Os Zumbis do Mundo Real

serie-de-zumbi-na-globoEra um final de tarde abafado e quente, típico da primavera. Eu voltava andando pelas ruas quase desertas, enquanto ouvia All I Was do Tremonti, quando vi uma estranha figura vindo em minha direção. Era um sujeito de pele morena marcada pelo sol, cabelo todo emaranhado, roupas velhas, rasgadas e sujas de terra. Ele andava todo desengonçado, como se tivesse algum problema nos nervos, tinha a cabeça baixa enquanto soltava uns grunhidos estranhos; consta que exalava um cheiro horrível, como uma mistura de sujeira com álcool.

O sujeito mais parecia um zumbi vindo do seriado The Walking Dead.

Passou por mim sem notar minha presença. Virei-me para acompanhar aquele zumbi subir a Avenida Brasil e dobrar a esquina e perder-se em sua iniquidade.

Fiquei com aquela imagem na cabeça por algum tempo: o sujeito que o vício tinha transformado em zumbi. Talvez seja isso que acontece quando este demônio se apodera de nosso corpo. Temos nossa individualidade, nossos desejos, nossos valores e nossos medos arrancados e, em seu lugar, é colocado apenas uma coisa, a vontade torturante e inexorável de satisfazer-se com o nosso objeto de desejo, seja o álcool, o cigarro, as drogas, a religião ou a pessoa que desejamos.

Um ponto a se pensar sobre o vício é que ele é um comportamento que surgiu com a modernidade. Em sociedades pré-modernas, apesar de existir o consumo de ervas e substâncias que alteram a consciência, seu uso era fortemente controlado por normas sociais que não deixavam o indivíduo a deriva. Ele sentia que era parte de algo maior, que estava integrado num todo que o deixava seguro e integrado.

Agora, com o advento da ordem social moderna, a relação entre sociedade e indivíduo muda. Ele não está mais integrado por fortes laços numa ordem social estável. O indivíduo passa a ficar a deriva, sua biografia, seus valores e sua trajetória agora dependem de seu próprio esforço. Cabe a ele criar o seu próprio céu ou seu próprio inferno.

Sem embargo, o vício é uma tentativa de indivíduos desgarrados e desesperados para se conectar com algo maior, para encontrar o sentido onde não há sentido, para achar o acolhimento e segurança onde só há desordem, dor e decadência.

Aquele zumbificado que encontrei naquele sábado tinha encontrado o seu ponto de apoio numa sociedade injusta. Mas o preço ia sair muito caro para ele.

Nós temos o direito de julgá-lo?

Bem-vindos a Novíssima Velha República

06_debate-300x214A crise econômica e politica que tomou conta do país significou a quebra de um bloco histórico que se ergueu desde 2003 com a ascensão do Partido dos Trabalhadores a presidência. Agora o que temos diante de nós é a emergência de um novo período histórico, mas que carrega traços de períodos históricos anteriores.

Os últimos treze anos da república brasileira foram baseados no chamado neodesenvolvimentismo, com uma presença mais protagonista do estado na economia através do financiamento dos chamados campeões nacionais e numa relação obscura entre líderes governamentais e grandes empreiteiras, cujas relações com o estado remontam a década 1950 (saiba mais aqui); maior destaque para politicas de assistência social (veja mais aqui); atenção especial para o agronegócio por meio da defesa da exportação de commodities; ênfase em grandes obras de infraestrutura e a reatualização da ideologia do Grande Brasil; tentativa de criar um polo alternativo de poder, claramente terceiro mundista, na politica externa através da valorização dos BRICS; cooptação de líderes de movimentos sociais para a máquina do estado com o objetivo de arrefecer as mobilizações por direitos sociais objetivando criar a paz social necessária para investimentos externos; e, por último, e não menos importante, a Politica da Grande Conciliação, onde o governo federal, apoiando-se no grande desenvolvimento capitalista, conseguia, por assim dizer, equilibrar relativamente os antagonismos, num país de cinquenta milhões de miseráveis, ao conseguir incorporar parte deles na esfera do consumo à revelia de questões como a reforma agrária e a questão das populações tradicionais.

