voltava cada vez pior. E os remédios foram inúteis. Difícil combater uma falta de sentido, uma grande desilusão amorosa (como fiquei sabendo) e quarenta anos de vício com um mero coquetel de remédios. Nada mudou, no fim das contas.

Mas agora ele não vai mais voltar, e não ouvirei mais o “Thiaguinho isto”, “Thiaguinho aquilo” como ele costumava dizer. E os moradores e a faxineira não reclamarão mais de seus escarros. E logo todos o esquecerão. Mas talvez eu, eu e estas linhas não. “Ô Thiaguinho, coloca uma música aqui pra mim”. Ainda me lembro. Espero sempre me lembrar. Daquele puto velho, bêbado, perdido e desiludido. Mais ou menos igual a eu mesmo.

Thiago Limeira é escritor, autor de Alguém (2015)

Conto: O Presente

Ela ainda teve tempo tentar proteger-se com os braços e soltar um grito de desespero quando desferi um pesado golpe que atingiu a parte esquerda do seu crânio; caíra de joelhos, gemendo muito, colocou as mãos no lugar onde a cabeça soltava grandes quantidades de sangue que escorria pelas mechas negras e pingavam pela ponta dos cabelos no chão frio — exatamente como a goteira da torneira da sua cozinha…

 O cão, como se sentisse o aroma do sangue da sua dona, começou a latir descontroladamente, dando pulos frenéticos contra a portão do quintal, como se tentasse arrombá-la para prestar-lhe socorro; ouvi também outros cachorros latirem loucamente, atendendo aos gritos do companheiro, mas ali eles não tinham qualquer controle sobre situação, apensa eu…

Dominado por um estado de euforia maléfica, que só posso explicar como a combinação causada pela fúria causada pelo seu sarcasmo, os goles de cachaça, o esforço da martelada que esquentara-me os nervos e a visão do sangue que escorria da sua cabeça, atingi Márcia com mais um segundo e mais pesado golpe, ela despencou no chão, meio de lado; a quantidade de sangue que a martelada fez espirar foi considerável; agonizando, retorcia-se sobre o próprio sangue; martelei seu crânio mais uma vez, e outra vez, e mais outra vez, martelei dezenas de vezes, enquanto dizia:

“Está gostando do meu presente… Está gostando do meu presente?” E a cada martelada que eu desferia, repetia, entre uma gargalhada estridente e insana: “Está gostando do meu presente…”

Só finalizei quando a exaustão me dominara; sua cabeça não passava de todo disforme e repugnante, com pedaços de cérebros e sangue coagulado escorrendo horrivelmente por entre as aberturas…

Retirado do livro A Obra-Prima de Amarildo e Outros Contos Indecorosos.

Poema: Blues dos Refugiados

Dizem que esta cidade tem dez milhões de almas
Umas vivem em palácios, outras em mansardas;
contudo não há lugar para nós, minha querida, não há lugar para nós.

Uma vez tivemos uma pátria e julgávamos que era bela.
Olha para o mapa e lá a encontrarás;
mas não poderemos regressar tão cedo, minha querida, não podere-
mos regressar tão cedo.

O cônsul deu um murro na mesa e disse:
se não têm passaportes estão oficialmente mortos;
mas nós ainda estamos vivos, minha querida, ainda estamos vivos.

Lá em baixo no adro um velho teixo
todas as primaveras floresce de novo:
e os velhos passaportes não florescem, minha querida, os velhos
passaportes não florescem.

Fui a um comissariado e ofereceram-me uma cadeira.
disseram polidamente para voltar no ano seguinte:
mas onde iremos agora, minha querida, onde iremos agora?

Fui a um comício público; o orador levantou-se e disse:
se os deixarmos cá dentro, roubar-nos-ão o pão de cada dia;
estava a falar de mim e de ti, minha querida, a falar de mim e de ti.

Ouves um ruído como um trovão roncando no céu?
É Hitler sobre a Europa dizendo: «Eles têm de morrer!»
Nós estávamos no Seu pensamento, minha querida, estávamos no
Seu pensamento.

Vi um cão de luxo de jaqueta apertada com um alfinete
vi uma porta aberta e um gato entrando;
mas não eram judeus alemães, minha querida, não ale-
mães.

