A nostalgia das Lojas de Discos

Uma das mais vivas lembranças que ficaram gravadas em mim foi o ato de consumir música ao estilo antigo, indo nas lojas de discos e me deliciando com a mídia física que possuía todo um charme hoje inexistente em tempo de streaming.

O primeiro disco que comprei foi em 1996: Domingo, dos Titãs. Eu tinha doze anos na época. Desde então não parei de consumir música. Posso dizer que foi nessa época que comecei a desenvolver a autonomia cultural em relação aos meus pais. Comecei a rejeitar os monótonos artistas do gospel evangélico, cheios de choradeira e declarações de culpa, para me integrar completamente na música dita secular, principalmente o meu amado rock e heavy metal, cheio de empolgação e energia que nos convidava a experimentar o mundo em sua totalidade e não a rejeitá-lo como algo impuro e condenado.

O que sobrou da influência musical dos meus pais foi apenas o gosto por Jazz e música clássica.

Ir nas lojas de discos era uma experiência semelhante a ir nas livrarias. Eu me dirigia direto para a sessão de rock internacional e ficava passando os olhos a procura do disco desejado. Muitas vezes eu não tinha ideia do que levaria, apenas queria aumentar minha coleção e ter o prazer estético que alguns minutos de boa música poderiam me proporcionar. Aquele mosaico de capas, cores, nomes e logotipos me fascinavam. A felicidade estava ali, ao alcance da mão, e do bolso…

Quando chegava em casa abria a embalagem com todo o cuidado, colocava o disco para tocar e ficava analisando o encarte, sentindo o cheiro delicioso do púbere papel e comendo com os olhos os espetáculos de arte visual que eles representavam naquela época. Sabia a ordem das músicas, seus nomes e a formação da banda durante sua gravação. Guardava meus discos com um cuidado de arqueólogo diante de um fóssil raro; eram meus tesouros em forma arredonda e achatada. Cada um deles tinha uma história e cada um deles me transmitia uma sensação única.

Ouvir música naqueles anos era para mim muito além de ser um passatempo, era uma experiência estética. Eu ficava atento a cada tempo, harmonia e acorde, era como ver um filme em forma de som ou estar imerso em um grande espetáculo onde os grandes músicos internacionais faziam só para mim um grande concerto privado.

Hoje em dia, final dos anos dez do século XXI, a magia de ouvir música mudou completamente. As capas não tem mais a mesma importância de antes, os encartes novos e com aquele cheiro característico praticamente deixaram de existir e a noção de realmente ouvir música, como uma peça completa de canções ordenadas, praticamente deixou de existir, estando restrita apenas a alguns aficionados mais velhos; muitos deles acima dos trinta anos, como eu.

Ouvir música hoje virou algo coadjuvante para executar outras atividades, como fazer exercícios, estudar ou arrumar a casa. Ao invés disso, deveria ser um ato que envolve a concentração total do ouvinte para degustar aquela arquitetura em forma de sons.

Também pudera, em tempos líquidos, não há mais espaço para dedicação exclusiva a algo que se pretenda duradouro como a música. Consumimos a nobre arte agora na internet, sem saber o nome das canções e apenas capitando de forma colateral suas nuances.

Sei que vivemos num tempo onde nada deve durar e que aquilo que existia já foi revolucionado pela produção capitalista, assim como o que existe hoje também o será. Contudo, não posso negar o vínculo afetivo que criei com aquela época, guardiã de certas práticas que faziam sentido para mim e de certa forma davam significado ao meu estar no mundo.

A magia das lojas de discos e da música em mídia física se apagou. Como toda boa lembrança que nos fica no fundo do coração, cabe rememorá-la com carinho para refletir sobre o presente e sobre o futuro.

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Quem Julga os Julgadores?

Um dos maiores dilemas que as democracias ocidentais enfrentam no século XXI reside no surgimento de ideias autoritárias que procuram atacar e desacreditar às instituições. No Brasil, a falência do Estado se combina com a crise dos interpretes da constituição que passam a compreender a carta magna baseados não nos preceitos claros da liberdade individual e no amplo direito a defesa, mas no casuísmo eleitoral e no crescente autoritarismo do Estado brasileiro.