Mas vivemos na época do capitalismo mundial e qualquer equilíbrio ou conciliação tende a ser transitório. As contradições da nossa democracia liberal, sempre assediada pelo poder econômico e cada vez mais distantes do cidadão comum, refém das elites locais e do Grande Capital, alcançaram níveis que esgotaram, para o bem e para o mal, o subsistema político; a política de exportação de commodities, por sua vez, apresentou seu esgotamento, deixando as taxas de exportações claramente comprometidas; os altos índices de corrupção que eram trazidos a tona, numa época em que os valores da ética e da transparência se tornam quase um senso comum na subjetividade coletiva brasileira, terminaram por cavar o túmulo da Nova República.

Em outras palavras, os processos de desencaixe criados pela Modernidade Mundo fraturaram as estruturas de uma sociedade anômica, levando-a a um impasse entre dois caminhos: a conciliação pelo alto ou reformas de base vindas de baixo para cima.

Seguindo a tradição conciliatória entre grupos majoritários e nossa vocação para nos apegarmos a modelos tradicionais e superados, acabamos optando pela primeira opção.

Apesar de estarmos no início de um novo velho período, é possível traçar algumas linhas, ainda que de caráter impressionista, das suas principais características, conforme já disse o cientista político Christian Edward Cyril Lynch. Entre as principais está o esfacelamento da velha esquerda, que passará a adotar uma postura defensiva por anos ao perder continuamente a luta pelo domínio da narrativa dos caminhos do Brasil. Hegemonia politica da centro-direita, repartida principalmente entre os chamados liberais conservadores (saiba mais aqui). Declínio do nacional desenvolvimentismo; o Estado Nacional tenderá a passar sua tarefa de árbitro social para o Mercado. Também espera-se o esvaziamento de pautas relacionadas aos direitos humanos e às minorias, com o desvio de recursos antes direcionados para a assistência e desenvolvimento social para politicas de segurança de caráter claramente repressivo; o objetivo disso é combater manifestações populares contra medidas de economia politica do Novo Velho Governo e conceder a paz social necessária à reprodução dos investimentos externos, que terão menos regulação. Emergência de um parlamentarismo disfarçado, algo que já acontecia desde a vitória de Eduardo Cunha para presidência da Câmara em 2014, com uma maior força do parlamento sobre o executivo, significando que cada medida urgida pelo pseudo-presidente Michel Temer acarretará em cada vez mais cargos e emendas negociadas com a base parlamentar. Mais força do que Lynch chama de Mandarinato Jurídico, que exercerá um poder cada vez mais moderador e regulador da politica e das relações entre as esferas de poder, redundando numa judicialização dos conflitos políticos. Poderemos ver os golpes finais sobre o legado trabalhista de Getúlio Vargas com a aprovação de leis que deixarão os trabalhadores cada vez mais à deriva no mundo do trabalho; recebendo cada vez menos e tendo que produzir sempre mais, teremos uma maior incidência de doenças relacionadas aos locais de trabalho e queda do padrão de vida médio dos trabalhadores. Um fenômeno que já era comum, de pessoas tendo dois empregos e precisando trabalhar pelo menos doze horas por dia, tenderá a ficar cada vez mais corriqueiro.

Obviamente que, em se tratando de ciência politica, sociologia e processos macro-históricos, principalmente os que acabei de descrever, os caminhos nunca são lineares e os fenômenos e fatos sociais nunca mudam de maneira mecânica. Cada ator social neste feixe de forças (trabalhadores não qualificados ou semi-qualificados, classe média, elites judiciárias, politicas e econômicas, movimentos sociais progressistas e regressistas entre outros, impossível para os propósitos deste texto listar todos) tende a reagir aos movimentos de cada um e criar consequências, alianças e lutas muitas vezes imprevistas. Mesmo assim, é possível divisar um bloco liberal e conservador cujo caminho para aprovação das suas medidas num congresso de perfil homogêneo e avesso a mudanças terá pouca resistência.

