Vinte anos de The Gathering, clássico do Testament.

220px-Testament_(band)_-_The_Gathering_(album)A primeira vez que ouvi Testament foi em 1998, quando tinha quatorze anos. Foi por intermédio de um amigo, hoje já falecido, que me presenteou com uma coletânea pirata do grupo. Lembro-me daquele Thrash Metal pesado, rápido, com altas doses de melodias nos solos e com os vocais marcantes do grande Chuck Billy. A consequência não foi outra, me tornei fã instantâneo, passei a acompanhar de perto a trajetória do grupo e foi Eric Peterson e sua guitarra pesada e vigorosa que fez aumentar meu interesse pelo instrumento.

Ainda em 1998 comprei o incrível Demonic e só foi em 2000 que pude adquirir incrível The Gathering, lançado um ano antes. Lembro-me de ter comprado o disco junto com o Brave New World, do Iron Maiden e com o We are, do Motorhead, todos lançamentos da época e hoje reconhecidos pelo público e pela crítica.

Mas The Gathering foi um impacto tão grande para mim que passei a considerá-lo um dos meus favoritos.

Todas as faixas são perfeitas, mas entre os meus destaques aponto DNR, que começa o álbum e possui uma linha de bateria incrível do grande Dave Lombardo, que participou das gravações; Down For Life, um thrash metal da velha escola, pesado e direto; a maldosa Eyes of Wrath, que possui um dedilhado sombrio e pegajoso; True Believer, clássica que dosa muito bem peso e melodia; 3 Days in Darkness, com sua letra impressionante e seus riffs inesquecíveis e Legion of The Dead, a mais brutal do disco, um death metal da mais alta qualidade.

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Eric Peterson: Mestre da guitarra e da composição.

O Testament lançou discos maravilhosos depois deste, como Formation for Dammation e Dark Roots of Earth, mas The Gathering ocupa um lugar destacado no heavy metal mundial. Arrisco dizer que está no mesmo patamar em qualidade de clássicos de outras bandas como Metallica e Slayer — talvez até maior… O grupo liderado por Chuck Billy e Eric Peterson merecia muito mais sucesso e reconhecimento por suas valiosas contribuições para a música pesada.

Longa vida ao Testamento do Thrash Metal.

 

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Conto: A Matança da Onça*

“No dia que matei essa gata/ Foi um dia de alegria/ Quando tocaram a reboca/ Eram doze horas do dia”

(Versos cantados pelo negro Deolindo que morreu afogado nas águas do Piracuruca e teve os olhos comidos pelos peixes).

De José Magalhães da Costa

Não sei se o moço chegou a conhecer o velho Chico Mascarenhas, matador de onças, que vivia ali nos Araticuns, propriedade de D. Emília Resende. Ah, conheceu, não é, se lembra dele? Pois foi, foi ele mesmo quem me contou esta história, quando eu era menino. Já morreu, faz muitos anos, e está enterrado num cocurutinho de terra, próximo ao Pequizeiro da Veada chamado, na estrada que vai da Varjota para o Curral de Pedra. Bem mesmo ali onde entra uma vereda de gado que vai desembocar no pátio das Palmeiras, também da viúva do Cel. Facundo. Está sepultado lá. Foi ele quem pediu. Disse para o filho Zeca, que queria se enterrar ali. Marcou até o lugar da cova. E é lá mesmo que está repousando, dormindo seu último sono. É, foi ele, o velho Mascarenhas, como era mais conhecido, de verdade, quem me contou este caso, passado com ele no tempo que assistia para os lados de Campo Maior, terra dos carnaubais.