Diante da anomia do nosso sistema judiciário, fica a pergunta: Quem vigia os Vigilantes da Constituição?

O artigo Quem coloca guizo nos semideuses do supremo? Escrito por Marcelo Oliveira, Douglas Ribeiro e Victor Costa, publicado no número 74 da revista Insight Inteligência, apresenta algumas interessantes reflexões a respeito e propõe uma saída democrática para o problema do autoritarismo do nosso Estado. 

O autoritarismo penal, apontam os autores, se torna cada vez mais explicito por meio da Lei Antiterrorismo (13,260/2016) e na tendência de se inverter no processo penal a presunção de inocência para a presunção de culpabilidade através da restrição do habeas corpus, na extinção dos embargos infringentes e na execução imediata da pena quando houver um suposto abuso do direitos de recorrer. Tudo isso atropela a tradição liberal e democrática do Constituição de 1988 de respeito aos direitos individuais.

Montesquieu, no livro Do Espirito das Leis, apresenta uma reflexão sobre a tensão entre a segurança e a liberdade do cidadãos. Para o autor, que é citado no artigo: “Quando a inocência dos cidadãos não está garantida, a liberdade também não está”. Em outras palavras, o direito dos cidadãos pode ser ameaçado pelo poder arbitrário do Estado ao considerar que todos são culpados já de antemão sem a garantia da legitima defesa.

Contra estas ideias de garantias dos direitos individuais é que se insurgem a ideologia do autoritarismo, baseado no fortalecimento do executivo e no punitivismo estatal, que considera qualquer cidadão suspeito ao eleger certos grupos sociais como inimigos públicos: políticos de oposição, professores, artistas e outros tipos de intelectuais.

Contra este processo de anomia da justiça brasileira, os autores se aproximam de Norberto Bobbio ao propor a discussão da transparência do exercício do poder político nas democracias. Todas as decisões e atos devem estar sujeitos ao escrutínio público e não podem estar acima da crítica cidadã.

O judiciário não pode mais se comportar como um estamento fechado acima do bem e do mal, cujas decisões e práticas estariam acima de qualquer crítica. Onde não há a luz da transparência e do debate público, reina o obscurantismo e o abuso de poder.

Os últimos capítulos da Vaza-Jato são tipo ideais deste processo. Inebriados pela fama e por sua lógica de casta, atropelaram a ordem legal, investigaram e condenaram por suas preferências políticas.

Precisamos abrir a caixa preta do judiciário. Os julgadores e os guardiões da Constituição devem ser vigiados pela própria sociedade. Sem isso não há democracia possível.

 

 

O Novo Capítulo da Crise Brasileira

As revelações do site The Intercept nos jogaram em mais uma etapa da crise. Nossas instituições, mais uma vez, estão sendo testadas até níveis intoleráveis. O pior é que o governo atual não tem a menor capacidade de resolvê-la, ele não só é parte da crise, como também precisa dela para se manter. Apenas num contexto de tensão permanente é que Bolsonaro consegue funcionar.

Agora, para além do que os vazamentos significam politicamente e juridicamente para o ex-Juiz Moro, eles revelam algo muito mais grave, que é a postura pouco transparente e republicana que tem o estamento togado — o que coloca em cheque a neutralidade e a imparcialidade que a justiça de um país liberal e democrático como o Brasil precisa ter, como apontou Lynch (leia aqui). Diante desse cenário de flagrante anomia da justiça, temos que nos perguntar como fica o cidadão comum diante de uma instituição notadamente problemática.

O sociólogo conservador Oliveira Vianna escreveu acertadamente que no Brasil o cidadão comum era refém do arbítrio das oligarquias locais. Sem ter um poder capaz de protegê-lo, as elites abusariam impunemente dos cidadãos. A conclusão a que chega o autor é pessimista — jamais seremos uma democracia de tipo americano ou inglês.

Luciana Zaffalon, em sua tese A Espiral Elitista de Afirmação Corporativa (leia aqui), estudou a fundo o funcionamento do judiciário em São Paulo e chegou à conclusão de que há uma relação de favorecimento mutuo entre os três poderes (executivo, legislativo e judiciário). Desta forma, os freios e contra pesos constitucionais que protegeriam o cidadão comum contra o arbítrio do Estado em contexto brasileiro se transformam em mera ilusão.

