Crônica: Flores Sobre o Asfalto

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Fonte: Jornal A Crítica

As grandes cidades são paradoxais; ao mesmo tempo que podem prometer aventura, mudança e liberdade, também são o lugar onde o homem se anula, perde sua subjetividade diante da maré uniformizadora do mundo moderno, torna-se um número e uma parte insignificante da cifra que alimenta esse sistema engolidor de pessoas.

Perdidos em meio ao asfalto, ao concreto e às ruínas acinzentadas que se erguem contra o céu fumacento, vivemos completamente tragados por este monstro indescritível que, conforme já tinha dito Marshall Berman, ameaça destruir tudo o que somos e o que um dia poderíamos chegar a ser.

Entretanto, mesmo em meio ao concreto, ao piche, ao asfalto e ao pálido cinza cadavérico que nos tinge, a vida parece não se render; a natureza, mesmo tão destruída e mal tratada por essa espécie errante e ingrata, se rebela contra a escuridão e emerge mostrando sua força.

Vi essa força da natureza se rebelando contra a decadência nos ipês que passaram a crescer nos canteiros centrais da Avenida Djalma Batista, em Manaus (leia aqui). Uma das ruas mais movimentadas da cidade — veias putrefactas que vomitam milhares de carros por dia, parecendo pus sendo exalado de uma ferida. As flores tingidas de branco, amarelo e roxo criavam um contrate perfeito entre a natureza viva e a natureza morta e artificial de uma sociedade estagnada e decaída.

Mesmo em meio ao cinza, asfalto e concreto a natureza resiste. Talvez seja um recado de que, apesar de tudo, sempre haverá esperança.

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Resenha: As Coisas do Porão, de Rafael Elfe

capa-ep-coisas-do-porao-1400x1400.jpgMuitos dizem que a música popular brasileira está em franca decadência. Artistas como Pablo Vittar, Anitta, cantores (as) desafinados de funk e todo aquele batalhão de duplas e cantores sertanejos com letras pouco elaboradas e melodias feitas para ouvidos preguiçosos, parecem ser a prova irrefutável desta safra ruim.

Mas essa visão pessimista não passa de um grande equívoco. Há muita coisa boa acontecendo na música nacional: Benjamin, Silibrina, Eliana Printes e Rafael Elfe são apenas uma pequena amostra da vitalidade da nossa música atualmente.

Coisas boas estão ai, só que não chegam para o grande público. Basta perder a preguiça, não mais aceitar o que a indústria cultural quer nos enfiar goela abaixo procurar um pouco.

Escutando o novo trabalho deste carioca, As Coisas do Porão, lançado em 2017, percebe-se que temos diante de si um artista talentoso, capaz de transformar o cotidiano em poemas acompanhados de melodias bucólicas e populares — o que faz com que este musicista seja classificado como folk, mesmo que ele rejeite este rótulo, preferindo o que músico popular. Notei em suas músicas influências de Raul Seixas, Bruce Springsteen, Belchior e Bob Dylan, tudo colocado de maneira orgânica, sem forçar a barra.

Em seu mais recente trabalho Elfe nos brinda com belas músicas como Seu Pó nas Coisas, a bucólica e singela Cimo do Outeiro e as carregas de critica social Capetalismo e Do Crãnio de Um Fascista Nascerá Flor. Também destaco minha preferida do disco Comentário a Respeito do que Sou.

Disco recomendado para quem gosta de canções acústicas, poéticas e está a procura de vida inteligente na música atual brasileira.

 

Crônica: Tarde no Detram

Depois de ter pagado quase 800 reais de IPVA fui no Detram retirar o novo documento do carro. Chegando lá, descubro que precisava do documento antigo e xerox, bem como dos comprovantes de residência com original e cópia; sabe-se lá para o quê eles precisariam disso. Respirei fundo e fui providenciar todos os documentos. Quando volto, a atendente pergunta se eu paguei toda as taxas, eu respondo que sim, que tinha pagado tudo à vista, sem parcelamento. Então ela me disse que além do Imposto Veicular, eu precisava ter pagado outras duas taxas, ou seja, para eu poder pagar o referido imposto, eu deveria ter pagado outros dois de 140 reais. Peguntei, já suando de raiva, se eu poderia pagar naquela hora as taxas que faltavam e resolver tudo. Ironicamente, fui informado de que o funcionário responsável por isso não estava e que eu só poderia pagar em bancos do Bradesco e a confirmação de pagamento só cairia em 24 horas.

