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O jornalismo é o ópio do povo: uma imprensa imbecil para uma legião de imbecis.

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pequenosdetalhesNesses tempos de caos, de disputas pela hegemonia do discurso politico e social, de proliferações de imbecis que acreditam estarem ainda no paleolítico, onde nossos políticos mais parecem lobistas disfarçados e onde o dito cidadão de bem mais parece um analfabeto politico que acha os direitos humanos besteira, a imprensa deveria exercer o papel de fomentar o debate e colocar os pontos nos i´s.

Mas infelizmente isso não acontece.

Num mundo onde o que impera é o poder econômico sobre todas as outras esferas da vida, nossa imprensa se comporta como verdadeiros panfletos que agem de acordo com a conveniência do anunciante ou do grupo politico que resolveu apoiar e, os leitores, verdadeiros bárbaros autômatos cujos ídolos são economistas medíocres, panfletistas da revista Veja que conseguiram um diploma de jornalismo sabem o Orixás como, e um astrólogo embusteiro metido a filósofo cujo maior mérito foi se tornar um ideólogo medíocre que trabalha pela hegemonia da estupidez.

Tanto entre a imprensa convencional quanto a dita imprensa alternativa predomina a mesma pobreza de ideias. Ambas não estão interessadas em discutir ou em propor o debate para os rumos do Brasil. Preferem atacar pessoas, fazer jornalismo marrom, servir bovinamente àqueles que os financiam. É esse tipo de narrativa social que queremos?

Nosso jornalismo hoje consegue ser, no máximo, um amontoado de narrativas surreais para entorpecimento dos sentidos de uma legião de imbecis. O entretenimento predomina sobre a notícia e, em seu lugar, fica a fabulação, a espetacularização e a partidarização da realidade.

Porque a nossa mídia se considera uma espécie de senhor de engenho e, a realidade, uma escrava sexual, no direito de bater, mijar e cagar sobre ela.

O jornalismo é o ópio do povo: uma imprensa imbecil para uma legião de imbecis.

A Democracia como Estilo de Vida

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O que é Democracia?

O que é de fato a democracia? Seria um exercício formal de um direito garantido pelo Estado ou uma forma de governo determinada socialmente? Essas e outras peguntas emergem quando tentamos defini-la. Sem dúvida, a democracia é um dos assuntos mais polêmicos na atualidade. Em torno dela se movem grupos, indivíduos e movimentos sociais que lutam para impor a sua definição e modelo sobre a sociedade.

Sabemos que a democracia nasceu na pólis grega, cerca de quinhentos antes de Cristo, e se constituiu como um conjunto de direitos que um determinado grupo, homens provindos da elite agrária, tinham de discutir e influenciar politicamente os rumos da sua cidade. Com o surgimento da idade média, o conceito de democracia ficou esquecido e só voltou a ter força sob uma nova roupagem, com o surgimento do iluminismo e da ideologia liberal, sob a ideia de que todo homem era um indivíduo com o direito de propriedade, de voto, de associação e de ir e vir; estes eram os direitos de primeira geração surgidos no seculo XVIII. A partir do inicio do seculo XX, nasceu uma nova gama de garantias, eram os direitos de segunda geração, cuja gênese veio da luta dos excluídos para viver numa sociedade mais justa. Eles se configuram como o direito ao trabalho, à saúde e à educação, cujo sujeito passivo é o Estado que, do diálogo e debate entre governantes e governados, atribuiu-se a ele o dever de promovê-los. Por fim, temos o direitos de terceira geração, cujo titular não é o indivíduo, mas grupos humanos como a família, a nação e as minorias étnicas em geral; como exemplo podemos citar a Carta das Nações Unidas, o direito do consumidor e ao meio ambiente, são direcionados ao indivíduo em sua singularidade social e cultural.

Contudo, a democracia deve ser vista muito mais do que um conjunto de direitos definidos pelo estado. Ela não se resume no exercício formal e passivo dessas garantias e não pode ser diminuída na segurança de ter uma propriedade, na garantia de votar e de se associar ou, até mesmo, na espera relutante de que o Estado provedor venha ao socorro de quem precisa.

