Crônica: Dos Bosques ao Concreto

Nos mudamos para lá em meados da década de noventa. Lembro-me que detestei a ideia de ir para lá, pois eu já estava adaptado ao condomínio onde estávamos morando, já tinha me recuperado do trauma de ver meus pais se separando, bem como ter deixado a casa onde eu tinha vivido toda minha existência até então. Mas as mudanças sempre ocorrem e não temos muito poder sobre ela, principalmente para uma criança de onze anos na época.

Nossa nova casa era um condomínio típico dos anos setenta e oitenta, construídos pelo governo para a classe média. Não era grande coisa, mas o que mais me atraiu naquele lugar era o fato dele ser rodeado por bosques que se espalhavam por vários quilômetros. Eu sempre adorei o verde, o ar puro e os espaços abertos. O jardim que havia na minha primeira casa e seu quintal arborizado eram quase um paraíso para mim, por isso adorei a ideia de voltar a morar perto de árvores e do verde.

O ar dali era muito mais agradável, e não raro podíamos ver tucanos e macacos correndo pelos cantos atrás de frutas ou um jacaré no igarapé tomando sol. Não demorou muito para eu começar a explorar os bosques escuros com os moleques do condomínio. Na minha mentalidade de pré-adolescente aquilo era uma verdadeira aventura: correr pelas trilhas, se balançar nos cipós, chegar até as nascentes dos riachos e pescar alguns peixinhos.

Mas também era uma oportunidade para um urbano como eu ficar mais perto da natureza, que fui aprendendo a amar.

Quando me lembro daqueles dias eu me considero um privilegiado. Normalmente a vida em condomínio é uma vida fechada e controlada. Mas ali eu tinha a liberdade parecida com a de quem mora num sítio, a natureza ao alcance da mão.

Hoje, porém, não há mais bosques nem nascentes, nem riachos, nem lagos e nem cipós.

As incorporadoras derrubaram tudo e transformaram os nossos bosques em outros condomínios, mas dessa vez eram conjuntos fechados por muros, cercas elétricas e vigiados por seguranças armados.

Todo o verde que tínhamos ali foi transformado em concreto, aço e vidro.

As curvas que a vida dá me fizeram ir morar num desses condomínios dali de perto. Minha varanda, ironicamente, tem a vista para o único verde que sobrou daqueles tempos: um pequeno braço de floresta rala e secundária espremida por muros de todos os lados.

É com tristeza e nostalgia que lembro daqueles dias passados e como as coisas mudaram tanto e para pior, onde o verde cedeu lugar para o cinza.

Crônica: Memórias de uma Casa em Ruínas

Era uma antiga casa de estilo colonial, situada numa das avenidas mais movimentadas da capital amazonense.

Em décadas precedentes fora a residência de grandes barões da borracha, acolhendo o luxo e o poder das oligarquias do ouro branco de tempos passados. Era ali, no grande paço de jardins floridos, onde eram tratadas as questões que mudariam os caminhos do Amazonas, tudo regado a vinho e uísque.

Depois da crise que pôs fim a farra do látex ela se tornou um modesto e genérico prédio público de onde a burocracia fria e sem vida de um Estado em ruínas despachava seus milhares de oficios, requerimentos e atos administrativos.

A ascensão da Zona Franca na segunda metade do século mais uma vez a transformou, tornando-a uma famosa importadora dessas quinquilharias tecnológicas que levam as pessoas a loucura. Nessa época ela estava sempre movimentada, viva e ululante, em muito parecendo as glórias que vivera no início do século.

Só que mais uma vez veio a crise lá pelos anos noventa e ela não conseguiu se adaptar e foi abandonada, feito o bagaço de uma fruta que jogamos no lixo.

A importadora faliu, o poder púbico não quis utilizá-la e os barões da borracha já tinham desaparecido.

Hoje, o teto está desabado, as paredes cheias de rachaduras e tomadas pelo mofo. Os únicos visitantes que de vez em quando aparecem por lá para prestigiar a casa são alguns cracudos, prostitutas gonorrentas e travecos em estado positivo.

A decadência envolve a casa em ruínas e destrói todas as suas recordações de séculos passados.