É uma situação kafkiana eu ter que pagar dois impostos para depois poder pagar outro, ser obrigado a pagar mil reais anuais de IPVA enquanto quem tem jatinho particular pagar quase nada, ter de trazer cópias e originais de documentos cujos dados eles já sabiam, apenas ter como opção de pagamento um banco que é um dos piores em atendimento e, em troca de tanta rigidez e taxas absurdas, ter ruas e estradas esburacadas que me dão prejuízo quase mensal.

A Velha Direita Não é Centro

Por Marcelo Fantaccini Brito

As eleições estão chegando, temos que combater Bolsonaro, mas também temos que combater outro mal: o discurso da velha direita, que está se dando o nome de “centro”. De acordo com este discurso, propagado por FHC, grandes empresas de mídia e bancos, haveria candidatos de “centro”, como Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Rodrigo Maia, que seriam o caminho sensato entre os “extremos”, representados na direita por Jair Bolsonaro e na esquerda por Ciro Gomes, Guilherme Boulos, Manuela d’Ávila e talvez Fernando Haddad. De acordo com este discurso, os candidatos desse “centro” seriam os mais seguros para a democracia.

Este discurso é desonesto e completamente distante da realidade por três motivos:

1) Geraldo Alckmin, Henrique Meirelles, Álvaro Dias e Rodrigo Maia são direita, não são centro. Representam o 1% do topo da pirâmide social. Não é só porque existe alguém mais à direita, como Bolsonaro, que a direita deixa de ser direita. Seria a mesma coisa que chamar o Boulos de candidato de centro porque existe um candidato do PSTU. A única candidata realmente de centro nesta eleição é a Marina Silva, e talvez o próprio Ciro Gomes. 

2) O candidato da velha direita rebatizada de centro não representa a defesa da democracia porque representa a coalizão de apoio a um governo sem voto, que surgiu com o propósito de implementar o programa de candidatos derrotados na eleição de 2014, que inclui a precarização das relações de trabalho e o congelamento do investimento no social, programa que dificilmente venceria uma eleição. Os candidatos que ficaram no lado da democracia em 2016 foram Ciro, Boulos, Manuela e Haddad 

3) Nivelar Bolsonaro com Ciro, Boulos, Manuela e Haddad como extremos é canalha e ainda ajuda a relativizar Bolsonaro. O ex-capitão defende torturador, já fez declarações racistas, machistas e homofóbicas, pretende acabar com direitos dos trabalhadores. No lado de Ciro, Boulos, Manuela e Haddad, não existe qualquer sinal de extremismo. Ciro defende uma política fiscal bem austera, pretende acabar com o teto geral, mas pretende manter algumas despesas sob o teto, está procurando manter mais contato com empresários do que com sindicatos e movimentos sociais, está querendo ficar cada vez mais distante do rótulo de “candidato de esquerda”. Boulos e Manuela defendem a agenda social-democrata clássica: reforma agrária, reforma urbana e reforma tributária progressiva. Haddad fez gestões no Ministério da Educação e na Prefeitura de São Paulo que nada lembram extrema-esquerda: sempre procurou ter contato com empresários, nunca rejeitou OS na saúde, PPP e terceirização das creches.

O discurso de que o candidato do PSDB/PMDB/DEM seria “de centro” entre os “extremos” representados por Bolsonaro e pela esquerda é estapafúrdia e desonesta porque não há qualquer discurso sensato e honesto que sirva para levantar candidaturas que representem a continuidade de um governo fracassado com 4% de aprovação.

“Jornalistas” que chamam os candidatos do PSDB/PMDB/DEM de “candidatos de centro” não são jornalistas profissionais. São marqueteiros do PSDB/PMDB/DEM disfarçados de jornalistas.

Crônica: Carta a uma Amiga Distante*

Por Tenório Telles**

Boa companheira,

O mar está inquieto e os ventos sopram. Estou comigo e sigo, apesar dos temores e das dúvidas. É imperativo seguir, embora o corpo fraqueje e o coração hesite. Lá fora a chuva molha o tempo e a terra. Molha também o meu ser, amenizando a minha ânsia. Apesar da inquietação, mantenho-me sereno, resistindo a tudo; sem deixar o desespero tomar conta do meu ânimo. A morte ronda tudo: os sonhos, a política e o convívio social.