A democracia deve ter, antes de tudo, uma dimensão ativa, critica e social. Ativa, pois os direitos e garantias fundamentais devem ser constantemente vigiados pela sociedade civil; critica, porque os cidadãos devem, ante de tudo, propor soluções para os problemas sociais e apresentar formas para que todos os direitos previstos na constituição possam ser implementados e massificados para a maior parte possível da população; social, pois parte da concepção de que o indivíduo não é auto suficiente na sociedade, ele está sempre entrando em relação com outros indivíduos, influenciando os seus semelhantes e sendo influenciado por eles.

Portanto, a democracia deve ser muito mais que apenas direitos, mas um estilo de vida, cujo escopo é o individualismo heróico, isto é, a luta de cidadãos ativos pela radicalização das garantias democráticas para toda a sociedade. Em outras palavras, pela democratização politica, formal e, acima de tudo, social. Ela não é apenas liberdade mas, acima de tudo, igualdade e fraternidade.

No Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, a ênfase dos movimentos democráticos deve ser a igualdade, pois é através dela, e só por dela, que se criam condições para a equidade politica, a liberdade e a fraternidade entre os demais indivíduos e grupos sociais.

Quando falo em movimentos sociais, grupos ou indivíduos que atuam a partir da premissa da democracia como um estilo de vida, penso justamente em organizações de base, movimentos pela democratização da terra, pela democratização da habitação ou pelos direitos das minorias étnicas. Estes seriam, ao meu ver, movimentos genuinamente modernos e progressistas, pois militam por uma causa, ou um direito, que deve ser estendido para todos os brasileiros. São avançados porque fazem da sociedade civil um palco de realização da utopia moderna em sua completude.

Quanto a movimentos que vão na direção contrária, ou seja, os que não são pautados pelos ideais modernos de democracia, liberdade, igualdade e fraternidade, me vem a mente grupos como os Revoltados on Line e similares, pois lutam em prol não de uma causa, não se focam na reforma social ou na massificação de direitos, mas apenas na reprodução da ordem existente e na luta contra um grupo de pessoas ou uma pessoa específica.

Sem embargo, leitor amigo, a democracia, para se fortalecer no Brasil, deve ser radicalizada através de um estilo de vida realmente democrático de toda a população brasileira. Só assim veremos que nossos direitos civis, políticos e econômicos deixarão de ser a letra morta da lei. Precisamos ir sempre para frente, pois a tradição, o passado e a desigualdade são uma jaula de ferro que deve ser superada.

Perry Anderson – A origem das manifestações políticas

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Em termos de dinâmica da ação política, você sempre precisa lembrar que provavelmente o material mais inflamável que existe é a injustiça.”

Em vídeo inédito, Perry Anderson, historiador e ensaísta político britânico, discute os motivos pelos quais as pessoas se engajam em manifestações políticas. Segundo Anderson, o que politiza e mobiliza as pessoas é a realidade em que as coisas pioram em vez de melhorarem. Não é a esperança de crescimento, mas sim o sentimento de injustiça.

A Fábula do Brasil Pacífico

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O resultado das ultimas eleições e os recentes escândalos de corrupção que se tornaram pauta corrente na mídia convencional fizeram acender no brasileiro médio a opinião de que o Brasil estaria dividido. De um lado estaria o governo e seus defensores e, do outro, os cidadãos de bem, intolerantes a corrupção e pleiteadores de uma mudança que, se não foi conseguida nas urnas, será conquistada com impeachment ou por intervenção constitucional militar (sic).

Confesso que sempre desconfiei dessas opiniões correntes, dadas a priori, formuladas e propagadas pelos intelectuais orgânicos de grandes grupos midiáticos. Minha formação em sociologia me fez perceber a famosa máxima de Shakespeare, Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode pensar a tua vã filosofia se aplica a tudo, inclusive a sociedade.

Portanto, o Brasil estaria mesmo dividido entre os cidadãos do bem e os cidadãos do mal? Obviamente que essa resposta não poderia ser mais equivocada.