Desci ao porto e parei no cais
vi os peixes a nadar. Como são livres!
a dez pés de distância, minha querida, só a dez pés distância

Passeei pelo bosque; há pássaros nas árvores,
não têm políticos e cantam livremente.
Não são da raça humana, minha querida, não são da raça humana

Sonhei que vira um edifício com mil andares
mil janelas e mil portas;
nenhuma delas era nossa, minha querida, nenhuma

Corri à estação para apanhar o expresso,
pedi dois bilhetes para a Felicidade;
mas todas as carruagens estavam cheias, minha querida, todas as
carruagens estavam cheias.

Fui parar a uma grande planície, no meio da neve a cair
dez mil soldados marchavam de um lado para o outro
olhando para mim e para ti, minha querida, olhando para mim e
para ti. 

W. H. Auden (1907-1973) foi uma dos maiores poetas ingleses do século XX.

Tradução de Jorge Emílio

O Perigo de Acreditar em Soluções Fáceis

Ideias2Um dos maiores perigos, penso eu, nestes tempos em que atravessamos a Zona do Furacão, é a incrível capacidade da maioria das pessoas de acreditar em soluções fáceis, medidas que, tomadas de supetão, se transformariam numa quimera para nossas questões sociais, ou em profetas que trazem as respostas prontas para todos os problemas que atravessamos hoje.

Confesso que sempre desconfiei de respostas prontas para questões difíceis, ou daqueles que, apontando o dedo condenatório para tudo e para todos, se arvoram de uma autoridade messiânica que os fariam capazes de trazer o paraíso à terra. Nunca dei muito crédito para quem tivesse uma postura assim, seja conservador, socialista, liberal, comunista ou tradicionalista.

Nesses tempos difíceis que atravessamos, as instituições da Nova República e sua Constituição de 1988 estão desfalecendo diante das suas contradições e sendo postas a nu. Nossa Constituição funciona como uma espécie de tradição, como uma religião civil que concede a direção certa num mundo desencantado, num país que sentia a ressaca de vinte anos de abusos de período ditatorial. Nossas instituições, por sua vez, eram as guardiães dessa tradição civil, dessa vontade geral, desse texto sacrossanto a quem todos deviam obedecer, respeitar e seguir. As instituições e seus atores eram os zeladores desta convenção, cabia a eles sua aplicação e bom funcionamento.

O grande problema é que, com a Escuridão tomando conta de tudo, com o Furacão destruindo tudo e todos, ficamos desnorteados e incapazes de tomar qualquer direção. O que fazer quando aqueles deveriam zelar pelo contrato social e pela nossa tradição civil são os que mais os desprezam, os denigrem e os violam? O Vórtice da Desilusão, da revolta e da raiva toma conta de nós. Temos a sensação de estarmos vivendo uma farsa. Nossa sociedade se esfacela e entra em estado de anomia.

Então vemos aquilo que mais temíamos enquanto cidadãos acontecer. A Nova República está em plena decadência; o que é pior, não vemos algo novo nascer, não vemos a luz de um novo pacto erguer-se. Muito pelo contrário, vemos um corpo decrépito em seus últimos suspiros tornar-se um zumbi, um natimorto, uma monstruosidade social.

Tudo, é claro, articulado por políticos disfarçados de lobistas e por tecnocratas das instituições e do grande capital. Se depender deles teremos uma república zumbi com direitos sociais e políticos extremamente limitados.

Como afirmei acima, nossa falta de cultura politica nos tornam presas de demagogos e de impostores que nos seduzem com soluções fáceis para problemas difíceis. Isso decorre porque a sociedade brasileira é extremamente autoritária, temos uma resistência sociopática a mudança social, gostamos de ser tutelados politicamente ao mesmo tempo em que desprezamos a Política e acreditamos que ela se resume a politicalha.

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Adoramos ideias e esquemas que afagam nosso ego ou se encaixam em nossas pré- noções. Assim desprezamos tudo o que é diferente e tudo que for complicado demais para nosso senso comum. Por isso, ao invés de compreender e interpretar, preferimos julgar e ridicularizar.