Enquanto ela recebe as visitas de figuras tão destruídas quanto ela, o mundo lá fora segue rápido e impiedoso, destruindo e mudando tudo, feito um grande triturador de concreto.

Poema: O Jardim, de H.P. Lovecraft

Conhecido como um grande contista do gênero terror e fantasia, Lovecraft também foi um habilidoso poeta. Aqui vai meu poema preferido dele:

Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,

sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;

onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;

e as paredes e as colunas são idéias que passaram.

Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado

sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.

Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,

e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor,

e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.

E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade

de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.

A visão de dias idos em mim ressurge e demora,

quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.

E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são

minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.

Globalização: perdedores e ganhadores

Penso que uns dos lugares onde mais podemos perceber as consequências da globalização são nos terminais aeroportuários do mundo. Talvez isso não seja tão notado numa grande cidade regional, como Manaus, mais em cidades de preponderância nacional e internacional, como Brasília, São Paulo, Curitiba e Campinas, esses traços são mais fortes.

Sentamos num banco e à nossa frente temos um turista espanhol falando ao celular; mais à frente temos um grupo de japoneses conversando em voz alta; ao nosso lado executivos chineses atualizando os dados das suas empresas multinacionais em seus tablets; tomamos café numa empresa global, a Starbucks, vamos numa livraria global, a Bookstore, e temos os principais lançamentos da literatura best-seller mundial, cuja prosa leve e de questões pouco profundas permite ler sem muito esforço enquanto se está em conexão ou quando se tenta distrair-se do tédio de ficar algumas horas no grande tubo de aço e tecnologia que é o avião, ou ter acesso ao mais recente número do New York Times, do Washington Post ou da Revista Time ao mesmo tempo que podemos tomar uma cerveja alemã de acompanhamento; mesmo a forma de vestir-se, se expressar e gesticular dos funcionários é padronizada a nível global, com gestos discretos, tom de voz calmo e aceptivo, como cães adestrados. As comissárias de bordo são de uma beleza clássica, cujos exemplos podemos encontrar em Londres, Budapeste ou Quebec, e seu tom de voz é o mesmo que pode ser encontrado em qualquer aeroporto do mundo.

Os passageiros, ou clientes, parecem seguir as mesmas normas de etiqueta, passos rápidos, olhares distraídos, falando baixo e espírito imerso nessas maravilhas tecnológicas que fazem nossa felicidade num mundo conectado, pois estar conectado hoje é um imperativo, um fato social global. Muitas vezes percebi aqueles que não se enquadravam nessa regra de etiqueta, com gestos espalhafatosos ou com um tom de voz inapropriado, sendo olhado com um ar de desprezo perante outros passageiros.

Mesmo as lojas destinadas a vender artigos regionais são temperadas pelo tom transnacional; seus produtos nunca refletem de fato uma regionalidade, mas uma identidade estereotipada buscada pelo comprador: camisas em inglês, brincos de sementes com uma estética mais aceitável para um europeu ou norte americano, ou balas de frutas regionais com um sabor não tão intenso e mais acessível para um paladar estrangeiro.

É nesses lugares onde notamos as forças transnacionais que moldam o nosso mundo, isso a revelia de nós mesmos, a despeito da aceitação das populações regionais ou da cultura do lugar. A globalização também me parece um esforço de fazer com que todos se sintam em casa, sem importar com seu local de origem ou do seu local de destino. O típico indivíduo da contemporaneidade é o Homem à Deriva, o Cidadão Cosmopolita capaz de se mover por todos os lugares do mundo, pois absolveu em seu habitus uma forma cultural globalizada, e que só tenderá a ficar mais forte com o passar dos anos ao se misturar com as culturas regionais dos locais onde ela se instala.

Mas em tudo isso há um paradoxo. Se a globalização é uma tentativa de fazer com que todos se sintam em casa em qualquer lugar do mundo, isso só vale para um tipo de indivíduo: aquele que pode pagar pelas benesses do mundo conectado, aquele que num dia pode estar em Dubai curtindo um final de semana e em outro pode estar em Xangai negociando ações e investimentos com executivos locais. Há os Descartados da Globalização, aqueles para quem nenhum lugar é a sua casa e todo lugar é um lugar de perigo, violência e expulsão. Os fenômenos globais são para eles um estorvo, um peso que são obrigados a suportar. Refugiados de guerras, de crises econômicas ou de desastres ambientais, estes grupos humanos experimentam a negatividade do fenômeno transnacional — são os descartáveis do mundo global que, mesmo assim, possuem uma função nele como, por exemplo, exercendo trabalhos degradantes e de pouco prestigio social que as populações integradas dos lugares onde estão temporariamente instalados se recusam a fazer.