O resultado é o abuso dos que detém o poder do Estado (elites togadas, política e econômicas) sobre a população.

Nossa justiça é, portanto elitista, fechada em si mesma e funciona como uma casta intransponível.

Se a caixa preta do financiamento de campanha e da aprovação de projetos de lei pelo executivo foi aberto e mostrou um escandaloso esquema de propinas e subornos, agora precisamos abrir a caixa preta do judiciário brasileiro e expor as entranhas da relação entre os órgãos da república. Se isso não acontecer, será a legalização do arbítrio e do abuso, e a prova de que, infelizmente, Oliveira Vianna estava certo — jamais seremos uma democracia madura, pois aqui o que reinaria é o mandonismo das facções de aldeia.

Os envolvidos no escândalo são os autores de mais este capitulo da crise brasileira. Ao desrespeitar o processo legal, destruíram a Lava-Jato, desperdiçaram dinheiro, trabalho e tempo do Estado em prol do projeto de poder regido pela ideologia do ativismo judiciário, que nada mais é do que uma tentativa de destruir a política. Assim, a arte da política, vista como o debate de ideias, disputas de projetos e ideologias, concorrência entre os mais variados interesses que se formam pela pluralidade de uma sociedade livre, se transforma numa questão formal e técnica. É um projeto de poder autoritário e conservador.

Estamos diante de um novo dilema. O correto seria anular o julgamento e refazer todas as provas. Mas se isso ocorrer a sociedade brasileira vai ser jogada numa nova onda de polarização e conflito. Se tudo ficar como está, só reforçaria os vícios do processo. Um meio termo não vai satisfazer nenhuma das partes. O cenário é trágico e o STF não tem capacidade de superá-lo.

Meu maior receio é de que a tensão chegue a um ponto em que ocorra uma ruptura autoritária.

Silibrina: o melhor do jazz brasileiro

Uma das maiores besteiras que costumamos escutar é que a música atual é uma porcaria e que os músicos de hoje não se igualam aos de ontem. Afirmação rasa de quem não conhece a música brasileira em sua profundidade e acredita que tudo se resume ao que toca nas rádios.

Acontece que a música brasileira é tão plural que não cabe na mediocridade do mainstream, dominado por artistas cuja musicalidade fica entre o medíocre e o ruim. Não quero com isso vomitar regras do que as pessoas devem ou não escutar, para mim temos o direito de consumirmos o que quisermos. Não simpatizo com gente que se acha acima do bem e do mal e acredita ser o messias capaz de guiar o brasileiro em busca de uma inexistente alta cultura— de Messias, Mitos e Heróis quero distância…

Mas não há dúvidas de que, quando se trata de música brasileira, existem mais coisas entre o céu e a terra do que podem pensar a vã filosofia de críticos de araque, das rádios e da televisão. A riqueza e a pluralidade existem, apenas precisamos ir nas profundezas; Rafael Elfe, Céu, Vanessa da Matta e Karine Aguiar estão ai para provar.

Fazendo um competente jazz instrumental com influencias brasileiras, coloco dentro deste grupo o Silibrina, que lançou recentemente o álbum Estandarte (2019) seguindo com a mesma qualidade iniciada em seu primeiro lançamento O Raio (2017). O sexteto, liderado pelo pianista e principal compositor Gabriel Nóbrega, apresenta músicas instrumentais da mais alta qualidade — um jazz com amplas influências de ritmos brasileiros, como o baião, o frevo e o maracatu. Tudo bem dosado, sem exageros, com todos os arranjos bem encaixados, formando um Todo onde o universal e o particular se cumprimentam, se juntam e nos brindam com uma ode à boa música.

Particularmente, gostei de todas as faixas, mas destacaria Frevo Maligno, Rochedo e Itamaracá.

Silirina é uma das gratas surpresas que provam como nossa música é de fato o reflexo da alma do povo brasileiro: miscigenado, regional, plural e multicultural.