Ideias rasas e soluções medíocres encontram-se em todos os espectros políticos. Tenho uma grande reserva em relação a liberais medíocres como Rodrigo Constantino e a vulgata do Movimento Brasil Livre (MBL). Falar que o problema do Brasil é um problema de falta de liberdade demonstra uma falta de conhecimento dos processos de formação da sociedade brasileira. É impossível, repito, impossível, falar em liberdade num país que está entre os mais desiguais do mundo. Só é possível falar em liberdade entre indivíduos e grupos em condições econômicas, politicas e culturais semelhantes. Algo que é impossível encontrar por aqui, onde os níveis de heteronomia social são altíssimos. Colocar que o problema brasileiro se resume a falta de liberdade da economia é desconhecer que o Estado sempre possuiu uma preponderância no capitalismo brasileiro, também é ignorar que, sem Estado, não há capitalismo. Isso, portanto, é um Não-Problema.

Confesso que também nutro um certo desprezo em relação ao deputado Bolsonaro e seus apoiadores. Ao defenderem que nosso problema se resumiria a um aumento na repressão na segurança pública e onde uma suposta minoria deveria se curvar a vontade de uma suposta maioria, Bolsonaro certamente ignora que a sociedade brasileira sempre foi extremamente repressora, a prova disso são seus altos índices de encarceramento e repressões violentas a movimentos civis em toda a sua história; ela sempre adotou, desde 1500, o Projeto Bolsonaro de segurança pública. Ele e seus fãs também ignoram que a globalização e o processo de divisão social do trabalho tornam as sociedades tão complexas e segmentadas que todos, inclusive ele, fazem parte, de uma forma ou de outra, de alguma minoria. Se ele e seus minions se não sabem disso são mal informados ou se sabem e ignoram agem de má-fé. 

Até a esquerda merece uma critica. Sou do campo socialista desde a adolescência e sempre me estranhou a defesa quase mítica de que uma revolução armada resolveria todos os problemas do Brasil. Será mesmo que uma revolução pode resolver todas as nossas distorções? Ainda é possível pensar num método de mudança social baseado no militarismo cujo sucesso se deu ainda no século XX? Sempre pensei que a mítica Revolução nunca será a solução de nossos problemas mas, ao contrário disso, uma oportunidade para realizar as reformas necessárias. Há ainda outra coisa a ser considerada, com uma economia tão dependente de investimentos estranheiro como a nossa, o rompimento unilateral com os fluxos globais de capital geraria um aumento exponencial do desemprego. Em outras palavras, ficaria um buraco na nossa economia. O que fazer para tapar esse buraco? Altas taxas de desemprego significam trabalhadores descontentes nas ruas protestando. Como lidar com esses protestos? Como lidar com aqueles que seriam contra a revolução? Digo isso porque o trabalhador é extremamente pragmático. Ele não liga muito para ideologias. Ele quer saber de estar empregado e que seu filho, ao completar dezoito anos, também consiga um emprego. Como lidar com isso? Saber o que fazer no momento certo é algo que as esquerdas precisam saber ter e ainda não sabem.

Pessoalmente defendo um reformismo radical. Em outras palavras, defendo um governo que ataque em duas frentes, através da via democrática e institucional tendo o apoio massivo das massas nas ruas. Deste modo cria-se a ambiente propício para as reformas necessárias — algo que o PT teve a chance de fazer e desperdiçou covardemente.

Temos que nos afastar de ideias e soluções levianas, precisamos desconfiar dos impostores, daqueles que gritam aos quatro ventos que tem a solução de tudo, de pessoas que apresentam respostas quiméricas para nossos problemas seculares. Precisamos também tratar a política como ela deve ser tratada, como uma esfera da vida social que precisa ser sempre vigiada e cultivada. Precisamos debater os temas mais espinhosos, precisamos pôr em perspectiva esquemas pré-concebidos, precisamos aumentar os graus de participação politica do trabalhador, seja nos bairros, nas prefeituras e nas escolas.

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Precisamos, enfim, deixar de pôr nossa fé em farsantes e em ideias tolas, deixar de pensar que politica se resume à politicalha e começar a fazer politica com P maiúsculo — a política das massas, do povo, da democracia participativa.

Sem embargo, leitor amigo, só assim estaremos dando um primeiro passo para a verdadeira mudança social, que é aquela que vem de baixo para cima.