Aos grupos progressistas, nos quais estou incluído, resta resistir nas ruas (e fazer o que for possível na esfera da politica formal e minimalista), mesmo sabendo que isso acarretará em mais repressão, prisões e mortes.

Mas penso que, em vez de ficarmos numa cantilena ingênua de Fora Todos ou qualquer outro slogan secundário e colateral, deveríamos iniciar a estratégia de contra-hegemonia sendo propositivos, mostrando ao trabalhador porque o projeto de esquerda na verdade nunca se esgotou, pois o que defendemos é a radicalização da democracia, da igualdade, da liberdade e da solidariedade.

O Inverno finalmente chegou e cabe a nós decidir se nos renderemos ou lutaremos contra os Vagantes Brancos que, na verdade, sempre estiveram ai desde a invasão europeia na América.

Bem-vindos à Novíssima Velha República. E que os Orixás nos protejam.

Dez anos do belo e pesado A Matter of Life And Death

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A Matter Of Life And Death: pesado, complexo e coeso.

Entre os discos que o Iron Maiden lançou depois da volta de Bruce Dickinson e Adrian Smith, considero o A Matter of Life and Death (2006) o melhor de todos, superior até mesmo ao Brave New World; um disco quase perfeito, nunca canso de ouvi-lo.

Escutei o AMOLAD logo depois que foi lançado. Na época ouvi todo tipo de crítica sobre ele, de que seria um disco mal gravado com músicas tão ruins que pareciam sobras de estúdio do mediano antecessor Dance of Death (2003). Em matéria de música, nestes meus vinte e dois anos de ouvinte dedicados ao bom e velho Heavy Metal, nunca dei muito crédito à opinião alheia, eu sempre soube separar bons trabalhos de porcarias, mesmo se fossem coisas feitas por minhas bandas preferidas, como no caso da donzela.

Quando coloquei a bolacha para ouvir fui conquistado logo na primeira canção. A sonoridade era muito agradável, com melodias épicas e misturando-se à riff´s pesadíssimos, mudanças de andamento, arranjos complexos e letras retratando de forma poética os horrores da guerra. Eu estava diante de uma obra-prima contemporânea do Metal, um trabalho de inegável fôlego criativo. Era incrível como, mesmo depois de tanto tempo de estrada e treze discos de estúdio, o grupo ainda conseguia renovar-se.

Mais uma vez o gênio Steve Harris e seus liderados tinham nos surpreendido.

A Matter (…) chama atenção começando pela capa, que já era um prenúncio da massa sonora que estava a nossa espera: um taque de guerra, marcado com a discreta mas visível face de Eddie, com soldados da segunda guerra mundial, representados como caveiras, manchando num campo de batalha; no céu, misseis e bombas explodindo. O tom dessaturado e cinza da pintura serve para dar a ênfase na atmosfera de morte e desolação. Sem dúvida uma das melhoras capas de disco já feitas pelo grupo — em nada comparado com aquela vergonha que fora a capa do Dance Of Death.

O disco começa bem, com duas canções rápidas, Different World e These Colours Don´t Run, arranjos melódicos e refrões grudentos, dessas que ficam na mente. Depois temos a pesada e arrastada Brighter Than a Thousand Suns seguida da ótima The Pilgrim, que em alguns momentos me lembrou as clássicas Two Minutes to Midnight e Powerslave. The Longest Day, que narra o Dia D, é uma canção realmente épica, com um grau de tensão que vai aumentando conforme a música avança; sua parte instrumental é complexa, os solos bem encaixados, o ouvinte nem sente que ela tem seus quase nove minutos de duração. Em seguida temos uma pausa para a balada bem pauleira chamada Out Of The Shadows. Entre outros destaques temos as duas obras-primas da donzela, The Reincarnation of Benjamin Breeg, com ótimos riffs de guitarra, e The Legacy, que fecha o disco e que possui um agradável arranjo com violões.