Disponível tanto no Spotify quanto no Youtube.

silibrina_Estandarte

Bolsonaro e a via cesarista de governo

Escrevi num artigo anterior (leia aqui), que as caraterísticas mais importantes do populismo do século XXI são: o nacionalismo, que encobre as diferenças sociais sob o manto da pátria e nação; o personalismo do líder, materializado na dominação carismática; o justicialismo, baseado na revolta contra os abusos sofridos pelo cidadão comum; e o protagonismo dos fatos, isto é, a valorização do senso comum e das atividades práticas contra a vida intelectual e contra o saber sistemático.

Também falei sobre a existência de uma forte carga bonapartista, caracterizada pela ligação direta do líder, dotado habilidades extraordinárias, com o povo, que passa a governar por cima e para além das instituições.

Essa relação sem intermediação institucional dos eleitores com o chefe carismático e autoritário também foi estudada por Gramsci, que cunhou o termo cesarismo para explicar o momento em que os grupos sociais se afastam dos seus líderes e entram num estado de reivindicação intensa, o que ocasiona tanto crises de hegemonia quanto convulsões sociais.

Este processo de crise do Estado e das instituições pode resultar numa solução fascista, reformista ou carismática, ou seja, cesarista. Não há uma volta ao passado, mas uma espécie de revolução/ restauração, onde ocorre o avanço de alguns aspectos em relação à situação anterior, ao mesmo tempo em que as facetas principais do status quo se mantém.

Este cesarismo, aponta Gramsci, poderia tanto ser conservador quanto progressista, dependendo das forças políticas que triunfassem, tentando fazer avançar a História ou retardando ao máximo os processos de desencaixe da modernidade (leia mais aqui).

Não há dúvidas de que Bolsonaro possui amplos traços que o identificam com o bonapartismo, o populismo de direita contemporâneo e o cesarismo conservador. Se opõe à ciência ao saber sistemático, pois considera-o como idelogicamente enviesado (sic); é autoritário ao defender um pacto de força que esmague a oposição, identificada diretamente com o comunismo, não importando se a oposição é liberal, socialista ou moderada; seu bonapartismo se insere como um presidente que procura disseminar a ideia de ser um enviado de Deus para consertar o Brasil e governar  acima das Instituições, consideradas por ele como corruptas e subversivas; por fim, sua ênfase no governo a base do confronto, se colocando como um inimigo do status quo que deve ser destruído a qualquer custo.

A incapacidade do presidente de articular uma base viável para aprovar seus projetos força-o cada vez mais para a única coisa que ele soube fazer em trinta anos de vida pública: confrontar as instituições, a oposição e até mesmo sua própria base. Diante deste quadro, não admira que passe a perder cada vez mais apoio entre o eleitor médio, aquele que não é nem de direita, nem de esquerda e que se move a partir do pragmatismo do mundo da vida: emprego, saúde, segurança e preço dos produtos no supermercado (leia mais aqui).

Para tentar frear essa queda de popularidade, aposta num canal direto com sua base de eleitores mais fanáticos, que são cerca trinta por cento e que se mantém fiel a sua forma de governar: autoritários, viúvas da ditadura e segmentos expressivos de evangélicos pentecostais, estes, por sua vez, mais vulneráveis à propaganda de líderes carismáticos e supostamente ungidos por Deus (saiba mais aquiaqui). Demonizando as instituições e se desgastando cada vez mais, ele já possui uma boa desculpa para justificar seu fracasso: não fui eu, mas os políticos e a velha política que não me deixaram governar, explicação convincente para esta parcela do eleitorado que se mantém fiel ao seu cesarismo conservador.

Portanto, Bolsonaro se exime de governar para a totalidade da população brasileira, que possui uma grande pluralidade de modos de vida e de interesses, e aposta num segmento especifico para se manter no poder até 2022. Não se sabe se por burrice ou por sua própria visão de mundo, pois parece realmente acreditar que por ter vencido a eleição todos os brasileiros pensariam como ele, e não porque o eleitor comum queria punir o PT pelos seus erros e desejava uma resposta satisfatória à crise econômica e à corrupção.

O cesarismo conservador de Bolsonaro, em linhas gerais, se forma pela sua tentação autoritária de formar governo desprezando instituições consideradas por ele como comunistas que deveriam ser destruídas. Tenta retardar ao máximo a dinâmica social, destruindo o pouco de social democracia que havia no Brasil, com o fim da previdência solidária, com a financeirização completa do país, com a destruição do Estado brasileiro (veja mais aqui), com o incentivo à violência policial e à legalização da pistolagem no campo. Sem embargo, estamos vendo uma nova etapa da República, baseada no conservadorismo, no autoritarismo e no liberalismo vulgar.