O Pensamento Conservador Frente à Atual Conjuntura Política

Por Carlos Gileno

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Assim como o liberalismo e o socialismo, de acordo com Karl Mannheim, o conservadorismo é um estilo de pensamento que nasce e se desenvolve na modernidade como reação às mudanças capitaneadas pelo Iluminismo[1]. O clássico livro do irlandês Edmund Burke (1729-1797), Reflexões sobre a Revolução na França (1790) – e que irá influenciar posteriormente o pensamento conservador -, é uma epístola que procura responder ás indagações sobre os efeitos da Revolução Francesa do jovem magistrado francês Charles-Jean François Depont (1767-1796)[2]. Em linhas gerais, Edmund Burke rejeitou a hipótese de que a Revolução Francesa incorporou as virtudes da Revolução Gloriosa inglesa de 1688[3].

Aqueles revolucionários, dentre eles François Depont, foram influenciados por dois clubes londrinos que não representavam o governo inglês e tampouco a opinião pública: a Sociedade Constitucional e a Sociedade da Revolução. Edmund Burke condenou o apoio dessas duas associações à Revolução Francesa; uma revolução que poderia conduzir à crise o sistema constitucional inglês[4]. A Declaração de Direitos de 1688 garantiu a liberdade, a vida e a propriedade privada dos súditos contra os possíveis abusos do absolutismo real e estabeleceu as regras para a sucessão do trono inglês. Burke demonstrou que o Parlamento inglês, mesmo em caso de grave crise política, jamais anulou o princípio da hereditariedade do poder real. Houve obediência do Parlamento inglês aos “antigos estatutos declaratórios”, visto que rei e povo formam o mesmo corpo político.

[…] O compromisso ou pacto social, que se conhece geralmente como Constituição, proíbe tal violação e tal rendição. As partes constituintes de um Estado estão obrigadas a respeitar as obrigações públicas que têm umas com as outras, bem como todos aqueles compromissos dos quais derivam interesses importantes, da mesma forma que o Estado, como um todo, é obrigado a cumprir seus compromissos com as comunidades particulares […] (BURKE, 2014, p. 43).

Existe na Declaração de Direitos a limitação ao poder da Coroa, mas o princípio da hereditariedade do monarca resta intocável. Aquela declaração não gerou o que Edmund Burke denominou de “inesperados giros da Roda da Fortuna”, ou seja, as revoluções. Antes, a Declaração de Direitos – que seria a base do Bill of Rights de 1689 – foi um pacto que confirmou os direitos e as liberdades dos ingleses, ao mesmo tempo em que regulou a sucessão da Coroa. Ao invés de destruir antigos direitos (fundados e legitimados pelo commow law), a revolução de 1688 foi uma reforma constitucional que garantiu “patrimônio legal já existente e herdado”, isto é, a legitimidade do poder dos reis europeus. Nesse ponto, emerge em Edmund Burke crítica veemente aos efeitos da Revolução Francesa, antevendo o Terror que se instalou em 1792:

[…] Considerando-se bem todas as circunstâncias, a Revolução Francesa é a mais espantosa que aconteceu até agora no mundo. As coisas mais surpreendentes foram produzidas, em mais de um caso, pelos meios mais absurdos e ridículos; nos modos mais ridículos, e, aparentemente, pelos mais vis instrumentos. Tudo parece fora do natural, neste estranho caos de leviandade e ferocidade, onde todas as espécies de crimes misturam-se com todas as espécies de loucuras. Em vista dessa monstruosa cena tragicômica, necessariamente as paixões opostas se sucedem e às vezes se misturam, fazendo-nos passar do desprezo à indignação, do riso às lágrimas, do desprezo ao horror (BURKE, 2014, p. 32).