O único tropeço de AMOLAD é a música Lord Of Light, cujo tema é preguiçoso e seu desenvolvimento repetitivo. Nem precisava estar presente.

Eu considero que foi neste disco que o Iron Maiden acertou a fórmula de tocar com três guitarras. É possível ouvi-las nitidamente e em muitos momentos cada uma toca um arranjo diferente num todo orgânico.

Embora os dois últimos discos de estúdio The New Frontier (2010) e The Book Of Souls (2015) tenham os seus méritos e sejam bons cada um a sua maneira, nunca mais tive o mesmo arrebatamento estético com um trabalho novo da donzela como quando escutei AMOLAD.

Para mim, a fórmula certa para eles explorarem musicalmente é a contida neste petardo. No próximo álbum de estúdio, espero que eles toquem como no belo e pesado A Matter of Life And Death.

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O Brasil e a “alucinação negativa”

Blog da Boitempo

goebbels secretary Brunhilde Pomsel, ex-secretária de Joseph Goebbels.

Por Flávio Aguiar.

Nestes tempo de golpe de estado no Brasil as conversas podem ficar muito difíceis. Amizades podem virar pó de uma hora para outra. Conheço inúmeros casos.

Comigo também se passou algo parecido. Um amigo – ou ex-amigo, nesta altura – virou um anti-petista ferrenho, o que é, convenhamos, um direito dele. Ele já era de direita, o que também é um direito dele. Mas extrapolou.

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Poema: Meu Sonho

Em outra ocasião escrevi que Alvares de Azevedo era um péssimo poeta e um ótimo contista (leia aqui). Contudo, é preciso acrescentar que, embora a Lira dos Vintes Anos seja repleta de poemas toscos, há alguns versos seus que ainda se salvam. O melhor deles, na minha opinião, é Meu Sonho, um poema que fala sobre um misterioso cavaleiro andante numa atmosfera soturna e opressiva.

EU:

Cavaleiro das armas escuras,

Onde vais pelas trevas impuras

Com a espada sanguenta na mão?

Por que brilham teus olhos ardentes

E gemidos nos lábios frementes

Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? — O remorso?

Do corcel te debruças no dorso…

E galopas do vale através…

Oh! da estrada acordando as poeiras

Não escutas gritar as caveiras

E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,

Cavaleiro das armas escuras,

Macilento qual morto na tumba?…

Tu escutas… Na longa montanha

Um tropel teu galope acompanha?

E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? que mistério…

Quem te força da morte no império

Pela noite assombrada a vagar?

O FANTASMA:

Sou o sonho de tua esperança,

Tua febre que nunca descansa,

O delírio que te há de matar!…

Rui Barbosa: Política e politicalha

Rui Barbosa-Política e politicalhaA política afina o espírito humano, educa os povos, desenvolve nos indivíduos a atividade, a coragem, a nobreza, a previsão, a energia, cria, apura, eleva o merecimento.

Não é esse jogo da intriga, da inveja e da incapacidade, entre nós se deu a alcunha de politicagem. Esta palavra não traduz ainda todo o desprezo do objeto significado. Não há dúvida de que rima bem com criadagem e parolagem, afilhadagem e ladroagem. Mas não tem o mesmo vigor de expressão que os seus consoantes. Quem lhe dará o batismo adequado? Politiquice? Politiquismo? Politicaria? Politicalha? Neste último, sim, o sufixo pejorativo queima como ferrete, e desperta ao ouvido uma consonância elucidativa.

Política e politicalha não se confundem, não se parecem, não se relacionam uma com a outra. Antes se negam, se excluem, se repulsam mutuamente.A política é a arte de gerir o Estado, segundo princípios definidos, regras morais, leis escritas, ou tradições respeitáveis.