A globalização inclui e exclui, acolhe e expulsa. Ela é a síntese conflituosa de uma dialética cruel, nela os perdedores e ganhadores da história se completam e se opõe; carne, sangue, culturas e produtos são triturados pelo impiedoso liquidificador do capital.

Ela, a Globalização, se tornou um fenômeno inevitável, precisamos enfrentá-la, não como algo ruim, mas como um processo que está mudando tudo o que conhecemos e tudo o que amamos. Se queremos um mundo mais acolhedor, que esteja aberto a todos e a todas, precisamos saber como lidar com os perdedores do processo civilizatório, como tornar o mundo uma casa tanto para eles quanto para nós; devemos lidar com o fato de que a civilização global não é um artigo para exportação e que deve haver grupos humanos não desejosos de se integrar, mas apenas querem ser deixados em paz com seu modo de vida; também precisamos saber como equacionar os antagonismos entre a vontade popular local e regional com as forças globais que tudo mudam. O que tem mais legitimidade, forças impessoais do grande capital transnacional ou a vontade geral de uma comunidade que vive, trabalha e conserva um pedaço de terra há muitos anos?

O desafio global está posto.

Só a Democracia pode salvar a Democracia

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Quanto vale lutar pela Democracia?

Entre os escombros da Nova República e a ascensão de um novo período histórico onde predominará uma poliarquia limitada, vemos os valores da nossa distorcida social-democracia serem jogados no lixo como uma coisa completamente superada, fora de moda, como algo ideológico…

Mas só costumamos chamar de ideológico aquilo que não concordamos. Russel Kirk, o famoso historiador e militante conservador, disse em sua obra A Política da Prudência (1994) que as ideias extremistas, o progressismo e o socialismo, eram ideológicos. Mas todo arcabouço de ideias que dê explicação ao mundo e sustente uma forma de poder no tempo e do espaço pode ser chamado de ideológico. Portando, temos que dar os nomes aos bois, o limitado e prosaico Kirk é tão ideológico quanto os socialistas, sociais-democratas e liberais que costumava tanto criticar.

A inflexão que estamos vendo hoje, com todo o lamaçal da Nova República, só demonstra as consequências nefastas de uma transição democrática lenta, gradual e segura, arquitetada pelos militares que viam a seu poder se esvair frente a crise econômica e às demandas por eleições livres. A conciliação com toda a banda podre da caserna acabou fazendo com que o Novo herdasse as velhas práticas corruptoras e corrompidas da ditadura e de períodos anteriores menos democráticos.

Disso percebemos que está se proliferando certas ideias sustentadas por candidatos e grupos sociais que se colocam como não-políticos e não-ideológicos. Advogam que, como não possuem nada de politico, são tomados de um conhecimento neutro que os tornam capazes de aplicá-lo para administrar o mundo da vida.

Afastar a politica da sociedade civil e torná-la neutra, como uma técnica que só precisa ser aplicada, é algo perigoso que pode beirar o autoritarismo, pois retira do palco de discussão da Ágora os assuntos de interesse da sociedade. Os tecnocratas não percebem a pluralidade, a historicidade e a complexidade de interesses que norteiam a politica e como ela espelha os conflitos em sociedade. Tudo isso funciona como um afastamento do povo da discussão dos seus problemas. O discurso tecnocrático e da antipolítica aparta as pessoas do poder, das instâncias decisórias e das possibilidades de debater seus principais problemas.

Quem ganha afastando o povo da politica? Quem se favorece tornando as politicas públicas blindadas ao questionamento popular apenas por que estariam sob a roupagem de que são medidas técnicas?