O pensamento conservador pode ser entendido como uma tentativa de resposta racional à preservação de determinadas heranças coletivas. Por exemplo, existe em Edmund Burke a crítica às relações de troca e monetárias que emergem da Revolução Burguesa na França: aquelas relações deveriam ser dependentes das maneiras, ou seja, a ordem econômica deve estar submetida uma ordem moral; essa mesma ideia estará contida na Teoria dos sentimentos morais (1759) do filósofo e economista escocês Adam Smith (1723-1790), contemporâneo de Edmund Burke. As maneiras ou a ordem moral dizem respeito à confiança, à responsabilidade e ao compromisso. A deferência a esses atributos é que funda a solidariedade humana. A solidariedade, o dever e a virtude são a “mão invisível” que guiará os interesses individuais para a realização coletiva. Assim, o ser humano não é um homo economicus, e a política não deve ser apêndice da economia e tampouco de estratégias políticas de facções ideológicas.  Aqui surge a crítica ao economicismo capitalista (o qual comete o equívoco de reduzir a ordem política às operações do mercado) e às rupturas revolucionárias que reduzem a política à manutenção de um projeto de poder.

Edmund Burke acusava os revolucionários franceses de utilizarem a política para a fundação de um plano de poder, arrogando-se o direito de consumirem todos os legados de gerações anteriores de acordo com as suas próprias necessidades. Instituições de ensino, religiosas e hospitais, por exemplo, foram dizimadas ou expropriadas. Essas instituições eram legados de gerações anteriores para o proveito das gerações subseqüentes. Ao serem extintas, ocorreu a destruição das poupanças acumuladas, a inflação disparou e o sistema educacional foi sucateado, bem como os métodos tradicionais de assistência social e médica. Em verdade, para Edmund Burke, a revolução desprezou os vínculos de solidariedade tradicionais que mantinham a França como um dos países mais proeminentes da Europa.

 Por outro lado, a sociedade, nesse contexto burkeano, é dependente das relações de afeto e lealdade; e essas relações só podem ser erigidas de baixo para cima, numa interação face a face entre os indivíduos. Essas relações se desenvolvem na família, nos clubes locais, nas associações, nas instituições de ensino e religiosas, no ambiente de trabalho, entre outros. É justamente nesses ambientes que o ser humano interage proximamente com seus semelhantes, “assumindo a responsabilidade por seus atos e levando em consideração o próximo” (SCRUTON, 2014, p. 40).

 De acordo com Edmund Burke, sãos os costumes e as tradições que fundam os vínculos de solidariedade de baixo para cima. Quando uma sociedade não é organizada segundo os costumes do povo, mas organizada de cima para baixo (pode ser organizada de cima para baixo por uma ditadura revolucionária ou pela burocracia impessoal ávida de colocar decretos em execução), o respeito e a solidariedade que uniam os indivíduos é desfeita. Assim, governos centralizados que impõem regras de cima para baixo geram a irresponsabilidade entre os indivíduos ao mesmo tempo em que o monopólio da burocracia impessoal sobre a sociedade faz surgir nas pessoas à carência do agir livre. Portanto, para Edmund Burke, as tradições sociais não são costumes adotados arbitrariamente pela sociedade; essas tradições são, antes de tudo, formas de conhecimento que, através dos tempos, pelos caminhos dos erros e acertos, formaram tentativas de ajustar as condutas dos indivíduos entre si. Dessa forma, “caso as destruamos de modo negligente, eliminaremos as garantias oferecidas de uma geração para a geração posterior” (SCRUTON, 2014, p. 40).

Nesse cenário, como nota o influente intelectual norte-americano do século XX Russell Kirk (1918-1994), o conservador é um político prudente: o pensamento conservador é fundado nos costumes e convenções, “na longa experiência da espécie humana” (KIRK, 2013, p. 101). Entretanto, o conservador se vê defrontado de tempos em tempos “[…] por jovens, que se autodenominam de conservadores, que não têm noção alguma de prudência, temperança, compromisso, tradições de civilidade ou patrimônio cultural” (KIRK, 2013, p. 101). Neste ponto, Russel Kirk criticou o conservadorismo que se converte em ideologia. No fundo, a ideologia se resume em “saber quem vai mandar, só isso”.

O triunfo da ideologia seria o triunfo do que Edmund Burke chamou de “mundo antagonista” – o mundo da desordem; ao passo que aquilo que o conservador busca conservar é o mundo da ordem que herdamos, ainda que em estado imperfeito, de nossos ancestrais […] A ideologia é contrária à verdade: nega a possibilidade da verdade na política ou em qualquer outro campo, pondo motivos econômicos e interesses de classe no lugar das normas permanentes. A ideologia nega até a consciência e o poder de decisão dos seres humanos. (KIRK, 2013, p. 101 e 96).