Pois bem. Diz que apareceu uma onça preta canguçu na caatinga do Brasão, que — não sei se o senhor sabe — pega os municípios de Campo Maior, Castelo, antigo Marvão, e Pedro II. A malvada estava acabando com os rebanhos, deixando os criadores da região, coitados, com as mãos na cabeça, sem saber o que inventar para dar fim à monstra da fera. Cadelo que entrasse na mata, não saía mais de lá, não tornava mais à casa do dono, e nem era mais visto rastejando, acuando onça. Podia-se chamar cachorro morto, uma vez um cão caçador. Muito deles, experimentados na caça, no ofício, como o Rompe Nuvens e o Quebra Ferro, que não se aquietavam mais quando viam o rasto duma bichana, puxando o dono na corda, que tinha de soltar logo eles, se não quisesse ser arrastado à força, deram o couro às varas. O Araponga, dum latido de tinir as oiças da gente, que nem o pássaro ferreiro, foi outro que entrou na dança macabra. E assim, muito, muitos animais bons de caça, testados, como o Boto, o Tupã, o Jupi, serviram de refeição pra gatona de fama. Até o Tubarão, que tinha acuado quatro bichas, foi também um dos que a fera passou no papo. Todos eles, e mais uma matilha. Nunca mais que tiveram notícias dos pobres, a não ser através das carniças, dos carangaços encontrados, aqui e ali na mata, ou então pela mancha de gordura deles no chão, no lugar onde ela comera o infeliz. Caçador nenhum tinha então coragem de penetrar na caatinga do Brasão, com medo de ser morto e comido pela temida canguçu. E a gatona fazendo das suas. Passeando solta. De vez em quando sangrando uma criação pra chupar o sangue, comer a fatada, que é o de que ela mais gosta. Aqui, matando um mijolo. Ali, uma marrã de ovelha gorda. Adiante, um poldro de égua, um jumentinho novo. Bodes nem se contava mais: chiqueiros inteiros a danada dizimou, porque, como o senhor não ignora, deve saber, bode é o vivente mais besta que existe na Terra. Não sei se o senhor já teve oportunidade de ver. Se já prestou atenção… Não. Nunca botou, nunca viu, não é? Pois é assim… Aquilo eles vêm num caminho, vereda que seja; a onça escolhe um lugar e fica ali esperando, de tocaia. Quando o magote se aproxima, e vai passando, ela salta no meio, espantando os bichos, que se espalham, mas voltam em seguida, pé ante pé, admirados, bestas. Ela tem saído do ponto, está noutro, mais à frente, e aí é só saltar nos espinhaços da presa. Um, dois, três… e assim por diante: é tantos queira. É só escolher, e saltar em riba. Ocasião que mata só de perversa, pra estruir. Por brincadeira até, parece. Uma vez fui fazer uma partilha dumas miúças na Malhada Grande, pra minha patroa, e quando passava por um tabuleiro perto dum morro onde o morador fez a casa dele – hoje é só tapera – vi três cabritos a menos de dez braças um do outro, mortos, como se a malvada estivesse brincando. Os bichinhos lá, estirados no chão, sangrados, um deles ainda arquejando, berrando fraquinho, os buracos das unhas da malvada no pé da goela.

Pois sim, a onçona fazendo das suas, ganhando nome, crescendo na boca do povo, que não falava de outra coisa, não tinha outro assunto. Até um romance já circulava, contando as proezas e artes da canguçuzona de fama. (Só o Chico Perez, autor do tal livrinho, vendeu mais de um milheiro na feira de Pedro II, que é a melhor do norte do Piauí. Diz que até fila fizeram pra adquirir o panfleto). Foi aí que ocorreu de a bicha pegar um garrote, um barbatão criado, de seu Tertuliano Brandão, do Pedro II, que também possui terras no Brasão, na caatinga velha. Dele ou de outro fazendeiro, não sei bem, não me recordo agora no momento; mas acho que foi de seu Terto, ou então do Coronel Manoel José Cardoso, o maior fazendeiro do norte do Estado, na época que era prefeito de Castelo o valente Ten. Costa Basílio. Ou ainda de algum Bona ou Ibiapina rico de Campo Maior, criador de gado pé-duro e de cavalo campeiro. O certo é que os donos de gado da região se reuniram em assembléia e deliberaram então contratar um matador de onças profissional, mandando buscar o velho na Bilheira, do Desembargador Vicente, no Campo Maior, que era onde ele morada, vivia antes de vir se socar ali nos Araticuns. Contrataram o homem não sei por quantos mil-réis, além da promessa de matarem um boi grande, erado, pra festejarem o acontecimento, quando chegasse a hora de tocar a reboca.