È costume nós acreditarmos que em nosso país não há conflitos étnicos e guerras civil, ou que revoluções nunca fizeram parte de nossa formação politica. Contudo, para além dessa representação, tornada um lugar, há, na verdade, em toda historia brasileira, episódios de lutas de secessão, guerras civis e violências contra grupos subalternos; seja na colônia, com o esmagamento sistemático das populações tradicionais americanas ou com a submissão de africanos ao trabalho compulsório; as revoltas do Período Imperial, como a Confederação do Equador, a Cabanagem ou a Revolução Farroupilha, duramente reprimidas e que somaram milhares de mortos; temos também as revoltas da República Velha, Canudos, Revolta Vacina ou revolução federalista, também duramente reprimidas; revoltas do Período Ditatorial, quando oposicionistas ao regime eram torturados e mortos, e vários grupos de populações tradicionais esmagados pelo modelo autoritário modernizante de desenvolvimento; mesmo agora, na Nova República, quando vivemos sob uma constituição que é chamada de Constituição Cidadã, temos violações sumárias dos direitos humanos tanto sobre a população mais pobre quanto sobre movimentos sociais em geral.

Por isso, a formação e história da sociedade brasileira não é permeada pela paz ou por levantes isolados. O país nunca foi pacifico. O conflito e a violência, tanto física quanto simbólica, contra grupos subalternos (indígenas, negros, trabalhadores, oposicionistas políticos, mulheres e crianças) foram a tônica de nossa sociedade. A violência, no Brasil, se impôs como um verdadeiro fato social, como uma característica indelével de nossa cultura politica. Ela não é um fenômeno novo, gerado na década de setenta com o crime organizado, mas esteve presente em todas as etapas da formação nacional.

Sem embargo, a crise e a brutalidade sempre foram predominantes numa sociedade autoritária como a nossa e que possui, como nas palavras de Florestan Fernandes, uma resistência patológica a mudança, ou seja, uma incrível virtude de preservar as suas mais terríveis características, uma capacidade para aplacar todo e qualquer impulso de reforma estrutural que pudesse solapar seus pilares autoritários e anti democráticos.

Quando os intelectuais orgânicos da mídia dizem que as eleições deixaram o país está dividido, ou quando dão voz para grupos golpistas que anunciam o impedimento da presidente eleita e da intervenção constitucional militar (sic) como alternativa para reconstruir um tecido social rompido, não fazem mais que reproduzir a fábula do Brasil como país ordeiro, um país onde antes não havia luta de classes, não tinha violência, e onde todos sabiam o seu lugar e não procuravam mudar a ordem natural das coisas…

Portanto, as manifestações, pró- e contra o governo, e os movimentos sociais que vão para as ruas reivindicar seus direitos, são a materialização de um conflito antes camuflado, e que uma sociedade autoritária teimava em não enxergar — as lutas por direitos, o choque de grupos políticos com interesses contraditórios, a competição entre grupos da elite dirigente e econômica, que se alinharam a blocos divergentes de poder, e a brutalidade contra os mais fracos como condição intrínseca a condição social brasileira.

Tais fenômenos, que antes ficavam restritos aos subsolos do tecido social, seja pela ideologia do país ordeiro, presente em livros de historia ou propagados pela grande mídia, agora surgem à superfície. Então, nossa sociedade, a partir dos limites dessa fábula, busca explicar estes processos como ou fruto da ditadura do PT, para o caso da crise politica, ou culpa dos direitos humanos, para explicar o excesso de violência urbana.

Penso que a solução para a superação deste estado vem da própria sociedade, através de movimentos organizados, pressionando cada vez mais o estado e setores ariscos a mudança. Caso a mobilização fracasse, como tem fracassando nas ultimas décadas, uma radicalização num sentido quase revolucionário pode ser a única saída…

O Brasil não é vermelho, é verde e amarelo? Reflexões sobre o conservadorismo brasileiro.

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imagesLogo após as eleições para presidente, foram organizadas uma série de manifestações de caráter ultraconservador contra a candidata reeleita para presidente nas eleições democráticas. Embora aglutine vários grupos com interesses diversos, que vão desde aqueles que apoiam um golpe militar, o rompimento do Brasil com os vizinhos bolivarianos, o repúdio aos programas sociais e o apoio ao recrudescimento da politica de segurança pública, os manifestantes possuem em comum o fato de proporem a retirada da presidente e do seu partido da liderança do executivo, sob a justificativa de que seriam comunistas.