A politicalha é a indústria de explorar o benefício de interesses pessoais. Constitui a política uma função, ou um conjunto de funções do organismo nacional: é o exercício normal das forças de uma nação consciente e senhora de si. A politicalha, pelo contrário, é o envenenamento crônico dos povos negligentes e viciosos pela contaminação de parasitas inexoráveis. A política é a higiene dos países moralmente sadios. A politicalha, a malária dos povos de moralidade estragada

Porque Me Tornei Agnóstico

150px-Agnostic_Question_Mark.svgFoi aos dezoito anos que abandonei a religião de meus pais e a tradição da minha família. Cheguei a conclusão de que, devido à grande complexidade do mundo, à variedade das suas culturas e sociedades, e à grandeza insondável do universo, o deus que nós imaginávamos era apenas uma explicação grosseira para responder a perguntas muito difíceis.

De onde viemos? Para onde vamos? Como foi o início de tudo?

As respostas que eu sempre ouvia do pastor enquanto estava sentado no banco da igreja muitas vezes me causavam mais dúvidas do que certeza. Por que deus, se era tão perfeito, ia criar o mundo e pôr o homem nele se ele já sabia que o homem o desonraria? Se deus é amor e é tão bom, porque ele deixa que tanto mal e tanta escuridão tome conta do mundo? As respostas que sempre me davam desde a infância nunca me convenceram totalmente. Assim como José Saramago, eu não queria acreditar, eu queria saber…

Eu via pessoas ao meu lado experimentando a suposta graça divina, e perguntava porque eu não experimentava a mesma sensação da existência de deus. As respostas que recebia eram reprimendas:

Você precisa acreditar, Ricardo… Você não tem fé suficiente…”

E eu ficava sempre triste, confuso e cheio de culpa. Lembro-me quando fiz minha profissão de fé e aceitei Jesus Cristo, o fiz muito mais por medo de queimar no fogo do inferno que por um sentimento de graça recebida.

Eu via todas as religiões do mundo defendendo seus deuses e seus ritos com igual tenacidade e todas estas divindades servirem de desculpas para os homens cometerem loucuras e matarem uns aos outros.

Logo percebi que toda sociedade cria seus próprios deuses, seus próprios dogmas e usa as religiões como um alicerce de segurança contra a desintegração social. Também notei que muitos agrupamentos humanos usavam estas religiões para que alguns continuassem se dando bem em cima de outros…

Foi o homem quem criou um Ser e nele projetou tudo aquilo que nós temos de bom e de ruim.

Se Deus existe, coisa que é bem improvável, ele talvez seja completamente diferente da forma como as sociedades, os profetas e os indivíduos idealizaram.

A noção que temos de deus, bem como os valores e tradições que defendemos como os únicos e definitivos, nada tem de absolutos, são um reflexo do nosso tempo histórico, uma forma que os homens encontraram para dar sentido a uma coisa sem sentido, que é a nossa existência na terra. Cabe a nós, em nossa relação uns com os outros, com quem amamos ou com quem odiamos, criar nossa própria biografia, nosso próprio arsenal de valores e seguir o caminho das pedras e dos espinhos, nunca sucumbindo ao mar desesperador e escuro que nos faz perder a humanidade. Nossa vida, sendo uma dádiva ou um acaso do universo, é um bem pelo qual vale a pena lutar, um bem pelo qual vale a pena preservar. Cabe a nós viver uns pelos outros, apoiando uns aos outros, pois nossa humanidade só existe quando nos relacionamos.

Se existência não tem sentido, então vamos dar sentido a ela cultivando os melhores valores já criados pela humanidade: a fraternidade, a igualdade e a liberdade.

Tornar-se agnóstico, na confortável incerteza de estar além do bem e do mal, tendo consciência de que tudo pode ou não existir, foi uma saída para sentir-me livre da culpa de não acreditar em deus ou em deuses e livre do medo da punição do pecado; foi como uma libertação para mim, como pôr um termo ao sofrimento de estar fazendo algo errado ou traindo um pai vigilante e punitivo…

Pois cada vez tenho mais certeza que, como disse Nietzsche, nossas crenças e tradições são humanas, demasiado humanas…