Bom. Foi num ano de seca. Se não me engano, em 32. Ou mais pra trás, em 15. Não sei bem. Só que foi num período de seca braba, ou de inverno ruim, fracateado. Deixa. Vamos pra frente. O que interessa é que o velho foi chamado, trazido pelos fazendeiros pra tirar a fera do pasto. E lá veio ele. E já matutava, quebrando a cabeça, procurando um jeito de melhor fazer a coisa. Com cachorro estava visto que não dava, que até o Lavadeira, que o velho trouxera consigo e tinha na conta do melhor acuador e matador de onças, foi-se, quer dizer, foi, mas não voltou mais. Assim, o jeito que teve foi esperar a bicha na bebida, quando ela descesse pra matar a sede. O custo, a demora era descobrir o lugar onde estivesse bebendo, indo beber. Pra isso teria, teve que ganhar o mato, enfiar-se na caatinga. E foi o que fez. Foi. Afundou-se na caatingona, indo até dentro, muito dentro, no centro da mata. Aí encontrou o que procurava: um choramingozinho d’água numa grota perto dum lajedo com poucas árvores em redor, a maioria plantas rasteiras, como costuma ser a vegetação da caatinga. Era lá que a pilheira estava bebendo. Lá as alpargatas da monstra, no chão. No meio do lajedo, um buraco em formato de pilão, do tamanho duma cojuba, dum coité, e que deu ao velho a idéia, de ficar botando água até acostumar a monstra, pra então poder passar sua tipóiazinha e preparar a espera. A fortuna, que achou, pelo menos, aquela árvore: uma catingueira velha esgalhada… e foi nela que aguardou a gatona.

Contou que uma tarde, uma semana depois de ter penetrado na mata, quando vinha vindo de tardezinha de volta pra casa, pressentiu estar sendo seguido, que atrás de si vinha um bicho, e não era outro, senão a gatona. Vinha só, sozinho. Perdera já o seu Lavadeira, como o senhor viu, e assim o jeito que teve foi logo procurar uma árvore, alta e fina, linheira, que a bicha não abarcasse, nem pudesse subir nela, e onde ele desse de passar a noite sem perigo. E foi o que fez. A valença que encontrou logo um amargoso, e logo subiu nele, ali pernoitando, e vendo dois vaga-lumes gigantes – os olhos da monstra – circularem em torno, pousando num lugar e noutro, mas sempre na mesma altura, focando nele, lá em cima no olho do pau. Quando se desceu de manhã, viu lá o lugar onde a danada estivera acocorada, chega o chão estava limpo, liso, de tanto a bicha abanar com a calda, olhando e esperando que ele descesse da árvore pra então… E foi aí que o velho viu, quando se apeara, botou o pé no chão, em terra, o perigo que correra, o risco em que ia se meter, no caso de ter prosseguido a viagem. Foi. Foi, por sorte que escapara, se salvara. Por milagre mesmo. Não tivesse feito, a história hoje seria outra, muito diferente.

Doutra, vira os restos dum gobila que a perversa matara e comera no fundo dum grotão que ficava próximo à furna que parecia ter sido morada dela, tempos trás, e onde se viam as ossadas de bichos que a monstra arrastava nos dentes, levava nas cacundas lá pra dentro pra comer com os gatinhos. Na caatinga, só se via o rastro, as patonas da pai-d’égua afamada. Onde se pisasse! O chão todo tomado, ladrilhado. Em toda parte o maozão da bicha, olhe lá o tamanho! Era só o que se enxergava, encontrava na mata. Cada buraco que fazia medo! E ele, o velho, caminhando pra lá, botando água numa cabaça, num coité, até ver chegado o dia, a hora da onça beber. Aí foi, carregou bem a lazarina velha (os fazendeiros ainda quiseram lhe dar um 44-papo-amarelo, mas ele não aceitou), trepou-se na árvore, adredemente escolhida, e ficou esperando a gata velha descer pra bebida. O sol tinha se posto, e a noite vinha cambaiando de mansinho para a escuridão, os bichos pequenos, os insetos, que tinham vindo beber, e antes se movimentavam por ali brincando uns com os outros, pararam em respeito à presença do animal que se anunciava, e para que o caçador pudesse ouvir direito as pisadas da canguçu nas folhas secas, rumo à bebida. Reinava então um silêncio pesado, de morte, enorme como as patas do gatão, que agora dispunha de poucas horas de vida.