Muitos dos que discordam do conteúdo conservador destas manifestações estão chamando-as de fascistas, retrógradas, jurássicas e outros nomes menos amistosos. Confesso que eu também não sou simpático ao conteúdo politico destas passeatas. Contudo, é necessário levar em conta que tais ideias e representações não surgiram no vácuo da história e nem são produtos de meia dúzia de coxinhas fanáticos contra um governo supostamente de esquerda. Analisar dessa forma significa apenas captar a superfície do processo. A verdade é que o conservadorismo está profundamente arraigado no senso comum do brasileiro e faz parte de nossa formação histórica.

Mas o que é o pensamento conservador?

Para o conservadorismo, as sociedades possuem certos pilares fundamentais que a sustentam, como a família, o casamento, a autoridade e a religião. Estas instituições e valores devem ser preservadas sob o risco de a sociedade perder o seu sentido e entrar inevitavelmente em decadência. Para o pensamento conservador, a tradição deve guiar a vida dos homens. Isso não significa que os conservadores sejam contra a modernização das sociedades. O mundo deve seguir em frente, mas sempre tendo em vista certos preceitos como elemento referencial de sua marcha.

A tradição, sob esta óptica, funciona como um organizador das visões de mundo e das ações dos indivíduos. Ela é profundamente hierarquizadora. Isto é, ela estabelece os lugares sociais onde cada grupo ou individuo deve ocupar. Não há lugar para o questionamento dessa hierarquia. Ela existe para organizar, guiar e dar sentido ao mundo e, por isso, deve ser respeitada. Sem ela a civilização não existiria.

Essa importância dada à tradição pelo conservador típico se dá em virtude de que, para ele, o homem é naturalmente mal, egoísta, mesquinho, propenso á guerra e ao desrespeito para com seu semelhante. A única forma de segurar essa propensão maligna seriam as leis e sanções duras sobre ele. Só assim seria possível viver em sociedade.

No Brasil o pensamento conservador encontra sua expressão máxima na obra de Gilbert Freyre, para quem a formação brasileira é única e geradora de uma matriz civilizacional especifica. O mandonismo, o patrimonialismo, a família patriarcal e a democracia de raças, frutos de uma sociedade onde tantos negros quanto brancos teriam possibilidade de ascender socialmente, seriam traços que deveriam ser preservados por expressarem as características únicas da sociedade brasileira.

A nossa sociedade, segundo Freyre, seria caracterizada pela harmonia dos contrários. Isso significa que os lados opostos como o negro e o branco, o pobre e o rico, o proprietário e o trabalhador estariam ligados por laços de solidariedade que trariam um equilíbrio à sociedade brasileira, evitando a eclosão de distúrbios em nosso meio.

Com uma história social baseada quase em sua totalidade no esmagamento dos mais pobres e na destruição sistemática daqueles que ousassem criticar a hierarquia estabelecida, o Brasil sempre foi extremamente hierarquizado. Sempre esteve no senso comum da população em geral de que cada um deveria saber o seu lugar e respeitá-lo, seja o pobre ou o rico, o negro ou o branco, o trabalhador ou a empresário. Por isso sempre se pensou que protestos ou manifestações dos mais desfavorecidos são coisas de vagabundo, artimanhas do comunismo ou articulações de partidos de esquerda; politicas de cotas raciais ou de distribuição de renda sempre passariam como algo que humilhasse os pobres amarrando-os a uma politica de cabresto; projetos de lei que dessem mais voz aos movimentos sociais ou programas de bolsas para estudantes pobres cursarem faculdade no exterior são vistos sempre de forma ameaçadora.

A velha estrutura rígida e autoritária da sociedade brasileira passa então a ser contestada e posta abaixo pelo movimento tímido de mobilidade imposta por estas politicas sociais democratas do atual governo. Surgem então os movimentos de resistência, milhares de indivíduos se reunindo em manifestações clamando contra o bolivarianismo do governo, contra as estratégias de dominação comunista, contra o globalismo, contra o darwinismo e satanismo nas escolas e outros epítetos. Clama-se pelo volta dos militares ou da monarquia, pelo fim dos sindicatos, pelo fim da CLT, pelo fuzilamento de todos os petistas ou pela agressão de qualquer pessoa que use camiseta vermelha ou que lembre algo relacionado às esquerdas.