Em regimes democráticos, principalmente o brasileiro, baseado no consenso, a estratégia do confronto é extremamente desgastante e sem chance de sucesso a médio e longo prazo. O impeachment ou o parlamentarismo branco já se torna um assunto na pauta da direita moderada, do centro e da esquerda.

Tenho absoluta certeza de que Bolsonaro, saindo por impeachment, renúncia ou pela vontade das urnas, não deixará saudades.

Game of Thrones, a Política e o Estado.

Uma das maiores séries de televisão chegou ao fim. Depois de oito temporadas e nove anos alimentando esperanças, ódios e discussões intermináveis entre os fãs, ela alcança sua conclusão como um autêntico fenômeno da cultura popular do século XXI. Sua trama complexa, violenta, pornográfica e imprevisível revolucionou a forma de se contar histórias e sem dúvida vai gerar fortes influências sobre produções posteriores.

Em artigo anterior que escrevi sobre a série (leia aqui), mostrei como a obra de George Martin, ao se inspirar nos acontecimentos da Guerra das Duas Rosas, também fazia um diálogo interessante com os ensinamentos de Nicolau Maquiavel e sua interpretação sobre a função do Poder e das qualidades que um bom príncipe deve ter para governar. Cheguei à conclusão de que, se o mestre florentino lesse os romances ou assistisse a série, diria que quem deveria ter o trono de Westeros seria quem pudesse acabar com a guerra e iniciar um ciclo duradouro de paz, independentemente de pertencer à família A ou B.

O fim do espetáculo também nos apresenta outra linha de interpretação além daquela que já escrevi, que é a necessidade do Estado e da Política para a vida em sociedade.

As disputas fratricidas, as guerras, as mortes, os genocídios, as traições e muitas outras atrocidades são a prova de como as disputas pelo Poder político, se não regidas por regras socialmente aceitas e por uma dimensão estrutural que regule estas disputas, podem ser extremamente danosas para o mundo da vida, principalmente para os mais pobres — a bucha de canhão preferida dos exércitos das grandes famílias e as principais vítimas dos massacres e da fome originada pelo grande moedor de carne humana que é uma guerra civil.

Thomas Hobbes, em seu clássico O Leviatã, afirma que, antes do Estado, a vida social era curta e violenta. Sem um Poder forte o bastante para impor a ordem, a morte e a guerra eram as únicas certezas. Dentro deste cenário, advoga a necessidade da mão forte de um Rei ou de uma assembleia de homens, uma república, para impor a paz e impedir que os cidadãos se matem.

 Jhon Locke, o pai do liberalismo, afirma que a função do Poder político é fazer com que os homens gozem dos seus direito naturais sem que sejam ameaçados por isso — são eles a felicidade, a propriedade e as suas riquezas. Retirá-los de uma época sem leis e fazer com que todos os homens respeitem os bens uns dos outros é a função da Estado para com a Sociedade.

Jean Jacques Rousseau, um dos principais teóricos da democracia participativa e importante pensador para as esquerdas, advoga que o Poder dever ser a expressão da vontade geral. A liberdade que todos usufruíam no estado de natureza é substituída pela liberdade do cidadão, onde todos entregariam seus direitos uns aos outros. Neste contexto de igualdade, todos deveriam participar ativamente da política procurando fazer com que o Estado se tornasse a expressão do bem comum.

Com o Estado surgem as leis que regulamentam a vida social e a disputa política. A luta pelo Poder se racionaliza, impede o uso da violência, que passa a ser controlada por dispositivos institucionais que coíbem os abusos e tipificam o certo e o errado. Essa instância superior impede que as facções em disputa resvalem para uma luta de todos contra todos.

Eis a função do Estado, que parece não haver na trama de GOT. Sem regras claras que regulem a sucessão e sem uma instância superior para impedir o derramamento de sangue, a guerra civil e a morte de inocentes torna-se inevitável. É apenas no fim da última temporada que vemos a criação de uma lei que possa regular a sucessão e impedir novas guerras; a monarquia deixa de ter um traço tradicional e se torna eletiva com o novo rei passando a ser escolhido pelas Côrtes Gerais, o que coíbe as chances de ascensão de um inapto em favor do mais preparado ou do mais experiente.