Como é do conhecimento de todos, onça é bicho treteiro, escovado por arte do Capeta. Malandro que nem urubu. Mais sabido que macaco. Nunca avança de vez, mas devagarinho, tomando chegada de mansinho, assuntando tudo em volta antes. Então, só então, é que parte para a presa, pula em cima da carniça, ou baixa a boca n’água. Tão inteligente, que só anda em círculos, dando voltas. Nunca que se demora num lugar, mas sempre passa pelo mesmo canto por onde andou, tanto que o povo diz: — “aqui é passagem de onça”. É, nunca vai em cima direto, assim não existiria mais caçador vivo! Aquilo ela pega, sai naquele chotão, marchona mole, dela, que não tem quem acompanhe – vai-se com todos os diabos! E nunca volta daquela tirada. E se acontece dela voltar no mesmo dia, ou no outro, naturalmente porque deixou na certa carniça enterrada, ou a caça no lugar é pouca, rara. Aí ela torna. Ou então se lembrou do pasto, como é sabido de todos.

Outra coisa: onça é bicho de bebida certa, e disso todo caçador sabe, e sabia também, de experiência própria, o velho Chico Mascarenhas, matador de mais de uma dúzia de gatas grandes como aquela.

Bem, vamos agora ver como se deu o encontro do velho Honorato com a caça. Já disse que ele, um dia sim outro não ia botar água pra bichona beber, não disse? Pois. Sim, ia. Até que viu que estava viciada. Nem é bem isso. É que, como eu já referi, era tempo de seca, e só tinha água lá, assim foi fácil enganar a fera. Era lá que a danada estava bebendo. Pois bem, o velho subiu na árvore e aprumou-se, esperando o encontro com sua rival, a lazarina velha atravessada nas pernas. Foi quando ouviu pisadas nas folhas secas, à sua frente, e imaginou ser a bichana descendo para a bebida.

– É ela – pensou o velho caçador, todo arrepiado. É. Era, era a hora mesmo. Chegara o momento dos dois ajustarem as contas. Estava já turvo, as coisas se confundindo com a escuridão da noite, que baixava como uma mortalha que cobrisse tudo. O matador sentiu a aproximação do perigo, vendo chegado o instante, o momento, a hora do encontro com a rival – de atirar na gatona afamada. Então, devagarinho, botou a espingarda com o cano pra frente, armou o gatilho, e esperou um pouco: logo avistou aquele vulto escuro, aquela coisa preta, enorme, movendo-se no seu rumo.

– É ela – repetiu ele baixinho, na hora que a lua ia saindo, refletindo os olhos da fera, transformados em dois patacões de ouro, no meio dos quais o velho meteu sua arma, mirando bem e atirando. O tiro estrondou, seguindo-se então de um silêncio pesado, que nem a carga da noite, que acabava de baixar as pestanas. Um silêncio grande como a mata. Um silêncio da hora da morte. Um silêncio como aquele outro, quando a monstra se aproximou da bebida. Silêncio de coisas paradas e mortas. Nada então se mexia. Nem um galho! Nem uma folha! Nada! Nada bulia… Até o vento, aquele ventinho bom, de boca de noite, parara. Não se ouvia sequer o zinir dum mosquito. Silêncio mesmo de meter sobrosso. E o velho ficou com medo, assombradinho. Supondo ter errado o tiro, e a onça ido embora. Mas não. Não. Não era possível que tivesse perdido a munição, a carga da arma, errado a pontaria! Só vendo… Seria possível?! Então foi-se descendo da árvore, com cuidado, que a bicha podia estar viva francamente: sabida… se fazendo de morta pra pegar ele!… Foi escorregando pau abaixo, até tocar, bater o pé no chão, fazendo zoada:

– Chô, onça! Escutou… Nada! E como não visse então nada mexer, bulir, resolveu se aproximar do vulto escuro, do monte preto à sua frente. Aí empurrou o pé na coisa preta, pra ver se realmente estava morta. Deixa que, ao fazer, a monstra rolou fazendo aquela zoada, horrorosa de feia na garganta, como quando se mata um capado grande, cevado, e o animal ronca com o sangue gargulejando no pé da goela, na sangria, dando-nos a suposição de estar ouvindo direitinho o rosnar da maior comedeira de bichos que temos, e o velho aí não teve outro jeito senão perder o respeito às calças, sujando-se todinho, pois a impressão que teve na hora foi que a bicha estivesse vivinha da silva.  Mas não. Não. Estava morta mesmo. Mas que tomou um susto, lá isso tomou.  Um susto grande, o maior de sua vida sem dúvida, segundo o próprio. Não negou. Borrou-se, de verdade, o velho, ele que tinha tirado do pasto muita onça grande. Mas não como aquela. Aquela foi, sem dúvida, a maior bichana que ele já matou. Saiu então para dar a notícia em Castelo. Mas antes de chegar lá, já o povo sabia do acontecimento, estando a cidade em polvorosa, sob um verdadeiro bombardeio de foguetes, em festa, havendo mesmo uma camioneta, com um aparelho de som, de oito bocas, instalado nela, percorrendo a cidade anunciando o feito, considerado como heróico, e convidando o povo de todo o município e circunvizinhanças, onde pisava a gatona, para, reunido, e em procissão, ir fazer a reboca. O serviço também anunciava o grande baile que o clube social de Castelo iria oferecer ao herói Francisco das Chagas Mascarenhas, matador da maior pichana já vista na região, chegando mesmo, um atento vereador, a anunciar no microfone a entrega do título de herói de Castelo, que a Câmara de Vereadores daquela cidade, agora livre, iria conceder ao bravo, corajoso e providente profissional onceiro. No patamar da igreja matriz de Nossa Senhora do Desterro a bandinha de música tocando dobrados e mais dobrados, animando a festa, que não deixava de ser, e o vigário, padre Expedito Carneiro, já estava se paramentando para celebrar missa, de ação de graças, pelo auspicioso evento.  No caminho, muita gente, com o pessoal das barracas carregando suas bancas de café, bolo, frutas e batidinhas para o local onde o velho tinha morto a respeitada e temida canguçu, já então sem as desmedidas e descomunais mãos e presas, e não se sabe como não foi transformada em churrasco pela multidão que para ali se dirigiu, não só da cidade de Castelo, mas de todo o município e quejandos. Gente de todo lado, de tudo quanto é canto onde chegou a notícia.

A festa rolou por três dias, tendo sido declarado feriado municipal em toda a região do Brasão. Festa mesmo de arromba. Bailes de reinado, com música, dança, comida, bebida e tudo, não havendo nenhuma outra mais falada, até então!

O velho Chico Mascarenhas, animado e puxando fogo, dançava abraçado com a cabeça da bicha, que parecia uma carrapeta no meio do salão!

ESTE CONTO IRÁ SER PUBLICADO NA PRÓXIMA OBRA PÓSTUMA DE JOSÉ MAGALHÃES DA COSTA, NA COLEÇÃO COMEMORATIVA AOS 100 ANOS DA ACADEMIA PIAUIENSE DE LETRAS.

*Conto integrante do livro Histórias com Pé e Cabeça…, publicação póstuma, de 2012.

Ecos de Maquiavel em Game of Thrones

Páginas Perdidas

thumb_game-of-thrones-003-flvNos últimos anos temos sido brindados por uma grande quantidade de séries que abordam de maneira eficaz as relações de poder. Exemplos não faltam: Roma, The Tudors. The Borgias ou House Of Cards… Mas entre estes belos trabalhos, um tem se destacado. Me refiro a Game of Thrones, produzido pela HBO e baseado na ambiciosa obra homônima do escritor americano George R. R. Martin.