Por detrás dos indivíduos clamando pela manutenção de valores que lhes são mais caros, vemos as estruturas arcaicas, rígidas, autoritárias e hierarquizantes, assentadas em séculos de espoliação dos mais pobres, reagir e lutar contra a mudança. É através destes indivíduos e grupos mais conservadores, e apenas através deles, que a sociedade estática e antidemocrática, onde cada um deveria ter o seu lugar e se satisfazer com ele, se manifesta.

O que vemos, portanto, é uma sociedade injusta lutando para manter algo que faz dela o que ela é: sua desigualdade.
Não estou condenando as pessoas que são partidárias das manifestações pró-direita, na verdade acho que numa sociedade democrática todos possuem o direito de se manifestar sobre o que bem entender. Contudo, é preciso levar em conta que, por detrás do discurso: O Brasil não é vermelho, é verde e amarelo, há toda uma representação social de caráter extremamente antidemocrático e autoritário, que nega aos mais fracos o direito de se manifestar ou almejar um lugar mais alto na estrutura social.

De fato, o Brasil não é vermelho. Mas é autoritário e antidemocrático.

As Raízes Sociais da Corrupção

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corrupcao vocacionalUm dos assuntos que mais chamaram a atenção nestas últimas eleições foi, de fato, a questão da corrupção. Ambos os partidos que disputavam o pleito acusaram-se mutuamente de serem protagonistas de esquemas ilícitos que movimentariam somas homéricas de dinheiro. O Partido dos Trabalhadores com o seu Mensalão e com os esquemas da Petrobrás. O Partido Social Democrata Brasileiro com a Privataria Tucana, o Mensalão Mineiro, o Escândalo do Metrô de São Paulo e o Aeroporto de Claudio, em Minas Gerais.

O festival de acusações de ambos os lados, que infelizmente tomou conta do debate eleitoral, girou praticamente em torno da demonização do lado contrário. Reduziam o problema da corrupção à esfera individual, como se roubar dinheiro público, desviar verbas para lobistas, enviar dinheiro para paraísos fiscais e favorecer empresas amigas fossem ações apenas de cunho individual. Ficou evidente que está impregnado no senso comum do brasileiro, como podemos ver nas conversas no meio tanto virtual quanto real, nos pronunciamentos dos políticos, tanto de oposição quanto da situação, e na grande maioria da imprensa, seja aquela chapa branca ou de oposição, que a corrupção era fruto de um comportamento individual, um desvio moral e de personalidade.

O PT seria corrupto porque estaria cheio de indivíduos corruptores, o PSDB seria pouco confiável, pois estaria cheio de uma corja privatista e vendida. Enfim, os partidos seriam corruptíveis apenas porque estariam repletos de gente do mal. Para corrigir esse problema, deveria haver uma substituição desses exemplares por pessoas de bem. Em outras palavras, na mentalidade média do brasileiro bastaria votar em gente direita para melhorar o Brasil. Se o povo votasse em um bom presidente e em bons governadores já seria o suficiente para banir essa doença de nosso país.

Mas seria essa a raiz da corrupção?

Nada mais equivocado.

Não se pode compreender a corrupção sem levar em conta a raiz histórico-social da sociedade brasileira e sem compreender como se processa a cultura política nacional em tempos atuais.

A raiz da corrupção remete diretamente a nossa colonização, baseada no modelo da família patriarcal, que era o centro moral, econômico e politico da sociedade, ao mesmo tempo em que a autoridade do chefe familiar se sobrepunha a autoridade política das insipientes instituições públicas. Gilberto Freyre, em seu clássico Casa-Grande & Senzala, afirmou que a figura do senhor de engenho formava uma verdadeira referência para toda uma gama de indivíduos e grupos que dependiam basicamente dele e de seu poder. O grande senhor de engenho tinha um poder quase absoluto sobre as pessoas que viviam em suas terras.

Sergio Buarque de Holanda, por sua vez, ao analisar a formação brasileira, mostrou como existe uma oposição entre as instituições modernas e a sociedade tupiniquim. Para o autor, a modernidade nunca se consolidou no Brasil. Na verdade, o que ocorreu no caso brasileiro foi uma mistura mais ou menos ambivalente do entre traços modernos e racionais com características provindas das relações patriarcais, baseadas no compadrio e no mandonismo. O autor vai mais longe e afirma que o típico brasileiro é marcado pela cordialidade, uma espécie de aversão aos rituais e as formalidades. Holanda também afirma que preferimos muito mais dar valor às qualidades pessoais que à impessoalidade da lei. Dito em outras palavras, uma pessoa que se destaque entre as demais seja no quesito prestígio ou no dinheiro teria mais capacidade de tecer relações pessoais que lhe favoreceriam frente às imposições institucionais.