Aqueles que afirmam não ser políticos ou não ideológicos são exatamente o oposto, pois suas ações estão sendo amparadas por grupos políticos e interesses econômicos que estão em disputa pelo Estado e pela hegemonia pelo domínio das ideias na sociedade.

Para superar as distorções da democracia representativa e a nossa secular desigualdade precisamos não de tecnocratas ou de líderes que posam de antipolíticos, que usam a fantasia do não sou político, sou administrador como uma forma de conquistar os mais desavisados. Precisamos de mais politica, de políticos de P maiúsculo, de mais democracia, de pôr na esfera de discussão da Ágora os temas mais espinhosos e polêmicos; este é o único caminho para criar um novo consenso e um novo acordo nacional; não elitista e conciliador com tudo que há de mais podre na sociedade brasileira, mas um acordo Popular, que espelhe as demandas de todos os trabalhadores e supere quinhentos anos de dominação fática sobre o povo.

Talvez o que esteja acontecendo agora, com todos os partidos políticos e principais líderes que forjaram a Carta de 1988 expostos em seus esquemas obscuros, aponte para dois caminhos: ou deixamos os interesses econômicos e as elites forjarem um novo pacto que só interessa a elas; ou o povo pega pelos chifres o processo atual e dobre o Poder para o seu lado de forma inédita na história brasileira. Temos uma chance de limpar o poder politico de suas influências deletérias e ajustar a sociedade brasileira numa direção mais justa e equitativa.

As peças estão na mesa. Cabe aos peões decidir se querem continuar sendo bucha de canhão dos reis, rainhas e bispos ou eliminar seus opressores do tabuleiro e criar as novas regras do jogo.

Só mais Democracia pode salvar a Democracia; apenas mais Política pode salvar a Política.

Sobre a Convivência Humana

Viver em sociedade requer uma elevada dose de tolerância. Estamos sempre em contato com pessoas com objetivos, personalidades e formas de enxergar o mundo de maneira bastante diversa. Os grupos sociais também são completamente diversos com suas formas de pensar e de agir; todos eles possuem uma cultura própria, com seus costumes e suas formas de se relacionar e organizar suas comunidades. O que vemos no decorrer da história é o esforço da humanidade para conseguir conviver neste pequeno e valioso pedaço de rocha que é o Planeta Terra.

Mas também encontramos o extremo oposto, a tentativa de sociedades, líderes e grupos tentando dominar e destruir os outros através das guerras, da escravidão e da opressão.

Tudo isso nos mostra que os valores da tolerância e da boa convivência devem ser cultivados e preservados. A história das nossas sociedades prova que as consequências da intolerância são altos demais e que, se quisermos ainda permanecer neste mundo e desfrutar do que nele há, a convivência e a tolerância para com o outro deve conquistado e cultivado.

Os casos de agressões que ocorrem tanto na escola quanto fora dela (no trânsito, na família, no trabalho e na igreja) é um exemplo de como é difícil viver em sociedade, viver em grupo, regular nossas pulsões individuais em prol de algo maior, que está acima de nós, que existia antes de nós e vai continuar existindo mesmo depois que deixarmos este mundo, isto é, a Sociedade, pois é ela que nos acolhe e protege, é nela onde desenvolvemos a virtude da vida cívica e onde nossas potencialidades são desenvolvidas.

Sim, viver em sociedade é onde se realiza o Humano; e a única forma para que isso funcione é praticando a tolerância e a boa convivência.

Mas como isso seria possível?

O caminho possível é a resolução dos conflitos através do diálogo, do debate e da não violência. Em mundo repleto de guerras, onde a paz se tornou algo raro, lutar pela boa sociedade é um imperativo de cada um de nós.

Devemos também ter em mente que na sociedade, como na física, toda ação tem uma reação. Todos os nossos atos que empreendemos enquanto indivíduos tem consequências imprevistas tanto sobre os que estão a nossa volta, quanto os que estão perto de nós, e quanto aos que estão bem longe. Cabe a nós tomarmos cuidado com a forma como escolhemos agir e quando iremos agir. Não somos indivíduos soltos no mundo e auto suficientes, estamos inseridos numa rede de sociabilidade que abarca tanto a nossa comunidade, cidade, escola, estado, país e mundo.