Nela vemos a história do grande Reino de Westeros, um mundo que, como já disse o próprio autor, é diferente e ao mesmo tempo parecido com o nosso. Seu Rei é Robert da Casa Baratheon, cuja morte acaba resultando num impasse, pois descobre-se que seu filho herdeiro, Joffrey, é, na verdade, um bastardo fruto de um relacionamento incestuoso entre a rainha e o próprio irmão. Isso gera uma verdadeira guerra civil entre os pretendentes ao trono, como…

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As Ditaduras e o Fim da Cidadania

Diante de cenários de crises, corrupção, contradições e polarizações extremas, a ideia de uma ruptura autoritária, isto é, de uma ditadura, aparece como uma das soluções mais sedutoras na luta política. Os seus defensores afirmam que a luta de facções torna necessário que apenas um poder forte, supostamente vindo de fora da política, pode conseguir acabar com o conflito, punir os crimes contra o erário púbico e impor a ordem para a prosperidade social.

A solução ditatorial para o equacionamento dos conflitos sociais pode parecer sedutora a curto prazo mas, a médio e longo, se torna uma armadilha para as sociedades.

Leandro Karnal, em palestra no programa Café Filosófico, fez uma interessante análise dos ditadores: eles infantilizam o cidadão. Em outras palavras, as ditaduras impedem que a virtude cidadã de homens e mulheres floresça. O Poder autoritário, que não respeita a crítica, não admite a transparência e nem a escrutínio público, apenas se preocupa em perpetuar-se, em impedir dissidências e em esmagar os grupos políticos rivais, julgados agora de subversivos.

Por que é isso que as ditaduras fazem, sob a capa de impor a ordem social, elas esmagam opositores e supostos opositores sob a desculpa de perseguir o elemento subversivo, quando na verdade, o subversivo é apenas aquele que não concorda com o ditador. Trocando em miúdos, regimes autoritários só são bons para quem os apoia. A suposta paz social é conseguida a partir da eliminação do outro.

Em regimes assim a corrupção é uma regra, pois com os acordos políticos e as políticas públicas fora dos olhos dos cidadãos, vistos agora como ameaça em potencial, não há como fiscalizar o exercício do poder; e onde não há fiscalização as chances para práticas pouco republicanas ocorrerem é de cento e dez por cento.

Regimes autoritários, portanto, são a infantilização da cidadania. O hábito de acompanhar o poder, analisar as lideranças e fazer críticas torna-se proibido. Isso tem sérias consequências para a maturidade dos cidadãos, que acostumam-se com regimes ditatoriais, preferem ser tutelados e não tem a consciência da importância da política para o cotidiano.

Apenas com a prática cidadã, fiscalizando a política, propondo novas leis e fazendo oposição ao poder estabelecido que podemos aperfeiçoar nossa sociedade. É pela democracia que podemos combater a corrupção, propor novas formas de desenvolvimento e chegar a um denominador comum com facções politicas rivais.

É uma pena ter que escrever um texto como este em pleno século XXI, quando já temos trinta anos de regime democrático. Entretanto, estamos vivendo um tempo em que afirmar o óbvio virou um ato de civismo e de combate.

A democracia faz florescer a virtude cidadã, já as ditaduras a matam.

Ocupando espaços virtuais com ciências: alguns apontamentos.

O Artigo do historiador Icles Rodrigues apresenta uma reflexão interessante sobre como combater essa maré de obscurantismo que toma conta do Brasil atual. Nós da academia, cientistas e pesquisadores precisamos ocupar os espaços da sociedade civil para fazer frente a esses gurus, astrólogos e outros enganadores que hoje enganam milhões.

Leitura ObrigaHISTÓRIA

Desde o fim de 2018, especialmente após os resultados das eleições, tenho visto manifestações frequentes de indivíduos assustados com o número gigantesco de meios virtuais por onde pseudociência, charlatanismo, revisionismo histórico e – principalmente – as famigeradas fake news se proliferam. E em várias dessas manifestações paira a dúvida: o que fazer para combater esse tipo de coisa?