Roberto DaMatta, antropólogo e autor de Carnaval, Malandros e Heróis, em seus estudos sobre a sociedade brasileira afirmou que existe no Brasil uma dicotomia entre a pessoa e o indivíduo. O primeiro é o ser com qualidades próprias, destacado entre a multidão e com certas relações pessoais que o faça conseguir algumas vantagens frente às dificuldades da lei. O segundo, por sua vez, é aquele sem prestígio pessoal ou poder aquisitivo e sem relações pessoais que o faça elevar-se acima da mediocridade média. Todo o império e os rigores da lei impessoal e inflexível seriam dirigidos a pessoas desse tipo.

Todas as três abordagens se completam. A diferença é que, enquanto Freyre louvava a família patriarcal brasileira e seus engenhos como ponto nevrálgico de nossa formação, Da Matta e Holanda a enxergam com negatividade, pois, por causa dele, foi impossível erguer uma sociedade de fato moderna.

A própria gênese do estado brasileiro, além de ser flexível diante do prestígio pessoal e do poder econômico, é de caráter extremamente autoritário para aqueles que não possuem qualquer poder de barganha diante das leis: o povo. A forma como o estado tem agido nestes séculos desde a invasão portuguesa no continente sempre se pautou pela completa desvalorização das aspirações populares; basta revisitar a história brasileira e perceber que centenas de manifestações onde os excluídos reivindicavam melhores condições de vida eram esmagadas impiedosamente — nossa história é uma sucessão de massacres contra aqueles que não podiam se defender.

A falta de consciência social por parte do brasileiro, a fraqueza das instituições diante dos poderosos e o consequente autoritarismo contra aqueles que não tem poder de negociação resulta em outro fenômeno que aumenta a corrupção: a falta de transparência do funcionamento da máquina pública. Nossas instituições sempre funcionaram como se fossem um grupo de casta fechado, onde qualquer fiscalização no seu funcionamento ou tentativa de aumento de transparência nos gastos sempre são interpretados como uma quebra de sua autonomia ou um ataque a mesma.

Assim, completamente alheia aos olhos da sociedade civil e frágil diante dos poderosos e do poder econômico, nosso estado torna-se aquilo que Marx e Engels já disseram no Manifesto do Partido Comunista — um comitê para administrar os assuntos dos grupos dominantes, a revelia das reais aspirações e interesses do povo. Mas esse processo não se forma apenas pela gênese histórica do estado ou pela forma como o brasileiro médio enxerga as leis. O mercado também influi para aumentar a corrupção na máquina pública, seja através de lobistas que financiam vários políticos para defenderem seus interesses ou para alterar projetos de lei que possam prejudicar seus negócios.

Também há a formação de redes de poder por grupos das elites tanto econômicas quanto políticas. O filho do deputado se casa com a filha do desembargador que, por sua vez, tem ligações estreitas com uma grande empresa amiga de um determinado senador. Essas redes de poder redundam na blindagem de grupos através de uma troca intensa de favores entre os atores envolvidos e pode chegar até a inviabilizar a investigação de certos esquemas de corrupção.

Todos estes processos não resultam de causas unilaterais, são tributários de uma relação ambivalente entre instituições públicas, sociedade e mercado. Nenhuma dessas dimensões tem preponderância sobre a outra, mas elas se interinfluenciam, resultando neste arranjo extremamente autoritário que é nossa sociedade atual, uma das mais desiguais do mundo.

Particularmente, penso que a única saída para essa distorção seja a radicalização da democracia, seja a partir de criação de veículos que ampliem o diálogo com setores da sociedade civil com o estado, seja através de meios que garantam a possibilidade dos movimentos sociais acompanharem os gastos públicos e o processo de funcionamento das instituições. Isso daria uma maior possibilidade de discutir coletivamente como atacar os nós estruturais que facilitam a proliferação de atos não republicanos.