Se a violência fosse uma saída viável para os conflitos humanos o mundo seria uma maravilha, e nós sabemos que não é.

Portanto, pratiquemos o diálogo e a tolerância. Devemos reconhecer o outro como portador de direitos, como um igual, como alguém merecedor tanto quanto nós do melhor que podemos oferecer, que é a nossa civilidade e nossa solidariedade.

Maquiavel e a República

maquiavelUma das maiores contribuições do liberalismo politico, não confundir com liberalismo econômico, para a modernidade foi o estado constitucional e a liberdade politica individual. Segundo André Singer, no texto Maquiavel e o Liberalismo: a Necessidade da República (2006) o liberalismo necessita de um outro elemento para existir, que é a participação política.

Os escritos de Maquiavel, principalmente os Comentários sobre as Primeiras Décadas de Tito Lívio, podem oferecer boas pistas sobre como superar a contradição entre liberdade individual e o Estado. Para ele só é possível escapar desse paradoxo através do exercício da Virtú, isto é, da virtude cívica e da participação republicana.

Num texto que escrevi já há algum tempo (leia aqui), apresentei os caracteres gerais da doutrina politica do florentino em O Príncipe. O exercício do poder deve ser manter a ordem e a paz, eliminar as pressões externas e as dissenções internas. O líder politico deve ter a capacidade de ler o fatos, reunir adeptos por uma causa comum e coragem de executar as ações necessárias para alcançar um objetivo determinado e aproveitar as oportunidades trazidas pelas rodas a Fortuna.

Sem embargo, o nascimento de um estado nacional provém da violência, de um líder capaz de submeter as facções internas e pacificar as fronteiras instituindo a ordem e a paz.

Mas, passado este processo, um estado só pode se manter não pela violência, mas pelo exercício da virtude cívica dos seus cidadãos. A gênese e dinâmica da politica, então, provém de um paradoxo, se foi necessário um ato de violência para a fundação do Estado, ele só pode se manter enquanto tal como uma república, isto é, como um lugar onde os cidadãos exerçam a virtude da coisa pública, participando ativamente das discussões e exercendo cargos públicos que estejam sob a supervisão dos cidadãos, considerados iguais pela lei, além de defender um equilíbrio entre as diferentes facções e a liberdade de opor-se a elas de maneira pacifica.

Tal reflexão está de acordo com a sua condição de cidadão de Florença, uma cidade com larga tradição republicana, embora no momento em que Maquiavel escreveu sua obra ela esteja sob o regime monárquico, e em sintonia com a tradição a historiografia italiana, para quem o momento de decadência do Mundo Romano começou quando ele deixou de ser uma república para tornar-se um império.

Considero estas reflexões do florentino como muito a frente de seu tempo. É surpreendente que em pleno século XVI, num momento em que as monarquias absolutas estevam ganhando cada vez mais força e quando o surgimento do poder absoluto dos reis marcavam um afastamento intransponível entre os súditos e os detentores do poder estatal, ele já aponte para a necessidade de aproximação entre o povo e o poder como forma de preservar a saúde do poder politico.

Aqui entramos na maior contribuição do liberalismo para a modernidade, ou seja, a liberdade individual, entendido aqui como a liberdade do cidadão livre, e a liberdade política. Estes são dois legados que precisam ser preservados e combinados com o liberalismo social caso queiramos uma sociedade mais justa.

Não sou a favor do liberalismo econômico, mas simpatizo com a proposta de Norberto Bobbio, a de um socialismo temperado com o que de melhor o liberalismo deu para o mundo: sua liberdade individual, social e politica.

Precisamos tomar os ensinamentos de Maquiavel para pensarmos os rumos que o Brasil está tomando. As políticas públicas e os atos dos governantes precisam estar sob a mais cerrada vigilância dos cidadãos; devemos lutar pela liberdade de se manifestar e se opor ao governo sem sermos presos como terroristas; devemos lutar por um modelo de estado que esteja a altura de uma sociedade plural como a nossa; devemos lutar pelo poder político para saná-lo de todas as suas distorções e a única maneira de fazer isso é uma aproximação cada vez maior entre poder e povo.

Em tempos de crise, ler e reler Maquiavel pode nos dar respostas para muitas das questões do nosso tempo.