Há uma série de possíveis respostas sendo oferecidas por todos os cantos, mas uma delas diz respeito à ocupação dos espaços virtuais por profissionais e pessoas qualificadas nas mais diferentes áreas do conhecimento, de modo a confrontar gurus disfarçados de filósofos, revisionistas desqualificados disfarçados de autoridades, terraplanistas, grupo antivacina, entre tantas outras aberrações antiacadêmicas.

Superficialmente falando, a ideia soa muito boa. Afinal de contas, se toda essa histeria coletiva teve a contribuição de agitadores desqualificados e gente engajada em atacar consensos acadêmicos inconvenientes para suas agendas políticas, a resposta seria dar o…

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A Esquerda e as Tradições

O debate à cerca do lugar dos costumes e das tradições são um dos pontos mais fundamentais a respeito das discussões políticas atuais. As várias ideologias, tanto à esquerda quanto à direita, tem procurado debater a respeito do lugar que as práticas que resistiram ao tempo possuem no mundo atual.

Nas últimas três eleições presidenciais temas como família, aborto e educação sexual tem tido uma importância crescente nas discussões da Ágora.

Não se pode compreender as chamadas tradições sem entender sociologicamente

a diferença entre o nosso mundo e aquele que se esvaiu com o fim do feudalismo.

Anthony Giddens, no clássico As Consequências da Modernidade, demonstra como o mundo pré-moderno era muito pouco dinâmico e que as tradições e práticas surgidas num passado imemorial eram o centro que guiava todas essas sociedades. Os homens e mulheres tinham uma vida determinada pelo passado, isto é, o presente e o futuro vivam em função de preceitos, rituais, práticas, formas de agir e de pensar que foram determinadas há séculos; estas práticas podiam até sofrer alguma mudança, mas sempre em ritmo muito lento.

A decadência do mundo feudal e a emergência da modernidade mudou completamente as relações sociais. A vida agrária, submetida à estabilidade das estações e só perturbada por desastres naturais ou por invasões estrangeiras, foi modificada por um modo de produção e distribuição de riquezas que se caracteriza não pela estabilidade, mas por uma dinâmica expansiva que mudaria por completo as comunidades de todos os continentes.

O ápice desse processo foram a Guerra Civil Inglesa (1642-1651), a Revolução Francesa de 1789 e os quase cem anos de Revolução Industrial (1750 – 1860). O antigo regime, as antigas práticas do costume, as antigas hierarquias feudais e a prevalência do mundo agrário desmoronaram ou entraram em processo acelerado de decadência. As tradições e suas hierarquias, que naturalizavam a desigualdade e a estabilidade entre os homens, passariam a ocupar um lugar cada vez mais periférico.

Dentro desse processo histórico de mudanças surgem dois grandes blocos políticos em disputa: a esquerda, formada por liberais progressistas e socialistas, advogam a liberdade individual, a igualdade entre os homens e a continua reforma da sociedade em detrimento das tradições e dos costumes; e outro bloco de poder, formado por conservadores, tradicionalistas e liberais de direita, apregoam a utilidade que as tradições e os costumes possuem sobre a vida social, a natural desigualdade entre os homens e a manutenção do status quo como o único possível de existir.

Para a esquerda e o liberalismo progressista o presente é mais um etapa em direção ao futuro e o passado uma prisão que deve ser superada, enquanto que para a direita em geral o futuro e o presente são a continuação de um passado tido como ideal e harmonioso. As tradições, para os segundos, surgem livremente, dão sentido à vida e devem ser preservadas. Para os primeiros elas são arbitrárias, o resultado do exercício do poder de uns sobre os outros, por isso devem ser combatidas.

Mas as tradições não surgem apenas de grupos tradicionalistas, com o advento do Estado Nacional, conforme nos diz Hobsbawm em A Invenção das Tradições, elas são constantemente inventadas e reinventadas para servir como uma sensação de continuidade diante de um mundo cada vez mais dinâmico; obviamente que em contexto de modernidade, onde predomina o contrato social e a igualdade entre os homens, elas tem um lugar de atuação muito restrito. Até mesmo movimentos progressistas já inventaram suas tradições, como a Revolução Francesa e o Movimento Operário.

Diante de todo esse cenário, fica a pergunta: Qual deve ser o lugar da tradição dentro dos movimentos de esquerda e de outras vertentes progressistas?