Não é só a ideologia comunista que deve ser posta à prova, segundo Russel Kirk, porém qualquer ideologia. O autor criticou a ideologia anticomunista norte-americana que objetivava instaurar uma religião civil ensinada nas escolas via Estado. Essa religião civil é o capitalismo democrático (KIRK, 2013, p. 97). O autor norte-americano faz uma defesa do ensino das humanidades e da literatura genuína que liga os mortos, os vivos e os que estão por nascer, segundo a expressão de Edmundo Burke. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) expressou a importância do ensino daquela literatura durante entrevista concedida à sua amiga Lya Cavalcanti na extinta rádio PR4:

O que há de mais importante na literatura, sabe? É a aproximação, a comunhão que ela estabelece entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio, somos amigos pessoais deles (DRUMMOND, 1972, p. 108).

Russel Kirk defende a prudência política platônica: a política entendida “como arte do possível” contra a beligerância política criada pela ideologia naquele contexto norte-americano das décadas dos 60 e 70 do século XX. A ideologia pode trazer abaixo a “permanência da ordem, da liberdade e da justiça. A ideologia é a política da irracionalidade apaixonada” (KIRK, 2013, p. 97). Se a política da prudência pode levar à conciliação política, o fanatismo ideológico pode levar ao extermínio ao animar o faccionismo, ou seja, a guerra entre facções ideológicas. Nesse cenário, o político prudente nega uma “verdade política absoluta”.

Portanto, o conservadorismo, segundo os seus teóricos, não é religião nem ideologia; não segue dogmas, não tem ato de fé ou artigos que o guie. O pensamento conservador deve acomodar as diversidades dos pontos de vista sobre número considerável de temas e problemas, não se constituindo numa ideologia imutável: os princípios a sarem defendidos pelos conservadores serão dados pelas circunstâncias e necessidades surgidas dos seus períodos históricos. O conservador não é refratário à mudança, ao contrário da visão estanque e passadista do reacionário; antes, o conservador tem cautela diante da mudança insensata, a qual deve ser norteada pela prudência política.

O conservador deve aliar as exigências da permanência de determinadas tradições e costumes com as exigências da mudança. Não deve pretender, num arroubo, destruir tudo o que foi construído pelas gerações anteriores de maneira irrefletida, mas preconizar a mudança “refletida e moderada”. Dessa forma, crítica o culto do progresso desmedido que está impresso na subjetividade progressista moderna: tudo aquilo que é antigo deve ser exterminado, ou, como diria Mefistófeles do Fausto de Goethe: “eu sou o espírito que nega, e isso com razão, porque tudo o que existe merece perecer”. Dito de outra forma, os progressistas entendem o presente como o início do futuro; já os conservadores encaram o futuro “como o mais avançado estágio alcançado pelo passado” (RICUPERO, 2010, p. 76). Nesses termos, o passado coexiste com o presente e, diferentemente dos progressistas, a ideia central para os conservadores não é a de sucessão constante de modos de vida, “mas a de coexistência”.

No Brasil e na América Latina, o pensamento conservador nasceu negando o passado colonial. Nas revoluções de independência, o pensamento conservador latino americano seguiu caminho diverso do pensamento conservador europeu que fustigava a revolução francesa à moda de Edmund Burke.  A nova ordem política que emergia das revoluções de independência nas Américas procurava “[…] apagar os traços do passado, de uma maneira que não se poderia fazer na Europa. Em poucas palavras, é muito difícil, como já foi dito, para conservadores na América valorizar o passado porque esse passado é o passado colonial. Aceitá-lo seria, no limite, valorizar a dominação das antigas metrópoles e pôr em questão a própria independência” (RICUPERO, 2013, p. 78-9).

Aquele mundo em profunda transformação na América Latina fez com que o seu pensamento conservador não se voltasse para a manutenção de valores e sentimentos compartilhados pela sociedade ao longo dos séculos, visto que as suas condições de colônia experimentaram os valores e leis impostos de cima para baixo pelas metrópoles (não existe, portanto, como na Inglaterra, a vigência do commow law), sendo rara a presença do pensamento conservador clássico europeu na América Latina. O pensamento conservador no Brasil se deparou com o fato de ser uma colônia que almeja a independência, afastando-se da ideia do conservadorismo clássico de valorizar determinadas instituições pretéritas.