O fato de o projeto de lei que dava uma maior possibilidade dos movimentos sociais influírem na política ter sido derrubado pelo congresso é um sinal de que ele não tem a capacidade de se reformar por si próprio. É necessário uma pressão externa, da própria sociedade, para fazer valer sua vontade e radicalizar a democracia, tirando-a apenas do plano formal para trazê-la ao plano real.

Sem embargo, a corrupção no Brasil nunca foi um problema de ordem moral; é, antes de tudo, uma questão da própria cultura política e do próprio arranjo societário que deu-se entre sociedade, mercado e estado.

Da próxima vez que você ouvir alguém com o discurso individualizante/ moralista sobre a corrupção, como fazem a Revista Veja, Estado de São Paulo, Globo e toda a velha mídia tradicional, desconfie, o buraco está mais embaixo…

O Mundo à Revelia: a verdade como objeto de luta

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Estes tempos são tempos de caos; as opiniões são uma disputa; os partidos são uma confusão; ainda não foi criada uma linguagem para as novas ideias; nada é mais difícil do que dar uma boa definição de si mesmo em religião, em filosofia, em política. Sente-se, conhece-se, vive-se e, se necessário, morre-se por uma causa, mas não se pode denominá-la. É um problema desta época classificar as coisas e os homens… O mundo embaralhou o seu catálogo.

Lamartine (1790-1869)

As palavras de Lamartine nunca fizeram tanto sentido. Embora escritas no século XIX, elas traduzem muito bem os sentimentos de confusão, de vórtice, de torvelinho e de caos que caracterizam nossa época. Sem dúvida, vivemos num mundo onde as instituições, as relações, os indivíduos, e mesmo nossos valores mais importantes, se modificam a tal ponto que nos fazem sentir confusos, sem qualquer ponto de referência que possa nos dar uma sustentação.

A modernidade é o tempo em que nós somos deixados à deriva e onde somos forçados a tentar construir nossos próprios valores e a criar nossas próprias referências.

Num mundo onde as opiniões são uma disputa; os partidos são uma confusão, vivemos em volta de uma quantidade enorme de valores, crenças e correntes políticas tão numerosas quanto as estrelas no céu, que lutam constantemente entre si pela supremacia no mundo social.

No mundo moderno, a verdade se tornou um objeto de lutas.

Mas porque isso acontece?

As sociedades contemporâneas se desenvolveram de tal forma que, os indivíduos e grupos, ao ocuparem um lugar específico no mundo social, passam a gerar uma forma própria de ver o mundo.Os trabalhadores sem terra, os trabalhadores das indústrias, os sem teto, os empresários do agronegócio, os intelectuais, os imigrantes, a classe média, a grande e pequena mídia, ou seja, os indivíduos das mais diversas origens sociais geram as variadas formas de ver, pensar e problematizar o mundo; cada uma delas obedecendo a um grupo, coletividade, indivíduos e interesses diversos; cada um deles procurando sistematizar a autoconsciência de si mesmos para lutar pelo seus interesses.

Nossa época é a época da pluralidade de valores. Nenhum valor é mais importante ou mais verdadeiro que o outro. Nenhum está acima ou abaixo. Todos estes valores estão em luta e cabe a nós escolhermos quem serão nossos anjos e nossos demônios. A Verdade, ou seja, a verdade imóvel, absoluta em sua essência, integral, autossuficiente e eterna, nunca poderá ser apreendida por completo, pois no mundo líquido moderno ela sempre será opaca, impenetrável e irredutível à clareza humana.

Vivemos num mundo à revelia, onde temos um cardápio de valores e crenças as quais podemos escolher segui-las ou rejeitá-las. Nenhuma delas é absoluta, pois pode deixar de nos satisfazer ao primeiro sinal de revés. Podemos mudar de religião, de gênero, de corrente política ou de família; podemos mudar completamente o arsenal de nossos valores apenas para nos adaptarmos melhor a uma determinada situação. Afinal, um dos mais caros provérbios modernos é “seja tu mesmo” e o ser hoje é tão maleável e multiforme quanto podem ser os líquidos. No mundo da mudança, quem não está preparado para mudar conforme o cenário estará invariavelmente condenado à ruína, ou à morte. Ir sempre a frente é preciso, e aquele que não se move morrerá.

Vivemos num mundo à revelia, representamos uma peça cujo fim provavelmente será trágico.

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