*Retirado do livro Viver, de 2011.

** Escritor, poeta e editor amazonense.

Max Weber e a Política

WeberPensar os atuais momentos de crise tem sido uma das tarefas mais difíceis para quem se propõe a interpretar de maneira honesta e com compromisso público o Brasil. Um bom começo para isso seria tomar os pensadores clássicos como ponto de partida; não para engessar o pensamento com categorias que muitas vezes podem parecer distantes do nosso tempo e espaço, mas refletir de forma crítica, ou seja, apropriando-se de suas reflexões que podem nos ser úteis para interpretar a multiplicidade de forças sociais e politicas que conformam o momento atual.

Um desses pensadores, pelo menos para mim, é Max Weber (1864-1920), cujas reflexões a respeito do lugar da política e do parlamento são ainda válidas para pensar o mundo atual, pois boa parte do arranjo institucional político contemporâneo, baseado no liberalismo político, teve nele um dos seus formuladores e influenciadores.

O sociólogo alemão vislumbrava o fomento do parlamento como uma forma de limitar a atuação das burocracias estatais. Defendia que sua atuação deveria ser ativa, fiscalizando a ação do poder executivo, e não se resumisse a intrigas e desavenças de líderes demagógicos, mas que proporcionasse a ascensão de líderes ativos e selecionados por sua competência. Portanto, a democracia caracteriza-se como uma forma de organizar a luta pelo poder entre as elites políticas.

Estudioso da burocracia, mostrou como ela se desenvolve em conjunto com outras esferas da sociedade. Para limitar seu avanço defendeu a submissão do aparelho burocrático à dinâmica política; assim seria possível a supervisão da administração e a mediação entre líderes e liderados.

A democracia, então, limita-se a ser um processo de seleção de líderes políticos, onde a participação política não se torna um ponto fundamental. O povo apenas participaria de forma controlada, em intervalos relativamente longos, em virtude da sua natureza passional e volúvel; o parlamento seria um corretivo diante dos excessos populares. Conforme destaca Lorena Monteiro, no artigo Teorias da Democracia e a Práxis Política Brasileira: limites e possibilidades, Weber defende um modelo de democracia minimalista e procedimental, desconsiderando contextos de desigualdade de recursos escassos e dominação entre grupos.

Outro ponto a ser considerado era sua preocupação em equilibrar a ética da responsabilidade com a ética da convicção na ação política. A primeira seria a consciência do governante diante do bem-estar de toda a nação e da ponderação dos mais variados interesses que são formados na sociedade e são espelhados na disputa parlamentar. A segunda seria um conjunto de preceitos ideológicos e morais que formam os líderes políticos e que devem ser perseguidos independente dos resultados ou das consequências.

Penso que o modelo de limitação da participação popular por meio de dispositivos institucionais esteja superado, bem como a valorização do parlamento como único meio de expressão de interesses. Digo isso, pois não se pode pensar nas sociedades atuais, com sua grande pluralidade cultural, politica e social, se satisfazendo apenas por meio da representação parlamentar e seleção de líderes genuínos. Faz-se necessário democratizar a democracia aumentando canais de participação direta, seja através de consultas públicas ou por meio de canais de expressão popular e demandas sociais.

Sem embargo, só podermos ter um Parlamento ativo se a população, fonte de toda soberania, participar e fiscalizar ativamente seus trabalhos. Não há outro jeito.

O equilíbrio problemático entre ética da convicção e ética da responsabilidade ainda tem muita relevância atual, principalmente diante da atuação de grupos progressistas comprometidos com a reforma social*. Como podemos equilibrar compromisso e equilíbrio institucional com a reforma que levem em conta o social? Esse compromisso, diante dos últimos acontecimentos, ainda é valido ou se esgotou? Vale a pena pressionar a partir de fora ou tomar o Estado por dentro?

Precisamos estudar esse liberal chamado Max Weber para entender como as democracias contemporâneas, imperfeitas e fonte de desigualdades, funcionam e para ter novos insights para repensar nosso modelo atual.