Roberto Schwarz, no seu clássico texto sobre a obra machadiana (1988), coloca que o liberalismo é uma ideia fora do lugar no Brasil. Talvez possamos dizer que o socialismo e o conservadorismo também se constituem em ideias fora do lugar, levando-nos a problematizar as mudanças que as influências intelectuais e teóricas sofrem ao serem recepcionadas em diferentes ambientes sociais, políticos e econômicos.

No livro intitulado A consciência conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira, Paulo Mercadante afirma que no Brasil o pensamento conservador se ancorou no ecletismo[5]. Serão diversas as bases teóricas que compuseram a base teórica daquele pensamento, com os intelectuais e políticos trazendo consigo o espírito da Restauração: a ideia do “reformar para conservar”. Os intelectuais e políticos desenvolveram “um estilo específico de pensamento, correspondente a peculiaridade de suas origens sociais” (MERCADANTE, 1980, p. 218).

As origens sociais do pensamento conservador nacional estavam localizadas no domínio rural e na incipiente burguesia urbana vinculada aos interesses de exportação. Esses homens públicos norteiam seu pensamento pela ação coletiva fundada na exportação e no domínio rural. Porém, existem certas peculiaridades desse domínio; a elite não forma castas, com o acesso à vida pública sendo dependente da confiança do grupo dominante. Para ingressar na magistratura, na administração, na política ou no magistério, o indivíduo podia tornar-se membro do partido conservador ou liberal, desde que no seu espírito predominasse a moderação.

Os senhores rurais brasileiros estavam num contexto de liberalismo econômico insuficiente e liberalismo político em antagonismo com o trabalho escravo. São dessas condições institucionais e materiais que surge o ecletismo teórico e o espírito de conciliação política dos grupos dominantes. Existia a tentativa de conciliar a revolução nas relações externas “com o escravismo nas relações internas de produção”. Essa era a principal questão apresentada às elites que realizaram a independência de 1822. Todo pensamento que se opunha às reformas graduais da escravidão foram solapados até 1870, fase em que o movimento abolicionista se intensificou. Não se podia, portanto, saltar a barreira da moderação.

Defendia, por todo o longo percurso de sua preeminência política, o instituto da escravatura e o liberalismo econômico, procurando ajustá-los ambos à realidade política de um país novo e composto de diferentes regiões (MERCADANTE, 1980, p. 221).

O liberalismo econômico se consagrou harmonizando-se às relações internas de produção sustentadas pelo trabalho compulsório, a exemplo do liberalismo político, o qual ignorava a vigência da instituição escravocrata. Por outro lado, a ideologia nacional conservadora parte do liberalismo econômico do final do século XVIII, mas não se associa a um pensamento político radical. Por exemplo, a restauração na França é feita em uma sociedade cansada do jacobinismo impregnado de extremismo revolucionário. A colônia não expõe esse pensamento radical em seu todo. A questão da emancipação política fica por baixo das melhorias das relações entre metrópole e colônia, causando “um ajuste de interesses” (MERCADANTE, 1980, p. 227).

Refletindo sobre as diferenças de desenvolvimento do pensamento conservador europeu que partiu de Edmund Burke e o desenvolvimento do pensamento conservador nacional, podemos inferir que é temerário (do ponto conceitual e da política prática) utilizarmos conceitos de forma abstrata, uma vez que o pensamento conservador assume particularidade no Brasil.

 Karl Mannheim afirma que pensamento conservador é detentor de uma estrutura mental objetiva, dinâmica e condicionada historicamente. Estrutura objetiva pelo fato de se tratar de uma maneira de agir e pensar que transcende a subjetividade do indivíduo, por ser função do desenvolvimento da sociedade. O conservadorismo moderno é coerente e reflexivo; emerge como movimento consciente de oposição ao movimento “progressista” ou ao pensamento liberal-burguês.

O estudo do pensamento político e social no Brasil, apesar de ter se desenvolvido nas últimas décadas, ainda é exíguo. Mais exíguo ainda é o estudo do pensamento conservador no Brasil, o qual é uma força política e social que em muitos momentos da nossa História comandou o processo de desenvolvimento na nossa modernização, chamada por alguns de modernização. A análise das obras de referências intelectuais, da ação política, dos discursos e dos debates parlamentares deve ser objeto de estudo premente para compreendermos aspectos conceituais importantes de um pensamento que se destaca na vida pública nacional.