Sociologicamente falando, Marx e Engels resolveram a questão quando escreveram na Ideologia Alemã que os homens fazem história, mas o fazem dentro de condições que não foram postas por eles, mas por seus antepassados:

Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha, e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.

Embora exista a necessidade de moldar a história, reformar as sociedades e criar nosso próprio destino, nós ainda somos influenciados, em alguma medida, pelas condições históricas, políticas e culturais de centenas de anos e que se vão acumulando na grande dinâmica do processo macro histórico.

Qualquer movimento social à esquerda que pretenda reformar algum traço da sociedade precisa levar isso em conta sob pena de retumbante fracasso; conhecer as condições concretas de existência do mundo e os processos históricos envolvidos. Para isso é preciso estudo, leitura, discussão teórica e prática; e aqui é preciso ler tanto autores da esquerda quanto da direita.

No mundo da vida não existe tábula rasa.

Por isso devemos analisar concretamente e com sensatez qual o lugar das tradições no mundo atual. Minha alternativa é fazer uma distinção entre tradições e costumes que reforçam a dominação, a relação heteronômica entre gêneros é um exemplo, e aquelas que incentivam a sociabilidade, como festas e comemorações populares.

As primeiras devem ser combatidas e as segundas incentivadas.

O escolha por compreender o mundo a partir do passado ou do futuro tem implicações políticas importantes. A esquerda, que toma a posição em favor do futuro, não deve esquecer que a herança do passado, pois a história é um fator importante a ser considerado.

A compreensão do passado e como se formaram as tradições é o primeiro passo para mudar o futuro.

Menino de Engenho: retrato de um tempo perdido

menino-de-engenho-jose-lins-do-regoGilberto Freyre afirmou que a escravidão, o patriarcalismo e miscigenação de raças e culturas criaram uma nova forma de sociedade no Brasil, uma sociedade tipicamente tropical e baseada no equilíbrio de antagonismos. Isso seria uma característica tipicamente nacional.

O patriarcalismo no Nordeste foi gerado nas grandes lavouras canavieiras, no sudeste nas grandes plantações de café e na Amazônia nos seringais perdidos no meio da selva. O Brasil, portanto, se firma pelas suas especificidades regionais. Num país com suas dimensões continentais e sua diversidade cultural, são as partes que dão sentido ao todo e não o contrário.

Se o grande mestre pernambucano explorou com maestria esse tema da especificidade da cultura brasileira a partir da sociologia, foi José Lins do Rêgo, a partir da literatura, que foi fundo no impacto da lavoura canavieira na diversidade regional do nordeste brasileiro.

Menino de Engenho, primeira obra do autor, é um relato a respeito da vida num grande engenho da região. Ali vemos um retrato de um Brasil onde predominava as antigas relações de mando e obediência, com o senhor de engenho, José Paulino, exercendo seu domínio de forma severa e protetora, isto é, patriarcal. O menino narra tudo, ao mesmo tempo em que descobre o mundo com suas amizades, paixões e iniciações sexuais. Quando lemos nos sentimos transferidos para aquele mundo outrora vivo, cheio de cores, sons e sabores, mas que agora jaz na profundeza da história.

Ali lemos como estavam dispostas as relações desiguais entre os homens e as coisas, com o neto do patriarca descrevendo os trabalhadores do eito, seu avô e filhos, os negros e as negras libertas, os engenhos em decadência, chamados de Fogo Morto, a religiosidade das pessoas e a calmaria que regia aquele mundo aparentemente estático e eterno, surgido com a colonização e que sobreviveu ao Império e à República; e que logo seria modificado pela ação das usinas, novas formas de produção capitalista, levando à decadência os antigos engenhos.

Relato de uma época que não existe mais, Menino de Engenho é um autêntico romance brasileiro, pois vai nas raízes da nossa história e do nosso ethos civilizacional: lusotropical, patriarcal, latino-americano, capitalista e dependente.

Coloco-o ao lado de grandes como Proust, Whitman, Balzac e Flaubert que retrataram como poucos o espírito de um tempo perdido no tempo e no espaço.