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*Sou partidário da mesmo posição de Lênin: só pode haver militância se ela estiver acompanhada de intenso estudo teórico. Por isso me coloco contra esse unilateralismo do “lugar de fala” que, sem intenso estudo não passa de desabafo e achismo. Só quando colocamos nossa realidade concreta em relação com o contexto maior é que saímos da pseudo concreticidade e alcançamos a raiz do fenômeno social.

O Lugar do Mercado numa Sociedade Democrática

Economia Por: CarolinaNesses mais de dez anos estudando cientificamente as relações sociais e as consequências da modernidade sobre a coletividade, aprendi a desconfiar de tudo, principalmente das correntes de opiniões polarizadas nesses tempos atuais. Isso não significa, porém, neutralidade, até porque ser neutro diante de valores e correntes culturais é impossível. Não se trata de ser um suposto isento que acredita saber olhar acima de tudo e todos. Mas significa que, diante de um mundo de injustiças, saber posicionar-se de maneira consciente e sensata e, de vez em quando, tentar olhar acima da luta facciosa para escapar do dogmatismo e da cegueira intelectual.

Isso, acredito, é uma das coisas mais difíceis, isto é, defender seu ponto de vista de maneira heroica sem resvalar para a moral de rebanho.

Nos intensos debares a que estamos assistindo diante da anomia das instituições brasileiras (e elas algum dia deixaram de ser anômicas?), um dos assuntos que mais tem assolado a luta entre liberais, socialistas e sociais-democratas é a relação estado e sociedade. Qual deve ser o lugar o mercado dentro da sociedade atual?

Liberais vulgares como Rodrigo Constantino, a dita equipe econômica de Jair Bolsonaro, anarco capitalistas em geral e o Movimento Brasil Livre defendem uma espécie de centralidade do mercado sobre a sociedade. As relações mercadológicas seriam vistas ai como a salvação para os problemas brasileiros. Basta inserir setores problemáticos dentro da lógica oferta/demanda que, paulatinamente, nossas distorções desapareceriam.

A pedra motor dessa ideologia está no liberalismo clássico, para quem a economia, vista por eles com um sistema de trocas voluntárias, é o fenômeno fundador do social. Somos indivíduos atomizados a procura de cada vez mais lucro e menos prejuízo. Esse pensamento está presente em mestres como Locke, Mill, Tocqueville e Smith — com algumas nuances entre eles e muito mais complexo e sutil que nas deploráveis figuras do nosso vulgar liberalismo tupiniquim atual.

O grande problema desse doutrina politica e social é que o mercado não é uma instância fundadora do social e a economia não pode ser tratada como a centralidade da vida coletiva. Aqui me aproximo do sociólogo conservador Êmile Durkheim, para quem a sociedade é formada por uma solidariedade que sedimenta os laços sociais, fazendo com que os homens vivam juntos e não desagreguem e lutas intestinas e competição desenfreada; sem embargo, a sociedade é uma força moral.

Outra objeção que tenho a respeito da ideologia do liberalismo vulgarizado e extremado, não confundir com a rica tradição do liberalismo clássico, vem a partir da leitura de Max Weber, no seu livro Economia e Sociedade. A economia é um subsistema social entre outros, como a politica, a família e o Estado, e todos eles se influenciam tanto mutuamente quanto influenciam a ação dos indivíduos.

Elevar a economia ou o mercado, como preferir, como lugar central e como panaceia dos problemas brasileiros é um erro.

O mercado é essencialmente desagregador. Não se trata de demonizar o potencial das chamadas trocas voluntárias, mas a capacidade autorregulatória do subsistema econômico é muito limitada, isso significa que, caso não regulada por uma instância superior, seja ela o estado ou alguma outra esfera de decisão democrática tanto entre empreendedores quanto trabalhadores, ele se torna basicamente predatório e desumano.

Já existe uma literatura na área da história e das ciências sociais farta sobre as consequências deletérias da instalação forçada do capitalismo nas sociedades tradicionais — destruição de culturas e civilizações milenares ou sua incorporação subalterna na lógica do capitalismo moderno.

O lugar do mercado numa sociedade democrática deve ser o de regulação sob uma instância superior que leve em conta as demandas dos atores envolvidos e um forte estímulo e proteção para os pequenos e médios empreendedores.

Não se trata de Estado Mínimo ou Estado Máximo, mas de Estado Necessário. Penso que essa é a única forma de fazer o subsistema econômico servir aos interesses da sociedade e não o contrário.