Neste momento há uma mudança significativa do exercício do Poder no Reino. A hereditariedade típica do tradicionalismo dá lugar à uma forma mais racional de escolha: monarquia eletiva. São os homens bons, nobres e mestres, os guias do Reino, que passam a ter a prerrogativa do voto na escolha do novo soberano. A política ganha novos contornos e se estabelece em novas regras para impedir o conflito.

Quando o Estado se institui e as regras do jogo passam a ser aceitas por todos é que se pode pensar em política com P maiúsculo — a busca pelo bem comum e a manutenção da paz e da segurança. Aquele que venceu vai governar segundo as regras do jogo respeitando os perdedores que, apesar de serem uma minoria, merecem ser ouvidos e preservados. Em vez de uma luta esganiçada entre facções se pode agora pensar em como tornar a vida melhor formulando políticas públicas, como foi mostrado na reunião do Conselho Real no último episódio. As preocupações com futuras conspirações e golpes dão lugar às questões como obras e saúde públicas e abastecimento de alimentos.

Só agora é que Westeros parece estar pronto para um período de paz e prosperidade.

Em tempos em que parece estar na moda criticar a função social do Estado e desmontá-lo em prol de interesses escusos, bem como de demonizar a política, quando na verdade ela é, no dizer de Edmund Burke, a busca pela resolução de problemas concretos, GOT nos dá uma alerta sobre as consequências da não política.

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A política é a arte de governar, de propor soluções aos problemas da pólis e de saber conciliar e respeitar interesses divergentes.

Esta, de fato, é a lição que Game of Thrones nos apresenta, sem uma dimensão que regule a vida social, iremos resvalar para o extremismo, para a polarização e para a guerra civil.

Precisamos do Estado e precisamos da Política para que a vida seja possível.

Vinte anos de The Gathering, clássico do Testament.

220px-Testament_(band)_-_The_Gathering_(album)A primeira vez que ouvi Testament foi em 1998, quando tinha quatorze anos. Foi por intermédio de um amigo, hoje já falecido, que me presenteou com uma coletânea pirata do grupo. Lembro-me daquele Thrash Metal pesado, rápido, com altas doses de melodias nos solos e com os vocais marcantes do grande Chuck Billy. A consequência não foi outra, me tornei fã instantâneo, passei a acompanhar de perto a trajetória do grupo e foi Eric Peterson e sua guitarra pesada e vigorosa que fez aumentar meu interesse pelo instrumento.

Ainda em 1998 comprei o incrível Demonic e só foi em 2000 que pude adquirir incrível The Gathering, lançado um ano antes. Lembro-me de ter comprado o disco junto com o Brave New World, do Iron Maiden e com o We are, do Motorhead, todos lançamentos da época e hoje reconhecidos pelo público e pela crítica.

Mas The Gathering foi um impacto tão grande para mim que passei a considerá-lo um dos meus favoritos.

Todas as faixas são perfeitas, mas entre os meus destaques aponto DNR, que começa o álbum e possui uma linha de bateria incrível do grande Dave Lombardo, que participou das gravações; Down For Life, um thrash metal da velha escola, pesado e direto; a maldosa Eyes of Wrath, que possui um dedilhado sombrio e pegajoso; True Believer, clássica que dosa muito bem peso e melodia; 3 Days in Darkness, com sua letra impressionante e seus riffs inesquecíveis e Legion of The Dead, a mais brutal do disco, um death metal da mais alta qualidade.

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Eric Peterson: Mestre da guitarra e da composição.

O Testament lançou discos maravilhosos depois deste, como Formation for Dammation e Dark Roots of Earth, mas The Gathering ocupa um lugar destacado no heavy metal mundial. Arrisco dizer que está no mesmo patamar em qualidade de clássicos de outras bandas como Metallica e Slayer — talvez até maior… O grupo liderado por Chuck Billy e Eric Peterson merecia muito mais sucesso e reconhecimento por suas valiosas contribuições para a música pesada.

Longa vida ao Testamento do Thrash Metal.