O pensamento liberal conservador vigorou um dia no Brasil. Joaquim Nabuco, Perdigão Malheiro, Tavares Bastos, João Camilo de Oliveira Torres, Paulo Mercadante (conservador que faz uma crítica aos conservadores nacionais), Roberto Campos, Antonio Paim intelectuais que procuravam pensar a realidade nacional por intermédio da reflexão teórica constante no conservadorismo, já não existem mais ou são raras. O que existe é opinião conservadora que utiliza o jornalismo como instrumento de difusão de suas impressões subjetivas. Ser um pensador conservador não se limita a perpetrar imprecações contra a esquerda. Senão cairíamos no auto-engano que o conservador Russel Kirk criticou nos jovens conservadores norte-americanos. Ser um pensador conservador implica esforço de compreensão da realidade. Seguindo o mesmo fluxo do pensamento conservador, poucos são os genuínos pensadores progressistas vivos atualmente no país. O “progressismo ideológico” e o “conservadorismo ideológico” estão alicerçados nas meras opiniões jornalísticas e no marketing político. Se a produção intelectual progressista ainda é baixa nos dias de hoje, pelo menos continuam trazendo autores estrangeiros para serem publicados, estando antenada com a discussão de esquerda realizada no exterior. Os conservadores nem procuram traduzir os grandes teóricos do conservadorismo contemporâneo. Apenas recentemente foram traduzidos Russel Kirk e Roger Scruton. O próprio Edmund Burke é pouco debatido e conhecido, inclusive nos meios acadêmicos.

Referências

ANDRADE, Carlos Drummond de. Tempo Vida Poesia: confissões no rádio. Rio de Janeiro: Editora Record, 1986.

BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução na França. São Paulo: Editora Edipro, 2014.

KIRK, Russell. A política da prudência. São Paulo: Realizações Editora, 2013.

MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.

MERCADANTE, Paulo. A consciência conservadora no Brasil: contribuição ao estudo da formação brasileira. 3. Ed. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 1980.

RICUPERO, Bernardo. O conservadorismo difícil. In: FERREIRA, Gabriela Nunes; BOTELHO, André. Revisão do pensamento conservador: ideias e política no Brasil. São Paulo: Editora Hucitec, 2013.

SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar. In: SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1988.

SCRUTON, Roger. Como ser um conservador. Rio de Janeiro: Editora Record, 2015.

[1] MANNHEIM, Karl. Ideologia e utopia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.

[2] Devemos lembrar que Edmund Burke era membro do partido whig (grupo político liberal do Parlamento Britânico, formado no final do século XVII. Esse partido procurava limitar o poder da Coroa e fortalecer o poder do Parlamento). O autor irlandês era liberal conservador e escreveu uma obra de referência do moderno conservadorismo político.

[3] Edmund Burke afirma que  a influência da Revolução Gloriosa (1688-1689) no imaginário dos revolucionários franceses é confusa por não entenderem os fundamentos da Declaração de Direitos produzida pelos ingleses.

[4] Segundo Edmund Burke, os efeitos políticos da Revolução Francesa não iam de encontro à tradição do common law na Inglaterra: “[…] A justiça do common law destinava-se a uma comunidade construída a partir do nível mais inferior, mediante a garantia oferecida pelos tribunais para todos os que viesses a se apresentar de mãos limpas (…) No direito inglês, há normas jurídica e casos de precedentes que datam do século XIII, e os progressistas considerariam isso um absurdo. Para mim, era a prova de que o direito inglês é propriedade do povo inglês, não uma arma dos governantes […]” (SCRUTON, 2014, p. 18).

[5] O ecletismo é uma diretriz teórica originada na Antiguidade grega, e retomada ocasionalmente na história do pensamento, que se caracteriza pela justaposição de teses e argumentos oriundos de doutrinas filosóficas diversas, formando uma visão de mundo pluralista e multifacetada.

Carlos Gileno é Sociólogo e professor na UNESP/ARARAQUARA.